Carros 3 consegue comprovar que a Pixar continua em sua crise de criatividade, mas também que isso não é motivo para fazer filme ruim. Diante disso eles abraçam o convencional com carinho, amadurecem mais uma série (depois de Toy Story) e fazem de tudo para não estragar o passeio. Mas como quem não arrisca não petisca esta é mais uma aventura morna no campo das ideias e da emoção de um estúdio que era sinônimo de momentos icônicos do Cinema em forma de computação.

Com uma introdução que faz ecos com Toy Story 3, aprendemos que Relâmpago McQueen está sendo ultrapassado literalmente por carros mais velozes, materializado por um “vilão”, Jackson Storm, mas também pela tecnologia, cada vez mais computadorizada, baseada em números e tornando, como a própria Formula 1 do mundo real, uma competição de clones. O tempo passou e depois de seu primeiro acidente grave ele se vê como seu próprio tutor, Doc Hudson, que em seu auge “pendurou as calotas” (essa expressão é ótima!) por força maior.

Então estamos falando de um filme que tenta resgatar tanto o sentimento saudosista do primeiro Carros quanto o clima de despedida do último filme dos brinquedos, o que não é necessariamente algo ruim, embora a gente sempre espere algo a mais do estúdio de animação. E esse “mais” aqui fica por conta das habilidades técnicas da animação, além das obras de arte desses artistas anônimos que fizeram dezenas de “matte paintings” (cenários pintados ao fundo) que evocam um romantismo no passado e presente que torna as estradas americanas mais belas do que na realidade.

As “pinturas” são usadas durante as viagens de McQueen e seu fiel caminhão, e soam como se este fosse a ambição técnica e artística dos criadores do primeiro Carros. Os próprios carros tiveram sua carroceria melhorada, e conseguem ser ainda mais expressivos, embora não deixe de ser estranho ver aqueles olhos grandes e humanos se mexendo no vidro da frente. No entanto, o melhor momento gráfico, pois apresenta algo de novo, são os breves minutos onde visitamos o passado de seu tutor, e conhecemos alguns carros das antigas contando causos do seu velho amigo. Note como os pára-choques dos dois velhinhos servem como barbas garbosas e como os tons pele e rosa da primeira corredora de sucesso, agora uma “senhora”, remetem diretamente a uma dama caucasiana norte-americana com certa idade.

E essa dama graciosamente nos apresenta o abraço do convencional que os estúdios fazem ao preguiçosamente inserir uma heroína feminina nas estradas. Ela é a jovem treinadora da empresa comprada pelo rico e jovem (e portanto ambicioso) fã de carteirinha de McQueen. A menina treinadora, que além de ser menina é latina, tem um passado triste para contar em uma cena de beira de estrada e logo já imaginamos onde isso vai dar.

Carros 3 Crítica

O que, mais uma vez, não necessariamente é ruim. Apenas preguiçoso. Até porque “heroínas femininas porque sim” já está se tornando lugar-comum nos filmes e em breve será um sub-gênero, onde pela primeira vez no Cinema a identificação do espectador com um personagem vai exigir que ambos sejam do mesmo gênero. Mas no caso de Carros 3, ao menos teríamos uma corajosa mudança no terceiro ato (que não pretendo revelar, mas que é emocionante) se o roteiro convenientemente (e de maneira absurda) não voltasse as coisas ao normal, tornando a história potencialmente mais interessante dos dois filmes (esqueçamos Carros 2) em um exercício não apenas preguiçoso, mas covarde.

A cereja no bolo é a trilha sonora de Randy Newman, que adora pontuar os sentimentos em cada cena mais do que deveria. Algumas músicas são muito boas e pertinentes, fora a vibrante canção final, feita para ganhar Oscar, mas o diretor estreante Brian Fee não parece perceber que seu filme não merece tanto refino musical, ou há problemas intransponíveis em tentar contar um drama em que os personagens são carros falantes e a única solução é aumentar o som. De ambas as formas, há um certo tom de desespero, ainda que controlado, em não tornar Carros 3 a repetição do 2 (é, não dá pra esquecer que ele existiu).

Até certo ponto esse desespero funciona. Carros 3 chega em alguns momentos até a ser muito melhor que o original. Se bem que ser melhor que um drama saudosista em plena mística Rota 66 protagonizado por carros falantes acaba não sendo um desafio tão grande assim. Nada que arte e tecnologia a mais não resolvam. O que torna tudo mais ou menos irônico.

PS: Por falar em ironia, a dublagem nacional conta com o corredor Rubinho Barrichello como um corredor medíocre com péssimas falas e que também está pendurando as calotas. E se você gostar muito, mas muito mesmo de Tom Math (que tem participação menor neste longa), espere até o final de todos os créditos por uma cena minúscula minúscula protagonizada por ele.


“Cars 3” (EUA, 2017), escrito por Brian Fee, Ben Queen, Eyal Podell, Jonathon E. Stewart, Kiel Murray, dirigido por Brian Fee, com vozes no original de Owen Wilson, Cristela Alonzo, Chris Cooper, Nathan Fillion, Larry the Cable Guy


Trailer – Carros 3

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