Brinquedo Assassino | Foge do original e encontra o século 21… o que é pior


Brinquedo Assassino é, acredito, o que os fãs no fundo sempre desejaram: serem surpreendidos por quão ruim este filme pode continuar sendo. Até porque o original nunca foi considerado exatamente um clássico. Usando um boneco medonho e sustos infantis para mostrar sangue sendo jorrado, “Chucky” e suas continuações sempre foram uma brincadeira de mau gosto que referenciava outros trabalhos de terror (estes, sim, clássicos). Seu novo filme homenageia este legado que fritou o cérebro de muitos jovens grudados na TV de tubo da sala, o único recurso de entretenimento solitário e sedentário da época. Bons tempos.

Embora hoje o entretenimento da garotada seja o celular, isto logo vai mudar com o surgimento de Buddi, o boneco mais medonho que um designer de brinquedos já sonhou em criar. Buddi tem sua cara toda… (como vou dizer isso sem ser censurado?) melecada. Seus olhos são duas enormes câmeras brilhantes que só passam despercebidas se você olhar apenas para sua cara de derrame. Os seus cabelos ruivos são tão medonhos que você até se esquece de notar o macacão ridículo. Que criança gostaria dessa assombração como seu amigo?

Aparentemente crianças muito carentes. Como Andy, que vive com sua mãe, enquanto ela continua trazendo os caras errados para sua casa. Ela trabalha em uma loja de departamentos que vende o tal boneco e consegue descolar um deles como presente de aniversário para seu filho, em mais uma demonstração de como ela é uma péssima mãe. Aubrey Plaza está no papel, acredito eu, por Vida Após Beth, onde ele faz um zumbi, e por ela estar na mesma categoria da nova Tia May do Homem-Aranha: a mãe/tia com quem seus amigos gostariam de ficar.

Buddi é um boneco high-tech com inteligência artificial, capaz de se conectar com todos os dispositivos feitos pela mesma grande e maligna corporação Kaslam, que explora trabalhadores do Vietnã para fazer seus produtos (exploraria da China, mas agora os trabalhadores de lá ganham muito mais). Entre seus funcionários um deles é demitido e se vinga no boneco que estava consertando, retirando todas as travas: agora ele pode falar palavrão, esfaquear pessoas. Provavelmente até dançar lambada.

Agora é esta versão dos infernos de Buddi que está na casa de Andy. Ele se autodenomina Chucky e está pronto para tocar o terror, certo? Na verdade, não. Uma das duas grandes sacadas deste filme, sendo a primeira escalar Mark Hamill para a voz de Chucky, é fazer o boneco primeiro se tornar uma criatura do mal conforme ele aprende através do comportamento humano. Ele quer que Andy sempre se divirta, o que quer dizer estar sempre sorrindo e rindo. Ele vê seus amigos se divertindo ao assistir O Massacre da Serra Elétrica e concluir muito sabiamente que se ele sair por aí retalhando as pessoas Andy estaria se divertindo.

Nós sabemos por experiências passadas que a IA, quando exposta a humanos, principalmente na internet, se torna um “ser” altamente preconceituoso. O exemplo mais icônico é o de Tay, uma IA desenvolvida pela Microsoft para interagir com adolescentes nas redes sociais e que em menos de um dia começa a reproduzir pensamentos nazistas. Portanto, o roteiro de Tyler Burton acerta em seu início ao tentar escalar esse aprendizado quando a IA que aprende possui capacidades físicas que a permite se tornar agressiva, também.

No entanto, o show de horrores precisa continuar, e Brinquedo Assassino descarta todas suas ideias minimamente interessantes (exceto a voz de Mark Hamill!) e parte para a carnificina que todos esperavam ver. E há muito sangue, gore e violência sem propósito. Não há discriminação: personagens bons e maus, não importa. Todos vão morrer da maneira mais calamitosa possível.

Este não é daqueles filmes que já começa “errado” e apenas desenvolve sua ideia, como, por exemplo, Matadores de Vampiras Lésbicas. Se fosse o caso ele seria ruim e divertido. Este é um filme reconstruído para os novos tempos, que começa interessante, coeso, e parte para o gênero slasher de onde veio apenas porque isso é o esperado por sua legião de fãs. Isso torna ele um filme apenas ruim. OK, se você for fã e não estiver pensando muito, pode se divertir, também.

Por outro lado, é possível captar uma fina ironia em seu terceiro ato. Olhe a alegoria: é lançamento de um novo boneco Buddi. Pessoas se aglomeram na entrada da loja para a inauguração, e quando a loja abre elas se atropelam no meio do caminho. São pessoas ensandecidas, adultos e crianças, agitadas porque há um novo brinquedo em que elas podem depositar todas suas carências afetivas, não importando se ele é medonho pra cacete. Isso no fundo diz um pouquinho sobre nossa sociedade adoecida pelo consumismo (troque Chucky por um novo iPhone) e pelo hype da mesmice (os próprios fãs do Chucky dos anos 80). Eu não vejo diferença. E nem Chucky: ele mata todos sem distinção alguma. Meu herói.


“Child’s Play” (Can/EUA, 2019), escrito por Tyler Burton Smith e Don Mancini, dirigido por Lars Klevberg, com Aubrey Plaza, Mark Hamill e Tim Matheson.


Trailer – Brinquedo Assassino

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