Visualmente estonteante, a nova versão de Cinderela é também simpática e divertida. O diretor Kenneth Branagh e o roteirista Chris Weitz, porém, vão pouco além da clássica animação lançada Cinderela Posterpela Disney em 1950, trazendo neste filme uma história já ultrapassada, centrada em uma garota passiva e irritantemente bondosa.

Os irmãos Grimm escreveram a história de Cinderela a partir de diversos contos antigos, mas foi mesmo a versão da Disney que popularizou e eternizou o conto de fadas da Gata Borralheira. A trama, aqui, é a mesma: após a morte do pai, a jovem Ella (Lily James) – que perdeu a mãe quando criança – vê-se aprisionada às maldades de sua madrasta e de suas meias-irmãs, que a tratam como uma empregada na própria casa. Honrando o conselho de sua mãe à beira da morte, “tenha coragem e seja gentil”, Ella aceita o abuso sem reclamações – até que, certo dia, conhece o príncipe Kit (Richard Madden) na floresta. Desconhecendo o título do rapaz, ela espera encontrá-lo novamente no baile que acontecerá no castelo e, para poder ir à festa, contará com a ajuda e a magia de sua Fada Madrinha (Helena Bonham Carter).

“Tenha coragem e seja gentil” como a chave do sucesso e da felicidade é o tema central do filme e, portanto, é repetido aproximadamente duzentas e quarenta e sete vezes ao longo de 105 minutos. Na visão de Ella, ter coragem significa aceitar o que a vida lhe lança, ou seja: o tratamento abusivo da madrasta (Cate Blanchett) e de suas filhas, Anastasia (Holliday Grainger) e Drisella (Sophie McShera). Assim, enquanto o roteiro cria uma conexão da garota pelo lar em que sua família vive por tantos anos – seu pai declara que a falecida mãe de Ella é “o coração da casa” -, isso não justifica a passividade com que ela aceita os maus tratos da viúva de seu pai, sem reclamar e sem esboçar qualquer tipo de reação enquanto é obrigada a limpar a sujeira e a arrumar a bagunça causada, muitas vezes de propósito, por aquelas que deveriam ser sua nova família.

Até, claro, que ela conhece o príncipe. O encantamento pelo belo rapaz, que Ella acredita ser um aprendiz e alguém simples como ela, oferece à garota a chance de sonhar com uma vida diferente. Para tanto, ao invés de tentar reencontrar Kit, por exemplo, frequentando a floresta onde ela o conheceu, ela aguarda até que o reino anuncie um grande baile, onde ela espera que encontrará o tal “aprendiz”.

A nova adaptação de Cinderela, porém, tenta dar alguma profundidade ao príncipe, estabelecendo-o como alguém por quem a protagonista realmente está interessada e com quem forma uma conexão, ao invés de simplesmente ser “O Príncipe Que Salva a Garota”. Kit vê em Ella alguém que o inspira a seguir seus sonhos e a criar seu próprio rumo, já que ele, também – claro – acredita em “coragem e bondade” como a solução de tudo e quer, principalmente, casar-se por amor e não apenas com uma princesa com quem uma união beneficiaria o reino.

Infelizmente, Ella mantém-se “A Garota Salva Pelo Príncipe”, já que ela jamais demonstrou qualquer tentativa ou mesmo desejo de livrar-se da madrasta e das meias-irmãs, ou sequer de tentar utilizar suas supostas qualidades de “coragem e bondade” para mostrar que o comportamento delas é errado, antes de conhecer Kit. De fato, Ella é tão passiva que sequer solta um pio quando, depois de declarar à Fada Madrinha que não quer um vestido novo para o baile, apenas que o antigo vestido de sua mãe seja concertado (a garota quer sentir a presença da mãe com ela naquela noite especial), a Fada altera totalmente o traje. Além disso, mesmo apaixonada pelo rapaz, ela não faz qualquer esforço para reencontrá-lo após o baile e, ao invés disso, espera ele ir até ela com o sapatinho de cristal e declarar que as diferenças de status entre os dois não importam.

Cinderela Crítica

Tão próximo à animação, a nova versão traz, claro, as imagens tão familiarmente associadas ao conto: a abóbora transformada em carruagem, os camundongos que virão cavalos para levar Ella ao baile, o sapatinho de cristal esquecido na escada. Branagh cria um belíssimo espetáculo, e toda a sequência envolvendo a Fada Madrinha é fascinante, desde a abóbora que cresce até estourar e ser remontada como uma imponente carruagem, até o majestoso vestido de Bonham Carter, que inclui até mesmo pequenas luzes que realçam a magia da personagem.

Aliás, a figurinista Sandy Powell merece aplausos: se o vestido da Fada é fascinante, o protagonista entre os trajes é, obviamente, o vestido de Ella para o baile. Parecendo leve apesar de seu tamanho, os diversos tons de azul flutuam e criam belíssimas sequências quando a garota foge do castelo e quando dança com o príncipe – auxiliados, claro, pela fotografia certeira de Haris Zambarloukos, que mantém o vestido mais iluminado que o resto do quadro e, assim, a roupa domina a visão do espectador.

Da mesma forma, as imponentes roupas vestidas por Cate Blanchett ajudam a atriz a construir uma vilã cuja força e poder são claros. Sempre parecendo estar posando e sendo admirada, a atriz diverte-se com a personagem que, por outro lado, é prejudicada pela pouca profundidade que o roteiro lhe oferece.

Por outro lado, os efeitos digitais para criar os camundongos com quem Ella conversa incomodam – e os animais, por si só, são um elemento que combinam mais com um desenho animado e que, aqui, provam que o filme poderia ter tomado a liberdade de se afastar de sua principal inspiração e criado algo novo em meio a um conto de fadas clássico.

Pois é este, afinal, o principal problema de Cinderela: outras versões live-action de contos que, até hoje, mantêm o gênero “histórias de princesas” vivo, independente de sua qualidade, utilizaram a base que todos conhecemos como ponto de partida para uma história nova e modernizada – desde Branca de Neve e o Caçador até Malévola, da própria Disney. Justamente a familiaridade do público com a narrativa é o que permite aos realizadores e estúdios encontrarem novas formas de apresentar e reapresentar essas histórias, explorando outros aspectos da trama e dos personagens. Nesta obra, porém, as poucas tentativas de acrescentar novos elementos ao conto da Gata Borralheira são rasas e o longa, em essência, nos apresenta a uma Cinderela que estaria em casa na animação de 1950.


idem” (EUA, 2015), escrito por Chris Weitz, dirigido por Kenneth Branagh, com Cate Blanchett, Lilly James, Richard Madden, Helena Bonham Carter, Stellan Skardgard, Sophie McShera e Holluday Grainger


Trailer – Cinderela

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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