Fujo ao máximo de escrever textos em primeira pessoa, afinal, ainda que seja eu escrevendo, a ideia da crítica não é uma simples opinião pessoal, mas sim uma análise um pouco mais profunda do filme. Mas o novo Ben-Hur me provocou um chateação tão grande que não consigo fugir desse lado pessoal.

E aqui um ponto, não sou daqueles contra remakes, acho realmente que uma geração mais nova merece que produtos mais antigos sejam reapresentados, mas isso desde que essa nova versão apresente algo novo dentro do original, mas ao mesmo tempo mantenha a mítica. Recentemente Caça-Fantasmas faz isso, mas mais para trás, Scarface e Sete Homens e um Destino são sempre os exemplos a serem lembrados. Ben-Hur também já foi um remake, de um filme mudo de 1925, mas agora, em 2016, o que acontece é uma atrocidade.

Existe tão pouco do Ben-Hur de 1959, ganhador de 11 Oscars, nesse novo Ben-Hur dirigido pelo russo sempre espalhafatoso Timur Bekmambetov (Procurado), que é difícil entender qual a razão de sua existência. O que sobra é um filme apático, insensível, que nem parece ter visto seu original. Como se na busca por encontrar um modo de contar a mesma história para o século XXI, se esquecesse de mantê-la e acabasse por levar à tela algo que soa como uma copia mal feita.

É lógico que a história continua sendo sobre o príncipe judeu Judah Ben-Hur e sua busca por vingança contra seu irmão de criação Messala, um romano que decidiu o sucesso entre os seus à salvar Ben-Hur e sua família. Mas o que preenche isso, as motivações, conclusões e reviravoltas, em quase nada lembram àquela história épica que marcou o cinema como uma das maiores produções de sua história.

E antes de qualquer coisa, o novo Ben-Hur não merece que a palavra “épico” apareça em nenhum lugar desse texto (e como já apareceu duas vezes, melhor falar logo sobre isso). Nada nesse novo filme é grandioso, nem o personagem, nem os cenários, nem a disputa entre os irmãos e muito menos a situação sócio-religiosa-política que marca a época (33 D.C.) e muito menos suas conclusões, que aqui (fugindo dos spoilers), são de uma covardia que beira a canastrice.

Ao invés de uma grandiosa história sobre um homem tomado pela vingança que tem a oportunidade de renascer diante dos olhos de seu inimigo, o novo Ben-Hur é um filme sobre uma corrida de bigas. E quando ao final do original (de 1959) a impressão que você tem é de ver o protagonistas esgotado pelo desejo violento de lutar contra o mundo, que não vê sua alma se acalmar mesmo diante de sua vingança, o que se vê agora é um galopante final feliz. Enquanto em 1959 Ben-Hur tentava ser (literalmente) a “histórias das histórias”, já que esbarrava com um certo personagem bíblico enquanto discutia sua existência, em 2016, existe pouco tempo para que o assunto seja tocada (está lá, mas mais parece um easter egg de algum filme de super-herói do que qualquer coisa).

E essa falha, todas essas derrapadas não é uma questão de gosto, é estrutural. De cara, o roteiro de Keith R. Clarke e John Ridley (surpreendentemente esse último tendo escrito 12 Anos de Escravidão e Três Reis) erra ao motivar Messala como um órfão apaixonado, e não um escroque romano, diminuindo demais sua maldade ao colocar um pitada de amor em sua motivação. Na sequência, o mesmo texto desenha um Ben-Hur muito menos simpático que o vilão, até meio esnobe. E achar que o que vem depois é digno de nota é um perca de tempo.

Ben-Hur Crítica

Pior ainda, em momento nenhum o roteiro delimita realmente o ódio entre os dois e muito menos a raiva de Ben-Hur diante do mundo à sua volta. Como se tivesse medo de calcar seu filme puramente na quebra do amor fraterno entre esses dois irmãos, para isso, por um segundo, quase coloca Messala fugindo desse mundo para não enfrentar o amor por uma mulher, o que diminui completamente a relação dos dois e, principalmente, o peso narrativo do material original.

Nos papeis principais, Jack Huston (sobrinho da Anjelica e neto do John), e Tobby Kebbell são escolhas que só refletem a falta de capacidade do filme, já que ambos soam frágeis e antipáticos até comparados aos canastrões originais Charlton Heston e Stephen Boyd. Já as participações de Morgna Freeman (que ainda narra parte da história) e Rodrigo Santoro, como Jesus, pouco (ou nada) contribuem para o resultado final.

Para não dizer que tudo é desastre, o estilo moderno e videoclípico do diretor russo até acerta em alguns momentos, como na interessante sequência onde Ben-Hur vê toda batalha nas galés a partir das pequenas escotilhas de dentro do navio, com espaço para um visual vertiginoso, moderno e ágil. Já a famosa corrida das bigas final, não decepciona, mas também não empolga, se deixando muito mais ser levado pela mesmice estética atual do que por tentar fazer algo clássico ou novo, ao invés de muitos cortes, CGI e uma câmera mexida.

Mas sobre tudo isso, o novo Ben-Hur é o retrato de uma geração com deficit de atenção que não consegue parar nem por um segundo para escutar um diálogo, não tem paciência para a preparação de uma cena (a corrida de bigas começa frenética e não com aquele incrível desfile do original) e muito menos por ter que entender motivações mais profundas que colocam o protagonista original como o vilão de si próprio e que vê sua vida mudar, justamente, com os ensinamentos de Jesus.

Uma geração que não teria mais a paciência para apreciar um épico (droga, usei de novo!) de três horas. Uma geração que não tem mais a paciência de apreciar nada. Que busca o efêmero e o descartável sem perceber que eles próprios acabam se deixando ser efêmeros e descartáveis. Ben-Hur então é um remake descartável que é apenas o reflexo de sua geração. E sim, isso é uma opinião pessoal.


“Ben-Hur” (EUA, 2016), escrito por Keith R. Clarke e John Ridley, à partir de uma obra de Lew Wallace, dirigido por Timur Bekmambetov, com Jack Huston, Toby Kebbell, Nazanin Boniadi, Ayelet Zurer, Sofia Black-D´Elia, Morgan Freeman e Rodrigo Santoro.


Trailer – Ben Hur

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