Cinefilia Crítica | Filme de velho


Quando ouvi as crianças me chamarem de tio, percebi o passar do tempo. Tive vontade de responder que não era irmão da mãe de ninguém, mas preferi a cordialidade. Joguei a bola de volta para eles e segui meu caminho. Uma lista de compras e a carteira em um bolso, o celular em outro.

Puxei o aparelho e vi uma mensagem, era o pedido de indicação de filmes para um encontro romântico de sexta-feira à noite. Pensei no catálogo do streaming e indiquei uns cinco. Recebi de volta a reclamação, pois eram todos filmes “velhos”.

Critiquei o adjetivo. Como se o passar do tempo tirasse valor. Quer dizer: melhor uma porcaria do ano que uma obra-prima de décadas atrás? Pasmem: já ouvi esse tipo de reclamação por assistir a filmes dos anos 90. Isso, vindo de gente que não se criou indo às locadoras no fim de noite para entregar fitas VHS numa segunda-feira, não é de se estranhar.

Nessas horas, mando uma conta alta. Inspirado nas cartas que não param de chegar à minha caixa de correios, com lembranças cordiais do SPC e do Serasa, massacro a indigência mental de quem abomina produções antigas. Pergunto se já largaram os avós com dores no corpo em algum depósito ou vão tomar um sonífero eterno quando esquecer de esquecer virar rotina. Sou xingado.

Não sei se é um aspecto cultural dos nossos tempos. Dizem que devemos respeitar os mais velhos. Nos ônibus e também nos filmes. Bem longe de celebrar um suposto passado glorioso em que tudo era melhor que hoje, mas é bom deixar claro que o mundo já funcionava antes de existir a internet.

Gosto de reparar umas manchas estranhas na tela e aquele som típico das filmagens de outros tempos. Quando percebo efeitos especiais precários, meus olhos brilham. Maquetes explodindo, bonecões meio toscos simulando monstros amedrontadores. Quando percebo que uma montagem no Photoshop seria melhor que a cena vista na tela, fico feliz pelo avanço e não dou risada. Tampouco encaro a cena como quem vê um ritual de tribos distantes e atrasadas.

Filme velho não é xingamento, é elogio. Porque falar “velho” é mais bonito que “antigo” ou “idoso”. É velho, com V de valor. Rugas não marcam derrotas, mas o passar do tempo. E se envelhecer é viver, viver não é perder. O mesmo com os filmes. Que bom vê-los envelhecendo.

Acho que fui bloqueado quando indiquei boas produções de galinhas dançando e porquinhas cantando músicas interativas para crianças. Talvez não fossem ideais para um clima romântico, mas eram mais recentes que os bons filmes antes indicados.

Voltei para casa de sacola nas mãos e a molecada não me chamou de tio outra vez. Guardei as compras, liguei a TV e procurei algo para assistir. Olhei a ficha técnica: 1971. Teria um bom programa para as duas horas seguintes. Sem bloqueios, nem adjetivos.

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