Buscando… | Um suspense envolvente e inteligente

Buscando... Filme

Em sua maior parte, a indústria audiovisual ainda não sabe integrar em suas obras a tecnologia acelerada a que, hoje, temos acesso ininterrupto — e muito menos como fazer isso de uma forma que não surja como um manifesto. Assim, a presença cotidiana da internet e das redes sociais em nossas vidas é ignorada. Buscando… encontra nessa lacuna aquilo que o faz único e inovador, usando a tecnologia para contar uma história coesa, envolvente e inteligente de suspense com altas cargas emocionais.

O diretor Aneesh Chaganty já mostra a que veio na abertura do filme (este é seu primeiro longa-metragem), que começa com uma sequência que não deixa nada a dever para a de Up! Altas Aventuras. Por meio de uma série de vídeos, fotos, sites e programas, acompanhamos a família Kim desde o nascimento de Margot, filha de David (John Cho) e Pamela (Sara Sohn), passando pelo crescimento da garota e os primeiros dias em cada série, as lições de piano com a mãe e o câncer de Pamela.

E, então, Buscando… começa a mostrar a forma natural com que vai abordar a presença da tecnologia em nosso dia a dia. Depois de diagnóstico de Pam, Chaganty imprime de significado algo cotidiano como agendar um compromisso ou evento, que torna-se uma indicação dos medos e esperanças da família — o calendário online exibe a data em que Pamela vai sair do hospital e voltar para casa; a cada vez que essa data é adiada, o filme ganha um peso quase físico. Enquanto isso, David transfere vídeos e fotos que virão a ter uma carga enorme de nostalgia para pastas em que eles vão poder ser mais facilmente encontrados. Sem jamais parecer que está passando correndo por algo importante, Chaganty ilustra todo o processo da doença de Pam até sua morte.

Alguns anos depois, passamos a acompanhar David e Margot na atualidade, quando ela tem 16 anos (e é interpretada por Michelle La). Após algumas conversas que deixam claro que o relacionamento deles não vai muito bem, Margot desaparece em uma sexta-feira à tarde, quando deveria estar na aula de piano. David entra em contato com a polícia e, logo, inicia-se uma extensiva busca pela garota, liberada pela Detetive Vick (Debra Messing). A partir daí, o filme mescla muito bem a investigação, as reviravoltas na trama e o centro emocional da narrativa, jamais deixando que um elenco sufoque o outro.

Buscando Crítica

Aproveitando-se da linguagem do filme de maneira inteligente, Chaganty (que, ao lado de Sev Ohanian, também assina o roteiro) consegue elaborar movimentos de câmera e enquadramentos para que não precise ficar limitado a exibir telas de celular ou de computador e arquivos salvos nos aparelhos. Aliás, é interessante perceber o cuidado nesse sentido — quando o diretor fecha o quadro no plano originado de uma câmera de vigilância básica, a imagem torna-se granulada e desfocada. As coisas que fazemos o dia inteiro — hesitar diante de um arquivo, apagar uma mensagem explosiva antes de enviá-la — ganham nova dimensão quando expostas em grande escala em uma tela de cinema. Assim, Buscando… guia nosso olhar para aquilo que mais importa em cada momento. Entretanto, isso nem sempre acontece, em mais uma demonstração da elegância da direção. Em determinadas cenas, com a tela tomada de conteúdo, somos forçados a escolher no que vamos concentrar nossa atenção (e isso nem sempre vai ser a mesma coisa que atrai os olhos de David). Assim, a tensão e a frustração do personagem tornam-se ainda mais presentes no espectador — será que uma pista importantíssima não está escondida em uma das pastas a que o protagonista ainda não deu atenção? Ele não vai mesmo clicar ali?!

Cuidadosa também é a forma com que Chaganty e Ohanian abordam a cultura coreano-americana da família Kim, presente em detalhes como a receita de kimchi que David procura para seu irmão, Peter (Joseph Lee). Isso jamais torna-se o centro da narrativa, mas é fundamental para estabelecer Buscando… como uma obra que se importa com o fato de que seus personagens centrais são asiáticos — algo que ainda é absurdamente raro na indústria hollywoodiana — e naturaliza isso. Enquanto isso, a dinâmica entre David e Margot é fundamental para a aflição do pai diante da sensação de que, apesar de tantas evidências aparentemente concretas, ele não conhece realmente sua filha, algo originado não apenas do peso da perda de Pam em ambos, mas também do cuidado maior dedicado à filha e aos afazeres da casa por parte de sua esposa. O filme reconhece que essa é uma situação comum, mas mostra também as consequências que isso pode ter.

Mas jamais duvidamos do amor de David por sua filha, e isso também é imprescindível para que o longa funcione. Mérito também, é claro, do belíssimo trabalho de John Cho, que transmite cada dúvida, frustração e medo de David de forma sutil e complexa. Em cada expressão e olhar, está o desespero de encontrar Margot. Michelle La, que conhecemos principalmente por conteúdos mais antigos assistidos após seu desaparecimento, faz de Margot uma garota repleta de melancolia, exibindo no olhar uma tristeza e um peso que mostram-se ainda mais tocantes em seu rosto jovem. Enquanto isso, outras pessoas de sua idade estão criando uma imagem cuidadosamente curada de rebeldia ou performando sentimentos falsos em busca da atenção da mídia, como a garota que anuncia para David que não é muito próxima de Margot apenas para, mais tarde, chorar lamentando seu desaparecimento diante das câmeras de um telejornal.

É tocante perceber como a melodia simples tocada no piano pela pequena Margot ao lado da mãe imediatamente torna-se a base para a trilha sonora de Torin Borrowdale. Entretanto, como absolutamente tudo o que vemos em tela faz parte do universo diegético do filme (ou seja, existe para os personagens), a verdade é que Buscando… e sua proposta inovadora (ainda que não inédita — mas jamais explorada com tanta eficiência quanto aqui) seriam ainda mais fascinantes sem a presença de músicas não-diegéticas. Além da canção de piano da abertura, por exemplo, há um momento em que a “trilha” vem de um recital que David deixa rolando no YouTube enquanto mexe no computador, algo bem mais alinhado com a linguagem da obra.

Mas isso é um problema minúsculo diante da qualidade excepcional exibida por Buscando… em seus elementos técnicos e narrativos. Acompanhar a história toda por meio de telas não é um diferencial que domina o filme, pelo contrário, é aquilo que dá mais força para a história e os personagens que acompanhamos. Sem julgar se isso é bom ou ruim, o longa explora diversos aspectos da vida digital que levamos e o quanto isso alterou — e, mais do que isso, realçou determinadas questões da — nossa existência para muito além da maneira com que nos relacionamos uns com os outros.


“Searching” (EUA, 2018), escrito por Aneesh Chaganty e Sev Ohanian, dirigido por Aneesh Chaganty, com John Cho, Michelle La, Debra Messing, Sarah Sohn, Alex Jayne Go, Megan Liu, Kya Dawn Lau, Joseph Lee, Connor McRaith, Briana McLean e Erica Jenkins.


Trailer – Buscando…

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