Cinefilia Crítica | “Bom dia. Você gostaria de ouvir algumas palavras do nosso Senhor Hitchcock?”

Deus

Há um tipo estranho de gente. Tudo bem, toda gente é estranha. Mas este que não suporta filmes, séries ou tudo o que nos hipnotiza diante de uma telinha ou telona me assusta um pouco.

Falam com desdém de nós, os cinéfilos. Perguntam como somos capazes de ficar parados por duas horas ali, sem fazer nada. Ainda assim, veem normalidade nos minutos eternos em trânsito, dentro de uma caixa com rodas, para ir e voltar do trabalho. Não se incomodam pelo tempo gasto em templos, ouvindo gritos ensandecidos ou participando de um jogo de vivo ou morto, num senta-levanta-senta-levanta sem parar, na busca por se redimir das tantas besteiras feitas durante a semana.

Tratam a gente – o tipo que gosta de filmes – como seres inferiores. Nunca entendi bem o motivo. Confesso achar bem estranho alguém ser capaz de desgostar de produções audiovisuais e toda a realidade ali criada, em minutos que escapamos de outra realidade, esta menos agradável que a da ficção.

Quando chego a uma mesa de bar, almoço de domingo ou qualquer outro bate-papo e vejo alguém alheio à conversa sobre um lançamento, por exemplo, observo calmamente. Puxo assunto sobre outras produções clássicas, dessas que nem mesmo um extraterrestre seria capaz de desconhecer.

Se percebo o mesmo tom blasé, me vem a necessidade de uma conversão. Começo a pregar sobre a importância dos bons filmes para nossa formação cultural, espiritual, ou para mero entretenimento passageiro. Chego a apelar para a necessidade de estarmos bem informados para não haver constrangimentos nos bate-papos como aquele.

Relembro boas e instigantes histórias do cinema, sem contar muito do enredo. Assim, para saber qual o final, o convertido terá que buscar o filme e assisti-lo em sua totalidade para entender o desenrolar da trama e seus desdobramentos. É uma estratégia que falha poucas vezes.

Depois de algum tempo, percebo o ex-odiador de películas debatendo lançamentos, spoilers, trailers e outras coisas da sétima arte. É engraçada a desfaçatez com que o faz, mas paciência. Não sou de apontar o dedo na cara e soltar um “hummm, se convenceu?” como alguns amigos fazem. Comemoro a conversão, é festa no céu cinematográfico.

É curioso sentir desconforto quando passo na frente de monumentos isentos de impostos, diante do qual me entregam panfletos sobre a salvação, arrebatamento e outras histórias que mais parecem criações de roteiristas imaginativos. Penso na importunação, falta de bom senso, respeito a quem pensa diferente. Nunca lembro esse mesmo incômodo ao me deparar com quem acha bizarro passar duas horas parado diante de uma tela, assistindo a uma história que não aconteceu – é, tem gente que destrata a ficção falando assim, paciência.

Sigo caçando os hereges das telonas, perturbo os pecadores dos blockbusters, não admito as blasfêmias contras os grandes clássicos do cinema. Nunca é tarde para conhecer a palavra de um Scorsese, ouvir as pregações de um Kubrick ou um testemunho de Hitchcock. Ainda há tempo.

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