Calmaria | Uma surpresa que vale a pena acompanhar

Calmaria Filme

O primeiro plano de Calmaria poderia muito bem estragar toda surpresa do filme, mas não o faz. Steven Knight prefere tomar o caminho mais sutil, ainda que, em certo momento todas suas pretensões precisem ser jogadas na cara do espectador com a maior violência possível. E acredite, isso é bom.

Portanto, nada em Calmaria é o que parece ser, e quanto antes você se acostumar com essa ideia, mais irá se divertir com essa ideia de contar uma história emocionalmente pesada, mas que se permite viajar pela imaginação e encontrar um lugar onde tudo é possível, até a trama mais maluca.

À primeira vista, o filme acompanha esse capitão de um barco de uma ilhazinha no meio de lugar nenhum, onde clientes bêbados tentam pescar grandes peixes enquanto cochilam amarrados em suas varas. Matthew McConaughey vive Baker, esse cara bonitão e que é um estereótipo de alma livre, mas com um passado que o persegue e parece surgir em sua vida através de sua obsessão em pescar esse atum gigante que ele chama de “Justiça”.

Como um clássico personagem de algum policial noir, Baker não é um ser humano simpático, mas convive naquela cidade com a mesma falta de vontade que tem de fazer qualquer coisa, até que recebe uma visita misteriosa de sua ex-mulher (Anne Hathaway) com um pedido nada inocente: assassinar o atual marido dela, que vem agredindo ela e seu filho desde sempre. A solução é simples, fingir um acidente durante uma pescaria e ninguém desconfiaria.

Baker então precisa enfrentar a tentação dessa “Femme Fatalle” e dessa proposta que serviria tanto de justiça, quanto para encher seus bolsos de dinheiro. Mas talvez matar um outro ser humano seja ir longe demais… a não ser que “longe demais” não signifique nada. Na verdade que “nada” signifique realmente nada.

Calmaria Crítica

E ai está a grande ideia que pode desencadear tanto o interesse, quanto o mais poderoso ódio, dos espectadores de Calmaria. Uma reviravolta que desconstrói tudo aquilo que foi contado até aquele momento e torna o filme uma alegoria poderosa sobre o sofrimento de um relacionamento abusivo e o desespero de estar preso a esse mundo. Para quem embarcar na história, uma camada interessante de discussão para depois da sessão. Para quem não embarcar, uma quebra total de suspensão de descrença que te joga para fora do filme.

Resumindo, a ideia é boa, mas pode chatear muito gente, o que não permite que Calmaria seja um daqueles filmes para se sair isento e ileso. Ou você sai odiando essa ideia maluca de Steven Knight ou sairá emocionado pelo abraço do pai com o filho que fecha o filme.

Pelo menos, Knight não permite que o visual deixe dúvidas. Sua câmera está sempre bem posicionada e valoriza bem, tanto o visual paradisíaco, quanto os momentos mais próximos e pesados. Mesmo tratando o filme como uma narrativa noir clássica, nunca se permite ignorar a geografia do seu filme e se perder na escuridão do gênero, sua ideia é sempre “quebrar” a expectativa e valorizar a experiência visual de quem se permitir “viajar” com ele.

O elenco ainda conta com os ótimos, Jason Clarke, Djimon Hounsou e Diane Lane, todos (incluindo Hathaway e McConaughey) em trabalhos que não estão perto de seus melhores momentos, mas funcionam em um óbvio e interessante esforço para se manterem dentro dessa história que convive com o exagero (proposital), mas nunca deixa que isso a torne artificial.

E talvez essa naturalidade de Calmaria seja sua principal arma, já que não sai de proposta mesmo quando poderia chatear quem não está esperando essa mudança tão brusca de tom. Mesmo com um primeiro plano que conta pouco, Knight faz questão de contar muito mais do que aparenta em cada oportunidade que tem. Sem enganar ninguém, apenas tentando contar uma história sensível de um jeito criativo e que irá surpreender muita gente.


“Serenity” (EUA, 2018), escrito e dirigido por Steven Knight, com Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Diane Lane, Jason Clarke, Djimon Hounsou e Jeremy Strong.


Trailer do Filme – Calmaria

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