Cinefilia Crônica | Yippee Ki Yay Papai Noel!


É tempo de esquecer o filho em casa e viajar com o restante da família. Na pior das hipóteses, uma dupla de ladrões rouba sua residência, aproveitando o lar vazio. No melhor cenário, seu bacuri inteligentíssimo fará uma careta ao se olhar no espelho e terá a brilhante ideia de preparar artimanhas para atrasar o lado dos bandidos. Pegadinhas que poderiam ser narradas por João Kleber ou outro apresentador de TV aberta.

Chegamos àqueles dias em que tudo vai dar errado. Ficaremos desanimados com os rumos do trabalho, as brigas da família, os planos escorrendo pelo ralo. Mas, na hora certa, um ar de otimismo toma conta do ambiente e tudo se resolve como em um passe de mágica. É um espírito, dizem. É um espírito dessa época o responsável pela alegria obrigatória em tempos de fingir ser menos torturados pela realidade massacrante dos outros meses – e desse também.

Já estamos naquele tempo em que é possível ver neve, muita neve, mesmo morando em um país onde ela quase não surge. Mesmo na época do verão, quando só se pensa em praia e pouca roupa. Palavras como magia e encanto, velhas frequentadoras dos cartazes de velhas estreias, vão nos bombardear sua tela plana.

O trenó do Papai Noel vai quebrar horas antes da entrega dos presentes, causando medo de tudo dar errado nesse Natal. O responsável pelo destino para ajudar a figura folclórica será um trabalhador comum, com anos de indiferença ao fim do ano, mas que se verá obrigado a superar traumas e se tornar o herói do velho da roupa vermelha.

Em outro caso clássico, um homem fortão vai arrumar briga nas lojas de brinquedos por ter deixado para a última hora a compra do presente para o filho. E nem adianta se irritar pelas repetições, você pode ficar verde de raiva como um monstrengo que odeia o Natal e faz o possível para destruir a data na cidade que tanto ama as festividades.

Teremos duendes perdidos e bons velhinhos requerendo a aposentadoria nos próximos dias, para um sumiço repentino semanas depois, quando a ressaca dos boletos nos faz esquecer as promessas feitas nas últimas voltas do ponteiro deste ano.

Prepare as crianças para os mesmos desenhos animados da sua infância. Mesmo com o começo seja previsível e o final óbvio, será impossível escapar do clima, das árvores montadas, dos presentes embrulhados, da ceia farta com a família se desentendendo, das piadas do tio mala, de tudo isso.

E nem adianta optar por um filme clássico e demorado, tampouco maratonar uma série depois da ceia. Vão acusar de chatice acima do normal ou falta de sensibilidade para passar os bons momentos com a família, fingindo graça no mesmo tombo, do mesmo filme, sentado no mesmo lado da poltrona dos últimos e incontáveis 25 de dezembro.

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