O melhor jeito para se começar a falar sobre Bravura Indômita é concluindo que é por esses momentos que existem as refilmagens. Muito embora os Irmãos Coen expliquem que só viram o original uma vez, ainda crianças, e que seu filme seja sim uma nova adaptação do livro de Charles Portis, é impossível acreditar que essa nova versão existisse sem que Henry Hathaway tivesse feito sua versão em 1969.

Mas, mais do que isso, o que fica claro é que, no final das contas, é isso mesmo: duas visões apaixonadas de um mesmo material, dois lados incomparáveis de uma mesma moeda que se mostram únicos em tudo. E por isso mesmo imprescindíveis e inesquecíveis, cada um ao seu modo.

A diferença aqui, nem se dá em termos de qualidade, mas sim de época e situação. Enquanto no final dos anos sessenta Hathaway precisava se esforçar para dar uma sobrevida a um gênero que já dava sinais de cansaço e já tinha sofrido todas as mudanças narrativas e estéticas que Sergio Leone e seus conterrâneos italianos vinham fazendo com o faroeste (além do momento em Hollywood, dominada por seus estúdios), hoje, Bravura Indômita nas mãos habilidosas e autorais de Joel e Ethan Coen (muito provavelmente dos poucos que ainda detêm poder sobre suas carreiras e não se esquecem disso), se permite ser um faroeste, não só à moda antiga, mas com sua assinatura, sem amarras e obrigações.

Realmente, seu novo Bravura Indômita não é, e nem se propõe a ser, aquele filme de 69, muito menos tentam (os diretores) trazer essa história para aquele faroeste spaguetti que ocupou o espaço deixando pelo clássico. O que os Irmãos Coen fazem é adaptar essa obra à seu modo, como aquele “subgênero” em que seus filmes sempre sem encaixam: algo como um faroeste dos Irmãos Coen.

Diante desse “subgênero”, o que os diretores fazem é contar essa história sobre uma menina de 14 anos (Hailee Steinfield, um verdadeiro achado) que tem o pai assassinado em uma “briga qualquer”, por um tal de Tom Chaney (irreconhecivelmente vivido por Josh Brolin), e então parte em busca de um modo de vingança contra o mesmo, que vem na figura inebriante do Delegado Federal (US Marshall) Rooster Cogburn (papel que deu ao Oscar à Jonh Wayne no filme de 69 e aqui é perfeitamente defendido por Jeff Bridges), que é pago para capturar o bandido que se embrenhou em território indígena. A dupla improvável ainda ganha a companhia de um “Texas Ranger” (Matt Damon) que vem na cola de Chaney por ele ter matado um Senador em seu estado.

Carregados por essa dinâmica simples (ainda mais por se tratar de um faroeste, onde se tem dois lados: os mocinhos e os bandidos) sobra aos Coens dar a seu público essa experiência inesquecível e crua, que não parece preocupada em ser um filme climático e comum (como nenhum de seus filmes é), mas sim um convite para acompanhar esse trio um passo de cada vez.

Logo de cara é impossível não perceber a preocupação deles em criar uma personagem forte e destemida, ainda que presa nesse corpo de criança, com um olhar desafiador, uma língua afiada e uma força de vontade que ultrapassa os limites dos personagens clássicos do gênero. Bravura Indômita não começa como um tiroteio ou um assassinato, mas sim com um corpo sem vida (o pai), sob uma luz fraca, alguns flocos de neve, e uma narrativa que faz o espectador se apaixonar por aquela mocinha, em um mundo que não aceitava muito “mocinhas”, ainda que ela acabe se mostrando em pleno controle “desse mundo”. É justamente esse primeiro cuidado que permite que a câmera dos Irmãos Coen pareça tão hesitante em chegar perto de Brigdes e seu Cogburn, já que tem certeza que, depois disso, o filme não terá mais nenhum lugar para olhar..

Essa calma (mais que característica dos filmes dos irmãos) é o que mais impressiona, já que o clímax de sua história está lá, fugindo por território indígena, mas os dois parecem muito mais preocupados com esses três personagens e com cada situação que devem enfrentar. Um passo de cada vez. Diante da câmera dos Coen, o espectador é obrigado a aproveitar cada momento como um clímax, cada espera, cada armadilha e cada personagem que cruza seus caminhos, assim como cada discussão, principalmente entre os personagens de Damon e Bridges que, todo tempo, disputam (do jeito mais “macho alpha” possível), o direito de serem protagonista daquela história, .

O que os Coens fazem é desconstruir esse faroeste clássico em pequenos capítulos, minúsculos presentes para seu espectador que aprende a apreciar a chegada de um tipo mais que incomum, recoberto por uma pele de Urso, como se aquilo pudesse mudar os rumos daquela história. E se por um lado parece não mudar, por outro faz com que o cinema se perca mais ainda nessa trama toda, levados por essas conclusões cruas e sucintas que dão uma riqueza enorme ao filme. Seus grandes momentos de tensão (como é mais que característico em seus filmes) são resolvidos de modo explosivo e rotineiro, e que, aqui, foge totalmente do clichê e faz com que tudo pareça ser novidade. Se por um lado qualquer diretor não conseguisse fugir da tentação de meia dúzia de grandes duelos que a trama se permitiria, esse faroeste dos Irmãos Coen respeita a velocidade das decisões de seus personagens, e com isso a admiração de seus fãs, que não esperam nada, além disso mesmo.

Por outro lado, esse ritmo permite que cada sequencia tenha o tamanho e o suspense que ela necessita para empurrar o filme na próxima direção, não dando tempo para seu espectador apostar no clichê e deixando-os sempre sufocados pelo inevitável, e é justamente por esse cuidado que, ao dar de cara com o vilão Tom Chaney, o espectador vai vibrar pela surpresa daquele momento, pela vivacidade de não adivinhar o que vem a seguir (muito embora quem viu a produção de 69 perca um pouco esse sentimento e os fãs da dupla de diretores tenham certeza que mais cedo ou mais tarde essa virada, vinda do nada e característica, vá acontecer).

E continuado esses parênteses, os fãs dos diretores ainda ganharão uma nova safra de personagens cheios de vida, daqueles que povoam sua filmografia. E não só a corajosa protagonista, o beberrão, balbuciante, briguento e caolho Rooster Cogburn e o texano certinho LeBoeuf (Damon), mas sim um monte de gente para pintar esse quadro sobre o velho oeste. Desde o negociador no começo do filme até o bando de pistoleiros que andam com Chaney, todos em aparições sucintas, mas cheias de personalidade (física e psicologicamente falando) e que servem (mais ainda o bando de malfeitores) principalmente, para, mais uma vez, ir de encontro ao lugar comum e dar ao espectador algo para se surpreender. Como Chaney, um vilão tão esperado, mas que se mostra um perdedor qualquer que não consegue nem ter força dentro de seu bando.

Mas são esses pequenos detalhes, e essa segurança narrativa complexa e precisa, que fazem como que os Irmãos Coen permitam que, a cada novo filme, o cinema se dê o prazer de olhar para pequenas obras-primas únicas e autorais. Que passam a fazer parte desse mundo cheio de personalidade, que obedece seu próprio ritmo, admira suas composições como se cada olhar pudesse ser o último e tem certeza de que o resultado de tudo isso irá sempre entrar para a história sob o nome desses dois irmãos que a cada filme aprendem mais e mais o que fazer com uma câmera nas mãos e uma história para ser contada.


True Grit (EUA, 2010), escrito e dirigido por Joel e Ethan Coen, a partir do livro de Charles Portis, com Jeff Bridges, Hailee Steinfeld, Matt Damon, Josh Brolin e Barry Pepper


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