Tudo bem, você é daqueles que torce o nariz quando alguém fala em cinema brasileiro. Pior ainda, acaba se apegando a clichês bobinhos como “só palavrão e gente pelada”, algo que já deixou de ser há uns 30 anos (sendo que na verdade aí também não era, mas enfim).

A verdade é que fugir do cinema brasileiro atual é um tiro no pé, já que o que não faltam nele são grande opções. Por isso, hoje, vou publicar um guia com 10 filmes para você entender o cinema nacional!

Antes de tudo, a retomada do cinema brasileiro

Para resumir um pouco, o cinema nacional estava indo de vento em popa. Já tinha encontrado seu público, tanto na Vera Cruz, quanto na Atlântida (um dia poderemos falar mais sobre isso), tinha encontrado o respeito do mundo com o Cinema Novo, lutado contra a ditadura enquanto encontrava suas “raízes undergrounds”, descoberto a sacanagem e castigado toda a sua nudez enquanto descobria o quanto o mercado era importante. E até ai estava tudo bem.

Mas em 1990 o primeiro presidente eleito pelo voto popular no Brasil desde 1964, Fernando Collor de Mello, enquanto “pegava emprestado” as “reservas financeiras” da população, cortou qualquer tipo de incentivo cultural, fechou a Embrafilme e mais um monte de aparelhos que auxiliavam a produção de cinema nacional e, por fim, acabou com o Ministério da Cultura.

Cinema Brasileiro: A Grande Arte

O desastre foi tão grande que em 1992, somente um filme foi produzido no Brasil, e ainda por cima falado em inglês (A Grande Arte, de Walter Salles).

Chegando ao cinema brasileiro atual

O cinema atual (re)nasceu em 1992, com a criação da Secretaria para o Desenvolvimento do Audiovisual, que conseguia recursos para a produção de cinema no Brasil.

Em 1995, Carla Camurati lançou Carlota Joaquina, A Princesa do Brazil, feito totalmente através desses recursos. O que acabou colocando-o como o primeiro filme da famosa Retomada.

Cinema Brasileiro: Carlota Joaquina

Um “movimento” que durou até 2003, mas que até hoje reflete um cenário atual que coloca o cinema brasileiro entre um dos mais respeitados do mundo. Poucos países conseguem ter a diversidade de produções que o Brasil consegue apresentar e isso é reconhecido mais e mais a cada ano que passa.

E o que mais chama atenção lá fora é a facilidade com que o cinema nacional troca de cara em cada região que produz. Um filme no nordeste pode ser urbano ou sertanista, mas sempre é completamente diferente daquilo que nasce no sul. Comédias, policiais, dramas pesados e assuntos pertinentes, filmes leves, documentários e cabeçudos que dão um nó em sua cabeça, tem de tudo por aqui.

Confira então um lista com 10 filmes que farão você rever seus preconceitos e entender não só que o cinema nacional melhorou, como pode sim ser considerado um dos melhores do mundo hoje.

O cinema brasileiro atual em 10 filmes

Centra do Brasil (1998, Walter Salles)

Pode ser que o que mais chame a atenção em Central do Brasil acabe mesmo sendo as duas indicações ao Oscar (Melhor Filme Estrangeiro e Melhor Atriz para Fernanda Montenegro), mas a grande verdade é que o filme de Walter Salles é um drama poderoso do começo ao fim.

E não tem como não se emocionar com a relação que nasce entre essa mulher que escreve cartas para analfabetos no Rio de Janeiro e o pequeno órfão que ela ajuda a descobrir e conhecer seu pai. Sim, você vai chorar um monte de vezes.

O Que É Isso, Companheiro? (1997, Bruno Barreto)

Esse também chegou ao Oscar e transforma um dos mais famosos casos do período da ditadura em um suspense que não só conta um pouco da história brasileira, como se aprofunda e encara de frente um movimento revolucionário que deixou um legado enorme.

O filme ainda tem o que talvez seja um dos elencos mais impressionantes do cinema brasileiro. Muitas e muitas caras conhecidas, só trabalhos acima da média e um desfecho de tirar o fôlego. Daqueles exemplos que mostram o quanto a ficção nunca consegue chegar aos pés da realidade.

O Homem que Copiava (2003, Jorge Furtado)

Um “operador de fotocopiadora” apaixonado pela vizinha a qual observa pela janela e uma trama que se desenrola em um thriller cheio de surpresas.

Melhor ainda, O Homem que Copiava, tem humor, ação, romance, personagens excelentes, muitas (e muitas) reviravoltas e tudo mais que você estiver procurando em um filme leve e apaixonante.

Estômago (2007, Marcos Jorge)

E falando em leveza, Estômago deixa de lado toda e qualquer possibilidade de leveza e mergulha em um drama com pitadas de sal, alecrim e muita violência.

No filme, um cara simples acaba indo parar na cadeia e usa de todos seus predicados na cozinha para sobreviver dentro da prisão. Enquanto isso, você acompanha o que o levou até lá. No final surpreendente, o espectador descobrirá o valor de uma boa preparação para uma reviravolta que explodirá a cabeça de todos.

O Homem do Futuro (2011, Cláudio Torres)

Mistura de comédia com uma história romântica sobre idas e vindas de uma casal, a diferença é que envolve uma viagem no tempo que cria vários paradoxos e futuros diferentes. De modo leve e delicioso, Cláudio Torres cria um filme de sci-fi sincero e que conquista todos pela simpatia, pelo humor leve e pela história de amor que move tudo.

O Homem do Futuro é um prova de que o cinema de gênero, quando bem produzido e caprichado, consegue atingir um público enorme.

2 Coelhos (2012, Afonso Poyart)

E falando em “cinema de gênero”, Poyart cria aqui um drama cheio de reviravoltas, movimentado do começo ao fim e com um visual pop e digno das maiores produções de Hollywood.

No filme, um cara parece estar em um plano misterioso onde nada parece fazer muito sentido, até o final surpreendente onde passado e presente se juntam para mostrar as ambições do protagonista. Além de um elenco incrível e cenas de ação de tirar o fôlego, assista antes que estreie a refilmagem de 2 Coelhos vinda da terra do Tio Sam (que não deve ter o nome muito parecido).

Cidade de Deus (2002, Fernando Meirelles e Kátia Lund)

Dispensando apresentações, Cidade de Deus talvez seja o filme mais brasileiro conhecido mundo afora. E não só pela suas quatro indicações ao Oscar (curiosamente sem Melhor Filme Estrangeiro), mas também por ter catapultado a carreira internacional de Fernando Meirelles e ter se tornado um divisor de águas de uma estética que influencia até hoje o cinema não só do Brasil.

A trama mostra um jovem da Cidade de Deus, favela do Rio de Janeiro, crescendo em meio a toda violência, mas conseguindo fugir de tudo isso. Ao mesmo tempo conta a história (em boa parte real) do crescimento do tráfico de drogas e crime organizado na região. Depois disso, ninguém mais explorou uma narração do protagonista e flashbacks sem pensar no filme de Meirelles. Muito menos o próximo da lista.

Tropa de Elite (2007, José Padilha)

Sucesso entre as barraquinhas de pirataria (depois que uma cópia do filme foi parar no mercado negro antes de estrear), Tropa de Elite virou um sucesso de público antes mesmo de chegar a qualquer cinema. E não era para menos.

Violento, visceral, dinâmico e cru, o filme mostra um experiente capitão do BOPE (Wagner Moura) do Rio de janeiro em busca de alguém para tomar seu lugar na corporação, mas isso pode ser muito mais complicado do que parece, já que a vinda do Papa para a capital carioca cria uma operação que colocará em risco a vida de todos.

Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro (2010, José Padilha)

E se Tropa de Elite gritava um fascismo exacerbado, lutava cara a cara com o crime organizado e não enxergava possibilidade nenhuma a não ser “faca na caveira”, Tropa de Elite 2 é talvez um dos filmes mais maduros do cinema nacional contemporâneo e que tem a coragem de colocar o dedo em todas feridas e questionamentos que surgiram com o primeiro filme.

Na trama, “Capitão Nascimento” finalmente deixa a patente do BOPE para trás e vai trabalhar na inteligência da Polícia, mas por lá acaba descobrindo que sua vontade e obstinação de “fazer a paz” através de um “saco plástico” não valem nada contra inimigos que ele não imaginava existir e nem que estivessem tão próximos dele.

Carandiru (2003, Hector Babenco)

Ainda que seja uma produção cheia de falhas, principalmente no ritmo do roteiro, seu desejo de ser um blockbuster nacional faz dele um dos filmes mais importantes das últimas décadas.

Com um elenco enorme e um Hector Babenco longe de seus melhores dias, seu lado meio mosaico meio “Altmanesco” (com várias pequenas histórias que se cruzam) tem uma ambição interessante de mostrar um cenário humano antes da tragédia que colocou o Carandiru nas manchetes dos jornais em razão de um massacre em 1992.

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