Cinefilia Crônica | Em busca de um barbeiro judeu

Cinefilia Crítica O Grande Ditador

 


Duas cenas me encantam desde a infância. Nelas, não há cores. Mas há um Charles Chaplin como caricatura de Adolf Hitler e de outros símbolos do terror à civilização e humanidade.

Em O grande ditador, esse mestre da comédia soube como ninguém fazer humor político. Tá, eu sei que todo humor é político, mas você entendeu. Alguns comentaristas de portais não devem conhecê-lo.

Lembrei a obra lançada em 1940 durante uma mudança. Tomei cuidado para não danificar os DVDs de filmes clássicos, colocando-os em uma caixa de papelão com mais de um aviso. Coisa de gente cinéfila. Ao pegar a capa com um baixinho imponente, de uniforme e chapéu com símbolo emulando a suástica, não tive como escapar das lições de uma antiga professora, pedindo para prestar atenção ao discurso final do filme, quando o barbeiro judeu tomou o lugar de Adenoid Hynkel numa sucessão de coincidências.

Se você ainda não viu esse filme essencial ao ser humano, procure o trecho no YouTube e depois reserve pouco mais de duas horas para se deliciar com a película na íntegra. Enfim, tome vergonha na cara!

Volta e meia, compartilho no Facebook as palavras fortes de Chaplin. Amizades virtuais comentam a lindeza daquilo tudo, curtem e compartilham. Algumas delas assinam embaixo a pregação de políticos que lembram bem mais o caricato Hynkel que o barbeiro judeu, pobre e periférico. Acho que não entenderam bem o enredo ou se perderam nas legendas, não sei.

A outra cena que me marcou bastante está lá pelo meio do filme, intitulada O dono do mundo. Repito: se ainda não o viu, vá ao YouTube e depois busque assistir O grande ditador na íntegra.

Sozinho em sua sala, não lembro se antes ou depois da batalha por superioridade com Benzino Napaloni (sátira a Mussolini), Hynkel se deleita com uma bexiga coberta com o desenho do globo terrestre desenhado. Uma carga de simbolismo das mais fortes do cinema.

É logo depois que um assistente/puxa-saco abandona o recinto. Um Chaplin uniformizado desliza sobre a cortina. Olha a bexiga de cima para baixo, com a implícita pretensão de tomar conta de tudo aquilo. Balbucia o desejo de poder, ri e começa a jogá-la de um lado para o outro. Com os pés para trás, é capaz de chutá-la para que ela flutue no ar. A câmera acompanha tudo e uma trilha sonora suave torna lírica a insanidade do vilão. Feito criança mimada, equilibra a bexiga, cabeceia, admira com cara de apaixonado, pula.

Guardei o DVD fora da caixa, achei que seria melhor rever aquele filme e tentar extrair algo diferente dali. Mesmo depois de assisti-lo mais de 50 vezes, os dias recentes provam ser possível.

Em ano de eleições e com reuniões estranhas e interesseiras entre líderes internacionais, espero que outras professoras passem esse mesmo filme para as crianças de hoje.

Aliás, seria bom que todos separassem pouco mais de 120 minutos para aprender um pouco com o velho Chaplin. E com tanta gente alertando que as bexigas não podem ficar nas mãos de qualquer maluco brincando sozinho em uma sala. Nesse mundo sem roteiristas, não dá para contar com barbeiros judeus e coincidências místicas para impedir que a bexiga estoure.

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