Caminhos Magnétykos | A beleza trágica de uma revolução

Caminhos Magnétykos FIlme

A esquerda política está bêbada e isso é ótimo. Em Caminhos Magnétykos a mistura de emoções através de uma distopia opressora nos oferece uma viagem extra-sensorial pelas perdas do passado e a esmagadora realidade do presente. Essa é a forma artística de uma ideologia conseguir se lamentar e se perguntar: onde foi que erramos?

A história segue as lamentações de seu herói, Raymond Vachs (o ótimo Dominique Pinon), um artista francês fracassado que testemunha o casamento da filha com um magnata da Nova Ordem (mundial?) para lhe dar um futuro “digno”. Mas o que é digno disso tudo que estamos vivendo, ele se pergunta enquanto reencontra amigos de quando era um revolucionário e se sente ainda pior. Além de ser preso.

As metáforas se acumulam junto com as referências (como a ridícula, mas engraçada, sobre Donald Trump), assim como as mensagens psicodélicas em um emaranhado de fades em cenários que não importam, são nulos. Internamente são paredes com luzes básicas as iluminando. No mundo lá fora é noite em um escuro infinito, onde apenas os prédios do governo são iluminados ostensivamente. Os outros são ruínas de uma outra Era que já não existe mais.

Caminhos Magnétykos Crítica

Caminha pelo uso indiscriminado de fades em torno da figura de Raimundo (que pelo nome representará o mundo?) olhando estupefato e bêbado para as loucuras do totalitarismo de 1984 versão Extrema Direita. Isso fica claro em seu líder, nas TVs de toda casa, maquiado como um fantoche, repetindo palavras de ordem: “dissidência é traição”, “liberdade é paz”. O bom de Caminhos… é que ele é tão fácil de decifrar que se torna uma imersão divertidíssima participar da brincadeira.

Os próprios revolucionários do filme são caricatos, demonstrando um senso de humor ímpar em assuntos tão caros no meio político e ideológico. Nós os vemos como espiritualistas malucos que enxergam o homem nas estrelas, mas que se limitam a ler a sorte no amor de pessoas comuns. Seu líder é ninguém menos que Ney Matogrosso, e seu hino, “Rosa de Hiroshima”. O ápice da loucura quando ele canta. E da beleza também, por que não. Uma beleza trágica, melancólica, mas por isso mesmo intensa e marcante. O senso estético dessa produção luso/brasileira é simples, mas eficiente.

Esse texto faz parte da cobertura da 42° Mostra Internacional de Cinema de São Paulo


“Caminhos Magnétykos” (Por/Bra, 2018), dirigido por Edgar Pêra, com Dominique Pinon, Albano Jerónimo, Alba Baptista, Ney Matogrosso.


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