Ciganos da Ciambra | Uma experiência intensa e impactante

Ciganos da Ciambra Filme

Que filme impactante! E extenuante. Quando chegamos na última cena estamos esgotados, e não é pelas duas horas de projeção. Ciganos da Ciambra praticamente nos rouba a alma com seu fundo documental e histórico, e faz isso de uma maneira absurdamente tensa e atemporal. Quando o garoto do filme chega ao final, ele passou por tantas iniciações, e todos os passos necessários para se tornar um homem – algo que ele deseja muito desde o começo – que quase parece que o filme não vai terminar.

Pelo menos para nós. Para ele, valeu completamente a pena.

E é sobre isso que o filme fala: pontos de vista. Na primeira cena vemos o patriarca da família de ciganos chegando próximo a um córrego, em um vale que se abre ao seguir um cavalo que vai um pouco à frente. Ele acaricia os pelos do animal cinzento, mestiço (símbolo), de maneira quase comunicativa, agradecendo por levá-los até aquele lugar. Em seguida, do córrego, faz para si um copo da água com meio limão espremido. Quando vemos o garoto preparando a mesma bebida para seu avô, já muito velho, usando o mesmo tipo de limão, mas com água da torneira, sabemos que uma geração se passou; e alguma coisa mudou naquela família de nômades.

O mundo mudou. E não existe mais mundo para um povo que vive de mudança. Com todas as terras ocupadas pelos países, as famílias ciganas eventualmente se assentam em algum deles, literalmente às margens da sociedade que as “acolhe”. Sem a terra para lhes prover, acabam se tornando ladrões e trambiqueiros profissionais. A energia elétrica, eles puxam do fio mais próximo da rua. Roubam fios da rua para derreter o cobre. Você sabe o que as pessoas dizem sobre os ciganos, e isso em qualquer lugar do mundo. A polícia ir e vir para os prédios isolados onde essa família vive, trazendo e levando um ou mais membros para a prisão, já se tornou rotina. Apesar do “modus operandi” ter mudado nessa geração, alguns valores permanecem; eles são um povo unido contra o mundo, seja ele formado por “italianos” ou imigrantes africanos.

Mas vamos falar sobre o garoto. Seu nome é Pio, da família Amato; Pio quer dizer “mais” em grego ou “piedoso” em italiano (e Pio Amato é o nome verdadeiro do ator que o faz). Ele está naquela idade que é velho demais para ficar brincando com seus irmãos menores e jovem demais para adentrar no mundo do crime dos adultos. Ele parece carregar os genes ciganos até nos ossos. Ele tem pavor de lugares fechados que se movem rapidamente, como elevadores e trens. Ciganos foram feitos para serem donos de seu próprio nariz, e não para serem conduzidos. Pio vive com sua família nesses prédios que parecem ter sido abandonados. O truque para tornar o filme real é elencar todos os atores como pessoas de carne e osso. Estamos falando de uma família inteira de ciganos romenos, a família Amato, que contracena como personagens da vida real, mas o fazem com uma propriedade assombrosa.

É uma decisão arriscada usar toda a família como elenco (15 pessoas aparecem nos créditos finais, todas com o mesmo sobrenome), mas ela se paga,. Por conseguir encontrar o caminho entre o real e o imaginário, o filme de Jonas Carpignano ganha uma narrativa com os contornos tão arrojados que em vários momentos surge a dúvida sobre a ficção, ou a estranheza de saber que é uma história ficcional e ainda assim ficar pensando se essas pessoas são atores ou figurantes da vida real. Não por causa da atuação amadora, pois não é, já que o filme se utiliza de cenas simples que vão compondo o mosaico de suas personalidades, em principal o garoto e sua mãe.

Ciganos da Ciambra Crítica

E apesar dos momentos do filme parecerem não exigir muitos desafios de atuação, alguns momentos são gratas surpresa. Essa família possui uma ginga impressionante. O que mais se paga desse experimento é observar como foi captada a essência do patriarca fundador, o avô, que vira um símbolo, e da matriarca atual, onde se enxergar o sofrimento e o passar dos anos nos olhos dessa mulher. A dor quase é transmitida diretamente para as câmeras.

E essa dor existe em quase todo o filme graças a uma direção furtiva de Jonas Carpignano, com câmera na mão e quase sempre emulando os passos de Pio, o seguindo aonde quer que vá, o que se torna mais dinâmico graças à edição que quase não se faz perceber de Affonso Gonçalves (da série True Detective). Sua liberdade lembra Sunny Pawar, o garoto de Lion: Uma Jornada Para Casa, mas sem sua ingenuidade. Muito pelo contrário. No começo nossa bússola moral até nos deixa inquietos. Roubar é errado, aprendemos desde pequenos. Aos poucos, porem, vamos nos levando pelos valores que, sabemos, o garoto aprendeu desde pequeno. “É o mundo contra nós”, já dizia seu avô. É outra decisão arriscada do filme não se justificar em nenhum momento, deixando essa decisão para o espectador.

Pio sabe que precisa passar por todos os rituais para ser considerado o mais novo homem da família. Ele sabe que precisa e sabe o que tem que fazer. Por causa disso ele se torna sempre a força motriz de si mesmo, se impulsionando naquele universo a despeito de todos dizerem que ele não pertence ainda a esse mundo. No caminho ele terá que fazer dolorosos sacrifícios, como a amizade com um africano. E mais uma vez a decisão de Carpignano é apenas nos deixar realizar este fato; afinal, os valores nós já sabemos, nos foram dados desde o começo; é o trajeto que dói.

A produção do filme brilha em seus detalhes mais sutis. Como a fotografia, sempre cinzenta e escura, demonstrando como essas pessoas parecem viver sempre nas sombras. Exceto em um breve momento, onde Pio e sua mãe se abraçam, em um raro momento de descanso e de aconchego familiar. E nesse momento a fotografia é clara e límpida como comercial de margarina, demonstrando como o fotógrafo Tim Curtin, que estreia no cargo após ser responsável pela câmera em seu vasto currículo, está alinhado com os sentimentos do protagonista.

Já a trilha sonora é outra na categoria “vamos arriscar e ver no que dá”. Embora escolher músicas contemporâneas e pop seja sinal de preguiça, aqui não é o caso, pois como estamos testemunhando uma história com pano de fundo real, a música se torna incidental, e mesmo que não tenha uma origem para o som, ela é sentida pelos personagens, o que inclui a ótima música final, que se sai muitíssimo melhor, por exemplo, que a música de Sia nos créditos finais do já citado Lion, que abraça a mensagem sem se desvencilhar do clichê. Aqui não existe clichê, pois tudo é cru e reto.

E por ser cru é que Ciganos da Ciambra pode causar estranheza em muita gente. Não é um filme mastigado para o grande público, mas tem o apelo emocional necessário para os dispostos a se entregar em uma experiência intensa. Para os que se derem essa liberdade, prometo que irão sair da sala de cinema com alguma coisa para pensar, seja a sua própria vida ou a de outros neste planeta.


“Ciambra” (Itália, 2017), escrito e dirigido por Jonas Carpignano, com Pio Amato, Koudous Seihon, Damiano Amato.


Trailer – Ciganos da Ciambra

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