Blitz | Um exercício de futilidade bem feito


No início de Blitz nos é informado que o roteiro foi adaptado (ou inspirado) em uma peça de teatro, mas a sensação é que não houve adaptação alguma, pois este filme é muito mais teatro, daqueles pesadões reflexivos, do que cinema, com seu dinamismo narrativo.

Isso porque seus dois personagens principais, o Cabo Rosinha (Rui Ricardo Dias) e sua esposa Heloísa (Georgina Castro), não saem do lugar. Não há movimento exceto interior, mas este também se perde em infinitas digressões pseudo-poéticas com aqueles textos que realmente lembram o palco de um teatro, cenário onde os mais rebuscados dramaturgos soltam o verbo sem medo de perder a objetividade.

E se há algo que falta na simples história do pré-julgamento (da sociedade e da esposa) de um policial acusado de matar um garoto em uma blitz do colégio é objetividade. Passeamos pelos pensamentos de Heloísa e Rosinha, trancados em casa após o ocorrido. Isso, através do seu passado, onde tomaram a decisão de manter uma gravidez e tiveram um filho que veio a morrer antes de completar a idade do garoto morto na tal blitz.

Há alguns momentos que o longa “empresta” sua criatividade sob alguns aspectos de Hiroshima Meu Amor, o clássico de Alain Resnais com Emmanuelle Riva e Eiji Okada devaneando em um restaurante sobre os horrores da Segunda Guerra no Japão. Esses são os momentos bons, onde a lógica do ficar em um beco sem saída com a possibilidade de voltar atrás cabendo muito bem. No entanto, a respeito do trágico evento envolvendo a morte do garoto, o único problema que parece existir em toda a história é a falta de comunicação entre a esposa e o policial, embora eles troquem frases que tentam elevar seus diálogos para poesia (sem sucesso).

Do ponto de vista de direção, há pouco ou nada que Rene Tada Brasil possa fazer. Ele realiza enquadramentos inspirados, que surgem bonitos em uma fotografia limpa, que favorece a escuridão na casa dos dois, além do clima árido de uma metrópole sem sentimentos. No entanto, não há aqui uma lógica espaço/temporal que nos remeta ao que o filme quer tentar dizer. Não há símbolos nem sinais do que precisamos prestar atenção. Esse é daqueles filmes que se ouve uma frase bonita dita por uma atriz de talento como Georgina Castro, com toda a carga emotiva que isso poderia merecer, mas ao final da cena fica a sensação de que foi em vão: não sabemos nada mais dessa personagem. Sabemos apenas o óbvio: Georgina Castro é uma ótima atriz.

As emoções e os questionamentos que Blitz parecem querer tratar giram em torno desse pré-julgamento que as pessoas fazem sobre casos polêmicos como esse, incluindo a própria esposa de um policial. A sociedade aqui é vizinha de longa data do casal e seus olhares são fulminantes. Mas não se trata de uma peça… perdão, filme que se pauta na realidade. É uma visão mais ampla, panorâmica, do que acontece na vida real.E isso nos faz perder a objetividade de tudo que gira em torno dos fatos usados como força motriz para esse julgamento sem sentido.

Se você gosta de filmes que pretendem ser fechadinhos terminando por onde começaram, Blitz é um exercício de futilidade bem feito. Ele vai te entreter, e por alguns momentos você vai pensar estar testemunhando grandes momentos de um filme. Porém, esse santo é oco. Não há profundidade em nenhuma parte da história que você se atente. Faça o teste e descubra mais sobre como o Cinema (não) funciona do que sobre o filme em si.


“Blitz” (Bra, 2018), escrito por Bosco Brasil, dirigido por Rene Tada Brasil, com Rui Ricardo Dias e Georgina Castro.


Trailer – Blitz

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