De todos diretores brasileiros que recentemente estrearam em Hollywood, Fernando Meirelles em Jardineiro Fiel, Walter Salles em Água Negra, José Padilha com seu Robocop e até Afonso Poyart em Presságios de um Crime, talvez quem melhor tenha aproveitado a oportunidade seja agora Fernando Coimbra em Castelo de Areia”.

Para quem não lembra, Coimbra dirigiu o interessante e tenso O Lobo Atrás da Porta, e chega na “Terra do Tio Sam” através de um filme com cara de independente, produzido pela Netflix e quase sem alarde. Onde isso é melhor que o resto? Quase ninguém irá julgar isso como um fracasso, como tanto aconteceu com todos outros.

E isso, principalmente, por Castelo de Areia ser um filme que sabe seu tamanho, suas ambições e suas vontades. Não quer ser relembrado depois disso como um marco do cinema tentando enxergar o conflito recente no Iraque, mas sim como alguém que tinha uma história para contar. Uma história honesta, sincera e que funciona em suas camadas.

Nela, Nicolas Hoult (o novo Fera dos X-Men mais recentes) é o soldado Matt Ocre, que inicia o filme quebrando a própria mão para tentar fugir de um campo de batalha onde ele não consegue encontrar significado. Ocre então acaba sendo destacado junto com sua unidade para um trabalho comandado pelas Forças Especiais em uma região violenta e perigosa.

É lógico que aos poucos isso vai fazendo com que o “private Ocre” se torne um soldado amargurado e violento diante da hostilidade de uma guerra que até aquele momento não tinha contato. Castelo de Areia é sobre isso, sobre essas pequenas mudanças que Ocre e, provavelmente a maioria dos combatentes sofrem. E o roteiro de Chris Roessner busca essas ironias que são criadas com o tempo.

Ocre quer fugir, mas termina fazendo de tudo para não ir embora, assim como não mais conseguindo conviver com aquele pacifismo do início. Sua missão envolve distribuição de água a uma comunidade, enquanto isso em Bagdá a mansão de Saddam Hussein, tomada pelo exército americano, mais parece um resort com piscinas lotadas e chuveiros fortes. E, como você pode esperar, quanto mais corajoso e “amante da guerra” o soldado for, mais chances dele levar a pior.

castelo de Areia Crítica

Mas nada disso Coimbra esfrega na cara de ninguém, muito pelo contrário, trabalha bem esses estereótipos, com calma e tempo. Faz você ficar a vontade com as situações, seja em tempos de paz como de guerra, e sempre “retira seu chão” enquanto chacoalha a trama (funcionando sempre, ainda que nunca muito surpreendente).

E mesmo que seja um filme claramente mais barato, com cenas de tiroteios econômicas e poucos efeitos especiais, o diretor ainda assim entrega um trabalho interessante, claro, ágil e que até começa passeando pela base em um empolgante plano sem cortes que mergulha na realidade daquele mundo.

Já em termos de elenco, Castelos de Areia é mais um acerto interessante, com um grupo de bons atores coadjuvantes do cinema atual se comportando como bons coadjuvantes em um filme que lhes dá um pouco mais de espaço. Beau Knapp (Dois Caras legais), Neil Brown Jr. (Straight Outta Copmton) e Glen Powell (Jovens, Loucos e Mais Rebeldes) convivem bem com seus estereótipos, enquanto Logan Marshall-Green (Prometheus e O Convite), continua sendo uma versão mais em conta de Tom Hardy.

Destaque apenas para o “Superman” Henry Cavill, que prova mais uma vez que sua falta de capacidade está muito mais nas mãos de Zack Snyder e da Warner, do que nas suas próprias. Assim como em O Agente da U.N.C.L.E., Cavill entende bem as necessidades do personagem, e mesmo em com muito menos tempo de tela, cria um Capitão Syverson que rouba a cena cada vez que dá as caras. Cavill cria um tipo soldado das “Forças Especiais” que já está cravado no imaginário coletivo pop, quase como uma sátira a essa figura farsesca, porem perigosa do exército americano.

E Castelo de Areia talvez seja exatamente isso, um filme que reconhece o que tem que fazer e o faz, como um bom soldado. Hollywood adora bons soldados e para Fernando Coimbra, missão dada foi uma missão cumprida.


“Sand Castle” (EUA, 2017), escrito por Chris Roessner, dirigido por Fernando Coimbra, com Nicholas Hoult, Glen Powell, Logan Marshall-Green, Beau Knapp, Neil Brown Jr. Tommy Flanagan e Henry Cavill


Trailer – Castelo de Areia

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