Beijei uma Garota | Comédia francesa coloca gay enroscado em sua heterossexualidade

Beijei Uma Garota Filme

Embora no começo pareça uma comédia romântica daquelas bem clichê, com o protagonista sendo narrador em off e aquelas piadinhas previsíveis inseridas durante toda a trama, Beijei uma Garota se mantém honesto ao seu conteúdo original do começo ao fim, trazendo a questão da homossexualidade como alvo de uma chacota inocente, embora nunca ofensiva, e muito menos improvável.

Trazendo a dupla de diretores/roteiristas Maxime Govare e Noémie Saglio em seu primeiro trabalho em conjunto para o cinema, o filme tem como estrela absoluta Jérémy Deprez (Pio Marmaï), que às vésperas de se casar com seu namorado (Lannick Gautry) com quem esteve junto por 10 anos, acaba passando sua primeira noite com uma mulher (Adrianna Gradziel), pela qual se apaixona e coloca em xeque seu “status” de homossexual tão admirado por seus pais.

Trazendo uma trilha sonora agradável e quase clichê ou brega (o fato é até apontado em um momento do longa), esse é um filme ágil, que parece ter muito a dizer, quando na verdade se apressa para conseguir encaixar todas as suas gags preparadas especialmente para a desagradável (e conhecida) situação das ComRom, em que o protagonista precisa contar a verdade para as duas partes, mas vai enrolando durante praticamente todo o filme, quando inevitavelmente… bom, todos sabem como isso acaba. Talvez o mais interessante seja observar o seu desenvolvimento, e para isso temos a companhia do melhor amigo e sócio de Jérémy (outra figura repetida), o “hétero assumido” Charles (Franck Gastambide), que ganha mais espaço em tela do que geralmente é dado aos coadjuvantes, e realiza um ótimo contraponto cômico ao dramático embora simpático e agradável.

Beijei uma Garota Crítica

É divertido observar também que as opiniões sobre a sexualidade alheia estejam espalhadas entre os personagens. Sua mãe parece ter invertido suas opiniões para virar moderninha e acaba se transformando na antítese da tolerância sexual, provando em todas as suas participações que leu a cartilha de esquerda e aplica ela da forma mais peçonhenta, gerando um pouco de antipatia por repetição. Já o pai de Jérémy protagoniza um belo momento, mas na maioria do tempo é apenas um coadjuvante que repete falas. O resto da família é criada para servir às críticas da mãe e criar uma tensão (desnecessária) a respeito da vinda de um bebê.

Mesmo com tantos defeitos e contrapontos, a redescoberta da sexualidade nos relacionamentos é um tema que vale a pena conferir, pois mesmo que simplificado do lado dos noivos, é uma questão delicada sendo adotada em um tom mais ameno. Talvez a piada que mais incomode seja a de não existir bi-sexualidade, no sentido de que, hoje em dia, quando alguém se descobre gay, parece improvável que essa pessoa na era da internet não faça uma pesquisa básica sobre seus sentimentos e desejos, tornando portanto essa desinformação mais patética que cômica.

De qualquer forma, há mais acertos que erros em Beijei Uma Garota, uma comédia que sabe o que quer, embora flerte com o famigerado e desgastado formato Hollywoodiano. Nesse sentido, lembra a maioria das produções brasileiras enlatadas. Felizmente, há um ar francês de libertinagem que consegue divertir mesmo que em um tom menor.


“Toute Premiére Fois” (Fra, 2015), escrito e dirigido por Maxime Govare e Noémie Saglio, com Pio Marmai, Franck Gastambide, Adrianna Gradziel, Lannick Gautry, Fredéric Pierrot, Camille Cottin.


Trailer – Beijei Uma Garota

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