O Oscar não é racista, o mundo é que é. E sim, com isso em mente talvez todo o resto desse texto se torne uma grande enrolação em volta dessa afirmação. Mas por outro lado também essa confirmação não seja tão simples de aceitar, já que você ai não deve se achar racista, e por isso não achar que o mundo é. Mas aqui vai a cruel verdade, nós somos os primeiros a corroborar com esse mundo cinematográfico racista.

E o pior (ou melhor) é que toda essa discussão começou com um discurso furado e um “mimimi”. Na verdade começou com um falta de entendimento que cresceu como uma bola de neve. Pelo segundo ano seguido a Academia de Artes e Ciências Cinematográfica, a “mãe do Oscar”, não colocou nenhum negro ou latino (ou enfim, qualquer outra minoria) nas categorias que premiam os melhores atores e atrizes do cinema no ano.

O primeiro a colocar a boca no trombone foi o diretor Spike Lee, que apontou a falta de representatividade, mas não apontou o dedo para a Academia nem para sua atual presidente Cheryl Boone Isaacs, que é negra. Sua revolta era contra o sistema. Na sequência, aparentemente não lendo o texto de Lee até o final, Jada-Pinkett Smith também deixou claro sua revolta por meio das redes sociais. Em pouco tempo todos estava falando da falta de negros no Oscar, com direito a hashtag (#OscarSoWhite) e tudo o mais.

#OscarSoWhite

Como Spike Lee deixou claro em sua revolta, o problema não é a Academia e seus velhinhos. Mas ainda assim, com seu prestígio, poderiam estar fazendo melhor. Ainda que ela seja apenas um reflexo de Hollywood.

Ninguém sabe quem são os membros ativo da Academia, o que se sabe é que os ganhadores e indicados ao Oscar passam a ter lugar na mesma, mas a lista completa oficial não é colocada à disposição. Em 2012 o jornal L.A. Times fez uma pesquisa e chegou à conclusão que (aproximadamente) 90% de seus votantes são brancos e que 70% seriam homens. Uma pequena fatia desse mundinho que paira sobre a sombra do “Hollywood Sign”.

O resultado disso acaba ficando óbvio, nessas 87 premiações que sucederam a desse ano, apenas 14 negros levaram uma estatueta para casa, sendo apenas quatro nas categorias de protagonistas. Já no Oscar desse ano, do #OscarSoWhite, entre as categorias principais (atores, roteiro e direção), 95,3% dos indicados são brancos, 2,3% são asiáticos e 2,3% latinos e hispânicos.

E isso vai ainda mais longe em termos de representatividade e minorias. Dos 23 produtores indicados ao Oscar para Melhor Filme, apenas sete são mulheres. Entre os 17 roteiristas, são apenas quatro mulheres, e obviamente nenhuma minoria racial. Até o sucesso Straight Outta Compton, com uma temática absolutamente negra, na verdade é escrita por uma mulher, Andrea Berloff, e um “judeu branco gay de Connecticut”, como o próprio Jonathan Herman se aponta.

#OscarSoWhite! O boicote ao Oscar e toda sua polêmica

Um artigo da Variety em um exercício de representatividade projetou um cenário bem longe do real. Dos 305 filmes elegíveis, se eles representassem a variedade dos Estados Unidos, 150 deles deveriam ter mulheres sentadas na cadeira de diretora. Do total ainda 45 deveriam ser dirigidos por negros, 50 por hispânicos e mais ou menos uns 12 por asiáticos.

Não é preciso dizer que o cenário real é bem diferente disso.

“Mimimi” no Oscar

O problema então é que os próprios membros da Academia e personalidades acabaram metendo os pés pelas mãos e o resultado foi uma pequena enxurrada de baboseiras. A própria sra. Smith perdeu o timming e saiu gritando por ai ao mesmo tempo que o Sr. Smith foi ignorado pela Academia por seu trabalho em Um Homem Entre Gigantes, indicação que para muitos era uma barbada.

Ainda que Jada Pinkett estivesse certa, acabou criando uma onde de bobagens. Lá do outro lado do mundo, Charlotte Rampling, indicada esse ano pelo filme 45 Anos, em uma entrevista ao canal Europe 1, apontou que essa discussão mostra um “racismo contra os brancos” e que (mesmo afirmando “não saber se esse era o caso”) “talvez o atores negros não tivessem merecido estar nessa reta final”. Talvez ela nem tenha visto o marido da própria Jada Pinkett em seu último trabalho, ou até Michael B. Jordam em Creed. Sem contar um conterrâneo seu da “terra da rainha”, Idris Elba, em Beasties of No Nation. Ou talvez nem perceba que uma maioria obsoluta de uma sociedade não consegue sofrer racismo de uma fatia que praticamente não existe dentro de Hollywood.

E esse monte de bobagens sobrou até para o Brasil, já que na possível falta de coisa melhor para falar com o ator Milton Gonçalves em uma entrevista a uma rádio gaúcha. “Se nenhum negro foi premiado, é porque nenhum negro fez um filme bom como os anteriores”, comentou o ator em um daqueles momentos vazios e que demonstra total desconhecimento do cenário. Mas enfim, é melhor sair falando do que “sair escutando”.

Por outro lado, quem mais chegou perto de desvendar o real problema talvez tenha sido a ganhadora do Emmy e duas vezes indicado ao Oscar, Viola Davis: “O problema não é o Oscar, o problema está no sistema de se fazer filme em Hollywood”.

O lado “negro” da força.

Davis está correta, o problema não é o Oscar, é Hollywood. Uma industria enorme e que simplesmente prefere ignorar as diversidades e continuar chafurdando em seu mundo “branco anglo saxão protestante”.

A Academia poderia tentar tentar dar o exemplo, e isso fica bem claro que está sendo feito. Uma presidente negra e um apresentador negro (Chris Rock), são dois sinais de um esforço. Cheryl Boone ainda propôs reformular um pouco o quadro de “acadêmicos” e diminuir a quantidade de votantes que estejam tempo demais fora do cinema. Boone ainda promete tentar se aproximar das minorias e fazer com que elas estejam em um número maior entre os quadros dos novos membros. Tudo a longo prazo.

A curto prazo, a única solução que ela mesmo indicou, e que muitos até reforçaram, foi aumentar o número de indicados na noite de premiação. Mas sabem o que irá acontecer? Ao invés de 20 brancos indicados, serão 40 brancos concorrendo. O problema está do lado de fora do Kodak Theatre.

E não adianta achar que o cinema é racista por não ter negros em papel de destaque. O cinema é racista por não aproveitar os momentos possíveis para diversificar seus personagens. Dos oitos indicados ao Oscar esse ano para melhor filme, somente Perdido em Marte poderia ter um protagonista negro, o resto ou é baseado em fatos reais, ou tem necessita que tenham personagens caucasianos por motivos narrativos. O Max não poderia ser negro (na verdade poderia, mas isso é uma discussão pra outro momento), e muito menos o governos dos Estados Unidos iria procurar um advogado negro para defender um espião no mundo pós Guerra Mundial. Muito menos uma imigrante irlandesa chegaria à Nova York e teria o mesmo rumo se ainda fosse negra.

Perdido em Marte é um dos filmes indicados ao Oscar que poderia ter um ator negro.

Por outro lado, tente imaginar se algum estúdio iria bancar um filme com uma década de filmagem se Richard Linklater apresentasse uma família de classe média afro-americana em Boyhood.

E na maioria dos casos, tudo pode ser dividido entres esses dois casos, de um lado certos filmes não poderiam ser feitos por afro americanos e do outro as imposições de uma industria racista impede que os realizadores pensem na possibilidade de emplacar seus personagens de qualquer etnia que não seja branca.

Das dez maiores bilheterias de 2015 nos Estados Unidos, cinco delas poderiam ter protagonistas negros, mas apenas Star Wars: O Despertar da Força coloca o inglês John Boyega em seu poster. Jurassic World, Divertida Mente, Jogos Vorazes e Velozes e Furiosos 7 talvez convivessem bem com um elenco capitaneado por negros, mas ninguém nem por um segundo pensaria em uma Katniss Everdeem vivida por Tessa Thompson (estrela de Creed), por exemplo.

Das trinta maiores bilheterias de comédias românticas (à partir de 1978, de acordo com o site Box Office Mojo), somente três têm negros como protagonistas, Hitch – Conselheiro Amoroso, Norbit e A Casa Caiu. Tente procurar na memória quantos protagonistas negros contracenaram com “queridinhas do gênero” como Katie Hudson, Julia Roberts, Sandra Bullock, Jennifer Garner ou Katherine Heigl em um de seus sucessos.

E será mesmo que se elas todas tivessem compartilhado seus blockbusters com atores negros eles teriam se tornado sucessos? Será mesmo que os estúdios teriam apostado todos seus dólares em casais multi étnicos? E será que o público teriam feitos filas e filas para ver esses filmes? E será que o Oscar então é o vilão, ou ele é apenas mais uma vítima de uma sociedade que impõe seu racismo?

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