Semana passada você (como eu e mais um monte de gente) apertou play no novo trailer de Capitão América: Guerra CiviL, várias e várias vezes. Não para ver nenhuma dica da trama, mas simplesmente para vislumbrar a presença do Homem-Aranha a poucos segundo do fim da prévia. Um tempo atrás você nerd de plantão também deve ter feito isso para dar uma boa checada em cada detalhe do embate entre Batman e Superman no trailer do filme dos dois.

Em ambos os casos, muito provavelmente depois disso tudo, muita gente deve ter pensado “que legal!… mas o que me sobra para o filme”? E quando o assunto não é só esses dois, como boa parte dos blockbusters dos últimos anos, a resposta é sempre: nada. Infelizmente também, talvez seja exatamente isso que o espectador moderno quer.

Como se sentados naquela sala escura, o público preferisse desligar o cérebro e ser carregado pelas enormes cenas de ação, explosões e vilões carismáticos. Com isso em mente, o melhor mesmo a se fazer para deixar que esse espectador se divirta com o filme é contar toda história por meio de seus trailers. E talvez o mais perigos seja algo que passa despercebido da discussão geral, já que são filmes de 150 minutos que cabem em trailers de dois minutos e meio.

Não existe mais a necessidade de contar uma história que caiba em muito mais que isso mesmo, afinal, o espectador ficará com os olhos tão presos a duas ou três cenas de ação de 20 minutos cada, que o que sobrar de tempo nem precisa ser preenchido por uma trama muito mais complexa, basta uma reviravolta e uma outra cena de ação, e o sucesso está garantido.

O público está muito mais preocupado com a catarse do som alto, do iMax e da sala lotada, do que com seus próprios sentimentos. Não está interessado em ter a surpresa de ver na tela seu herói preferido pela primeira vez ou o que acontecerá quando uma versão do Apocalipse atirar contra um Batman indefeso. Sim, imaginem isso no cinema, a entrada triunfal da Mulher Maravilha nessa batalha. Agora lembrem que na hora que acontecer seu cérebro alguns segunda antes irá dizer “e aí que entra a Mulher Maravilha”.

mulher-maravilha

Do mesmo jeito que em certo momento do novo Capitão América, quando todos heróis se encontrarem naquele hangar, divididos em dois times você já saberá que Tony Stark chamará um “certo garoto” e não mais surpreenderá ninguém.

Ao mesmo tempo, não se preocupem, já que depois de tudo isso ambos os filmes irão lhe surpreender uma última vez antes dos créditos finais, com uma morte, um novo personagem ou uma referência para uma continuação, principalmente para vocês sair do cinema feliz e extasiado como se estivesse visto o maior dos filmes. Os mesmos caras (não “os mesmos caras”, mas sim o mesmo sistema) que sabe que você quer a catarse do trailer, também sabe que você se contenta muito mais com o destino do que com a viagem.

Com isso em mente, é fácil eles te entregarem a viagem inteira antes da hora, com trailers, spots de TV, fotos e mais qualquer tipo de bugiganga midiática que conseguirem criar; é fácil eles te contarem o filme inteiro antes mesmo de você pensar a respeito dele. Por outro lado, seria injusto também colocar toda culpa nas costas “deles”, a culpa é muito mais sua (e minha e de todos quatro milhões de pessoas que viram o trailer do Capitão América só no Brasil).

É você que está avido por cada detalhe, foto e fofoca do filme. É você que não tem paciência para esperar o filme estrear. É você que analisa o trailer com a minucia de quem está tentando entender um filme do Kubrick. É você que está acabando com toda graça da viagem.

Lembre-se que grandes estúdios como a Warner e a Marvel/Disney precisam divulgar seu filme e fazer você sentir a necessidade de garantir sua poltrona na pré-venda com vinte dias de antecedência, e dar para você tudo isso que foi citado no parágrafo anterior se tornou um modo eficiente, já que você morde essa isca todas vezes.

E nem de perto tudo isso que eu escrevi pode ser encarado como um boicote ou coisa do tipo, já que não serei eu que irei ficar sem ver os trailer, imagens etc., mas apenas a constatação triste de que realmente o cinema atual está muito mais preocupado com o final da jornada do que com todo caminho que vem antes. Nem que isso signifique resumir toda experiência a esses dois minutos e pouco de prévias… e melhor ainda se o Homem-Aranha aparecer no final.

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