Leandro Marçal
17 de janeiro de 2018

Se eu fosse dono de um desses serviços de streaming – sou assinante de três, pago pouco para ficar em casa por horas sem saber a que assistir –, torceria pelas chuvas aos finais de semana. Talvez até rezasse ou fizesse uma dança para a água cair nos dias de folga.

Levantaria as mãos aos céus porque mais gente se veria obrigada a ficar em casa e teria de encarar a tela com um monte de quadradinhos organizando filmes e séries com descrições curtas, lado a lado, divididos por categorias sem ordem lógica, apenas jogando na cara do cliente que ele pode passar as próximas horas enraizado no sofá “pagando minhas contas”, lembraria o dono do streaming.

Sinto aquele cheiro de terra molhada e um sorteio mental sem lógica alguma faz ressoar em meus ouvidos um antigo comercial, enquanto trovoadas e os gritos do telhado atingido por gotas fortes me faz lembrar que o sábado será caseiro: “(…) os carros são como as lanchas, as motos são como os jetskis e os pedestres são como os banhistas”.
Quando a SmarTV finaliza o login e a tela me avisa o que assisti recentemente, crio uma paródia da velha e memética propaganda: “(…) os filmes são como encontros casuais de uma noite só, as séries são como longos relacionamentos e os espectadores seguem na dúvida entre qual dos barcos vai ser mais vantajoso embarcar nesse mar vasto de produção audiovisual”.

Porque pondero demais antes de começar uma nova série ao lembrar toda aquela dedicação de namoros. Não conseguimos pensar em outra coisa além do que pode acontecer no próximo episódio e não rendemos o suficiente no trabalho, nos estudos e interações sociais diárias. É um vício estranho esse de buscar a finalização de todas as tarefas pendentes para se apossar da poltrona e maratonar até o fim da temporada. O que vai nos levar a outra angústia e espera até o ano seguinte, quando trailers pomposos e teasers com os melhores momentos nos farão contar os dias.
Elas têm suas semelhanças com a visualização de mensagens no celular a cada cinco minutos no aguardo pela resposta da namorada, se assemelham à expectativa por saber se o amado não vai dar o braço a torcer e se aquela pessoa vai só “dar um tempo” mesmo ou está na balada curtindo a ressaca de não lhe suportar mais.

Em compensação, os filmes são encontros de algumas horas. Uns tão intensos que vão nos marcar por toda a vida e voltaremos a manter contato por muitas vezes até sempre. Sem brigas, DRs ou reconciliações. Olhando por um ângulo diferente a cada nova visita, buscando o clímax antes de ir embora. Mesmo que a gente não se dedique a eles por meses e meses.

Há alguns muito ruins também. Cheios de traumas e contratempos que nos fazem pensar se não era melhor ter ficado em casa dormindo naquele tempo perdido, diante de tanta ruindade. Mas a gente só sabe depois de sair de casa, é uma roleta russa – ainda que haja indícios e dicas de gente conhecida e confiável sobre valer a pena ou não.

Preciso estar psicologicamente bem para começar o relacionamento com uma nova série. Saber que terei de me dividir um pouco e não me dedicar exclusivamente a mim. Praticar a tal empatia, paciência e outros atributos exigidos como a total atenção o tempo todo nessa era imediatista. Vi muito mais filmes que séries ao longo da vida.

O cheiro da terra molhada já passou, a chuva está tão fraca a ponto de ser possível sair de casa sem nenhum tipo de proteção. Deixo os 13 episódios que todo mundo está comentando para outra hora. Aperto o “OK” do controle remoto em um filme clássico, desses que já assisti algumas centenas de vezes. Sei o final, decorei as falas. É o que tem para hoje. Mesmo que eu ainda assim demore escolhendo dentro do monte de opções dos três serviços de streaming que eu não sou dono.

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Sobre o autor

Leandro Marçal é escritor, careca e ansioso. Faz listas de filmes, séries e livros; nunca terminou uma. Crônicas e humor já lhe salvaram de problemas, mas lhe trouxeram alguns. É fã de ironia, acidez e sarcasmo.

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