Chuvas Suaves Virão | Uma aventura à la Stranger Things… mas menos barulhenta e mais madura

*o filme faz parte da cobertura da 43° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


É uma adaptação de livro? Poderia ser. Chuvas Suaves Virão explora essa possibilidade lúdica de livro infanto-juvenil com suas ilustrações de início de capítulo junto da frase principal. O que nos coloca em contato com uma aventura protagonizada por crianças que estão sempre segurando lanternas, à la Stranger Things, mas argentinas, menos barulhentas e mais maduras.

Não há muitos diálogos, mas há muita observação quando em um belo dia os adultos amanhecem dormindo e nunca mais acordam. As crianças se reúnem e começam a explorar este novo mundo sem eletricidade e sem pais lhe indicando o caminho para viver.

Não é um filme de narrativa, mas de sensação. Não acontecem grandes coisas porque o diretor Iván Fund quer que observemos essa nova realidade através dos olhos das crianças e sem interferência do que pode ser feito a respeito. E aos poucos nos livramos das amarras de uma trama, apenas observando os pequeninos, de diferentes idades, se agrupando amigavelmente. Porque é isso que humanos deveriam fazer sem ideias pré concebidas.

A trilha sonora é primordial a esse respeito. Com acordes dissonantes e um ritmo aparentemente desconexo, aos poucos surge uma música. Como é possível? Nós montamos esse padrão na cabeça. A lógica musical estava aí todo tempo, só precisava alguém nos inspirar a ver o invisível. Eliminado o mundo como o conhecemos fica mais fácil enxergar o que existe além.

Chuvas Suaves Virão não possui mensagens a serem decodificadas nem lições sobre amadurecimento. Nem é sobre ecologia, pois não há catástrofe. Ou talvez a catástrofe maior tenha desaparecido. Sem adultos não há fronteiras, nem propriedade e nem agressões. Apenas um bando de filhotes de primatas nômades explorando este mundo pacífico herdado, ou dado de presente.

É interessante perceber que o roteiro escrito por Tomás Dotta e Iván Fund evita tomar decisões radicais como pais mortos justamente para não perdermos essa leveza que acontece ao constatar que estão todos bem. Apenas ausentes. Então, no melhor estilo “quando os gatos dormem os ratos fazem a festa” as crianças se organizam, mas não se trata daquelas comédias onde eles comem um monte de doce e existe algum perigo que deve ser combatido. É um filme exploratório da ideia apenas.

Não é para quem é impaciente, e muito menos para quem espera uma resposta maior. Mas há uma explicação, nas últimas cenas, mas ela se une à experiência como um todo de maneira orgânica. Entendemos porque os adultos dormem e não morrem, e imediatamente entendemos os motivos das coisas acontecerem dessa forma quando o mistério é revelado. Muitos e muitos filmes já nos ajudaram a antever como as coisas podem dar muito errado se fosse de outra maneira. Mas as crianças… as crianças são parte do mundo que não é conflito. Elas não são o problema, mas talvez parte da solução, se você for pensar nesses méritos.

Ou no fundo é apenas um filme com uma fotografia cinza que se descobre ensolarado depois que o pior já passou. E vem a chuva, limpando nossas concepções, nossos preconceitos, nossos medos. Uma experiência de renovação, curta e singela.


“Vendrán Lluvias Suaves” (Arg, 2018), escrito por Tomás Dotta e Iván Fund, dirigido por Iván Fund, com Alma Bozzo Kloster, Florencia Canavesio e Massimo Canavesio.



Trailer do Filme – Chuvas Suaves Virão

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