Cinefilia Crônica | Vestindo Tony Montana


Descobri um ótimo site para comprar roupas. As estampas fazem referência a filmes clássicos, blockbusters e séries campeãs de audiência. Feitas de algodão, esquentam menos nesse calor em que a respiração é o primeiro passo para desidratar. Entregam em casa, numa simpática embalagem de papelão com o logo da empresa.

Por lá, renovei meu guarda-roupas. Mesmo com o receio de um encolhimento ao lavar, ou o tamanho não ser aquele anunciado ao finalizar o pedido. Volta e meia, é comum cair em um desses golpes de publicidade cibernética.

Virei cliente fiel. Nas ruas, ninguém me vê com a palavra “fé” escrita em letra de mão estampada no peito. Se depender de mim, a tarja vermelha com as tags “supreme”, “ranço” ou “embuste” não vai queimar os olhos de quem passa pelo centro da cidade. Tampouco com a gigantesca frase indicando que os nascidos em março são melhores que o resto do mundo por vontade dos deuses terão o privilégio de receber meu suor nas caminhadas pelo mundo.

Depois da descoberta da melhor forma de indicar filmes a desconhecidos, passei a sair acompanhado de Ferris Bueller com uma coroa na cabeça, me lembrando que a vida passa rápido demais e se você não parar de vez em quando para vivê-la, acaba perdendo seu tempo. Esperei por alguns meses pela chegada de um Vito Corleone acinzentado sobre um tecido preto e sombrio como nossos tempos. Meu guarda-roupa também abriga a clássica cena do “Funny How?” de Os Bons Companheiros. Joe Pesci e Ray Liotta protagonizam uma bela camisa, além da indispensável película mafiosa.

No Natal passado, presenteei minha irmã com uma camiseta dos personagens de Stranger Things. Ao receber cada uma das novas vestimentas, fazia questão de avaliar o produto com um “curtir” no link enviado por e-mail.

A última compra por esse site me trouxe um Al Pacino mais jovem. A roupa cinza e discreta traz Tony Montana gritando “Say hello to my little friend” nos minutos finais de Scarface, erguendo uma metralhadora e atirando em seus derradeiros momentos. A frase escrita em vermelho, abaixo do personagem, seria motivo de questionamento de amigos incautos e viraria um bom motivo para recomendar o clássico a quem procurava bons conteúdos nos streamings.

Estreei a nova camisa na última semana. Orgulhoso, fiquei alguns minutos encarando-a antes de vesti-la. Parecia ser a mais bonita das compras recentes. Nunca entendi o que nos leva a sentir felicidade com roupas novas, mas também sou humano.

Fui a uma festa na esperança de mostrar a todos meu vasto conhecimento sobre a vida de Al Pacino, contar sua filmografia e, quem sabe, ter boas conversas sobre cinema entre cervejas e docinhos de celebrações para crianças.

Não entendi bem quando o pai da criança ergueu o polegar e o indicador de ambas as mãos. Percebi o sinal de uma arma em minha direção e um sorriso no rosto. Passado algum tempo, notei que o orgulhoso genitor conversava com o sogro, que repetiu o gesto para mim, falando algo sobre um novo momento no país. Estranhei, fui ao banheiro e, de frente ao espelho, encarei a roupa amada.

Percebi a semelhança notável entre a estampa com o presidente da república em suas caricatas fotos de quando mais jovem. Voltei para minha mesa e percebi pessoas me encarando, uns com vergonha alheia, outros com um sorriso no canto da boca, demonstrando identificação com o que não me identifico. Houve mais gestos da arminha e seu sentimento de prótese peniana.

Não consegui mais beber, disse que tinha outro compromisso e fui para casa. Eles não conhecem Tony Montana, pensei. Nunca viram Scarface, lamentei. Tirei a camisa, tomei um banho e coloquei a camisa, antes a mais bonita, na gaveta dos pijamas.

Liguei meu computador, abri meu e-mail. Cliquei no link para avaliar minha compra. Foi a primeira vez que sugeri melhorias no desenho, critiquei a estampa, fui um consumidor consciente.

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