Seria impossível negar a importância de Christopher Nolan não só para o cinema na última década como para a popularização das adaptações às telas de personagens dos quadrinhos, já que foi seu Batman Begins que, realmente, mostrou que nada precisava ser O Cavaleiro das Trevas Ressurge Posteruma cópia fantasiosa, pueril e escapista das páginas dos gibis. Anos depois, seu Cavaleiro das Trevas ainda deu o segundo passo em direção a uma profundidade que ninguém nem imaginava que existisse, e por tudo isso é mais que merecido que ele possa fechar do jeito que ele quiser sua trilogia com esse Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge.

Bom ou ruim, o mais importante é entender o quanto Nolan criou esse mundo e, ao mesmo tempo pôde caminhar com seu personagem por esses três atos, do nascimento ao fim. Sem spoilers, apenas o caminho natural que sua história tomaria, já que no segundo, se permitiu ser sobre a dor das escolhas, dos sacrifícios que o personagem fez para conseguir aquilo que tanto lutou, mesmo que a maior vítima seja ele mesmo. Agora, oito anos depois (no filme), Gotham City vive em tempos de paz graças uma Lei Dent, mas é, justamente, essas verdades escondidas para baixo do tapete que acabam permitindo que a cidade fique nas mãos de um mercenário chamado Bane, que pretende devolver o poder ao “povo de Gotham”.

E mesmo que essa premissa acabe sendo frágil e simplista, Nolan não permite que em nenhum momento ela saia daquilo que parecia premeditar, uma evolução natural do que já foi visto, coisa que, sem dúvida, ajuda o espectador a não se chatear com algumas ferramentas pouco inspiradas que o roteiro se permite recorrer (pela primeira vez na trilogia). Nolan, seu irmão Jonathan e David S. Goyer (que participou dos textos dos três filmes) acabam optando por um final épico, nessa Gotham sitiada pelo terror e por seu herói tendo que voltar à ativa, mas ficam perto demais de tornar isso um produto unido por motivações um pouco pragmáticas que, quase nunca, passam por mais que viver ou morrer, uma vingança pura e simples ou, apenas, a força de vontade de dar a volta por cima.

Isso, sem comparar com a enorme profundidade do segundo filme (o que seria uma covardia), mas sim, simplesmente, olhando para como todo roteiro só consegue andar nessa trama através daquilo que já foi explorado em algum dos outros filmes como motivação, e quando não faz isso, acaba se tornando artificial, como na volta do próprio Bruce Wayne envelhecido no começo do filme, esquálido e apoiado por sua bengala, para a figura que, em um par de cenas, já está dando conta de um monte de bandidos em sua moto (ou tumbler, para os mais fanáticos). É óbvio que a ideia é refletir a força de vontade do personagem e sua necessidade de defender sua cidade diante do perigo iminente, mas é difícil acreditar que após uma análise médica que deixaria qualquer um de cama pelo resto da vida, ele tenha saúde suficiente para pular pela janela e deixar sua voz rouca mandar em sua lógica.

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Não há duvida que esse momento está lá para que o cinema se contorça de dor diante de tantos ferimentos resultantes dessa guerra que ele travou, mas ainda assim, beira a preguiça a simples decisão de solucionar o problema com uma espécie de dispositivo que “arruma seu joelho” (e que é esquecido durante todo resto do filme). E se de um lado esse detalhe é esquecido, o que falar de certas “dicas” repetidamente “lembradas” durante grande parte do tempo para que o final faça sentido, como todas as vezes que se cita a falta de um piloto-automático em seu novo “batcoptero” (eu sei que o nome é Bat).

E é justamente esse desprendimento com a possibilidade de se tornar uma obra-prima que parece mais incomodar em termos narrativos, como se houvesse um impedimento em desenvolver melhor certas soluções, como a própria existência do tal novo veículo do personagem que parece só existir para proporcionar o tão esperando final épico (e aqui vai um pequeno Spoiler!) já que seria o único modo de afastar de Gotham a bomba que ameaça sua população. Uma preguiça narrativa que não parece errada, mas sim pouco sutil, e bem incomum entre os filmes de Nolan.

O pacote ainda se completa com um punhado de diálogos explanatórios artificiais, já que é impossível não sentir o tropeço quando um dos vilões “murmura” (em forma de release) a tal funcionalidade do chip/programa que a personagem de Anne Hattaway (vulgo Mulher-Gato) tanto procura (sem esquecer de Wayne explicando como transformar energia limpa em uma bomba em um desculpa pouco convincente em termos de realidade e que puxa um pouco o espectador para fora desse clima que ele tanto tentou criar nesse anos à frente do personagem). (fim do spoiler!)

O Cavaleiro das Trevas Ressurge Filme

Mas tudo isso, por sorte e pelo incrível trabalho de Nolan, acaba ficando mascarado pela propriedade com que ele carrega sua história, fazendo com que, mesmo sem muitas novidades, cada sequencia de seu filme se entrelace perfeitamente bem com o que vem a seguir, sem esquecer o quanto é importante que a história mude seus personagens, assim como os outros dois filmes tenham mudado e resultado nesse.

Diante do trabalho detalhado e esforçado com que criou esse mundo nos dois filmes anteriores, …Ressurge agora se permite ser um filme muito menos sobre o Batman e muito mais sobre as pessoas que aprenderem com o personagem o significado de suas ações e de seus sacrifícios, que acabam tendo que enfrentar essa ameaça muito mais através da sombra de sua presença e da esperança que reside nela do que com suas (três) aparições físicas (pouco, mas mais que suficiente).

Assim como a população de Gotham, Nolan ensina seu espectador que aquele mundo não precisa de um Batman, mas, assim como o pobre Alfred lembra (antes de ser jogado para escanteio por motivações puramente melodramáticas): de Bruce Wayne, da ideia e da lenda.

Desse modo, esse último Batman da trilogia pode ser separado em dois segmentos que funcionam como uma engrenagem azeitada. De um lado o herói tentando ressurgir para salvar sua cidade e de outro o policial Blake (Joseph Gordon-Levitt) que precisa descobrir a definição de herói. (e aqui mais um Spoiler) E nesse ponto, Nolan faz um trabalho cirúrgico, já que, enquanto mostra o declínio e o ressurgimento de Batman, reflete isso com o nascimento desse legado por meio desse policial, que vem da mesma infância sofrida do protagonista, tem a sensibilidade de descobrir a real identidade do herói (e ganhar algumas lições), depois se tornar um investigador/detetive de primeira, lutar contra o sistema, mudar de roupa (do uniforme de polícia para o terno), prender um super-vilão, largar a arma de fogo, e, no final das contas, escolher o sacrifício iminente e a esperança mesmo, ironicamente, diante do pessimismo de um padre (que, obviamente seria um poço de fé).

Em 164 minutos, Nolan faz com Blake o que demorou o dobro do tempo para conseguir com Wayne e, com isso, deixar em boas mãos a capa, a máscara e a lenda que ele (Nolan) ajudou a criar. Não à toa então que o mesmo Blake, lá no começo de tudo, surja, ou se sinta chamado (prevendo seu papel dentro da mitologia), ao topo do prédio da polícia enquanto o Comissário Gordon trabalha ao lado do enferrujado Batsinal, talvez em busca de um herói, de um novo Batman (fim do Spoiler!).

O Cavaleiro das Trevas Ressurge Filme

Nolan ainda conta com a presença interessante de Hattaway como a mulher gato (que encontra duas soluções interessantíssimas para suas “orelinhas”), criando uma dinâmica nova dentro da trilogia, já que, pela primeira vez, Batman parece pedir ajuda para alguém (além de provar, com bom humor, de seu próprio remédio ao vê-la sumir) e mostrar, então, mais ainda sua fragilidade diante do caos que Bane cria. Esse que, por sua vez, é o resultado esforçado de Tom Hardy em dar vida por trás daquela máscara, imprimindo um sotaque marcante por baixo dela (que deve se perder nas cópias dubladas) e surgindo em cena sempre como se só sua presença fosse necessário para criar o medo que aflige na população, usando gestos expansivos e teatrais como a ferramenta perfeita para criar o que poderia ser um vilão sem personalidade, mas que ganha a atenção de todos.

E ainda que use o mesmo esquema do segundo filme ao surgir com um segundo vilão nos momentos final, só que agora apelando (no bom sentido) por uma espécie de aparição surpresa, e que só não soa forçada, pois explora bem todo potencial dos flashbacks que contam sua origem (e que, provavelmente, pode até enganar alguns fãs dos quadrinhos), Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge é sim épico, mesmo que dependendo de muletas como o hino dos Estados Unidos ou uma bandeira rasgada e balançando ao vento. Mas, sobre tudo, grandioso por coroar o cuidado com que Christopher Nolan carregou esse personagem por esses sete anos (desde Batman Begins) e que deu ao homem-morcego o status de uma das grandes trilogias que o cinema pode ter orgulho de ter.


The Dark Knight Rises(EUA, 2012) escrito por Jonathan Nolan, Christopher Nolan e David S. Goyer, dirigido por Christopher Nolan, com Christian Bale, Joseph Gordon-Levitt, Anne Hathaway, Michael Caine, Tom Hardy, Gary Oldman, Marion Cotillard e Morgan Freeman.


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8 Respostas

  1. Leandro

    Oi Camila, não sei se você lê as HQ’s do Batman, mas o que Nolan mostrou com sua trilogia épica, é o que sempre vimos nos gibis. Um herói muito que na verdade é muito complexo que luta para manter o símbolo do morcego em alerta e vivo na loucura que é Gotham City fazendo os bandidos psicóticos tremerem de medo. Na verdade Nolan foi até o momento o diretor que mais agradou os verdadeiros fãs, e também pra quem não conhece muito bem a história do Homem-Morcego, pois ele trouxe a “alma” do Batman nas telonas.É uma pena que a saga do morcego nas mãos de Nolan tenha chegado ao fim, mas tudo que é bom acaba rápido, agora vamos ver quem será o próximo diretor da nova história e torcer para que pelo menos seja digno de se ver pq eu acho pouco provável vermos outro Batman tão humano e realista como o de Nolan. abraços.

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  2. Camila

    Isso é mais ou menos um spolier kkkk

    Lembrando que o verdadeiro nome do Robin não é Robin, é Tim Drake ou alguma coisa assim… Acho que esse carinha vai acabar sendo o Novo Batman no final das contas. É a margem que sobrou pra um novo filme, já que o Batman do Bruce Wayne aparentemente se aposentou e lá feliz da vida com a Selyna. E sem esquecer que Christian Bale só aceitou fazer a trilogia se não tivesse o Robin…

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  3. Camila

    Adorei a trilogia e se tratando de filmes de heróis acho que foi a melhor que já vi. Beggins é muito bom, toda a explicação sobre a Liga das Sombras e mostra que o Batman não é só um nerd sofredor que não precisa de ninguém, já que ele conta conta a ajuda do Fox. O segundo filme, o Joker roubou totalmente a cena, na minha opinião, o melhor filme dos três. Esse último achei muito bom, embora ache que tenha tido um final acelerado, sei lá, me deu a sensação de que as coisas estavam acontecendo depressa demais no final. Mas o que achei de mais interessante no fim das contas, foi que a trilogia conseguiu apagar em mim aquela sensação de que Bruce Wayne era um playboy metido a besta e ressentido, embora o que tenha motivo ele a querer ser herói fosse a morte dos pais (era o que eu achava), o filme mostrou os valores que ele tinha, o desejo real de ver um mundo melhor e que no final das contas, ele queria paz e ser feliz. Só o que ele tinha era medo da felicidade, acho isso, talvez não acreditasse nela. Muito bom, eu recomendo.

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  4. Leandro

    Entendo, não consigo ver, ou melhor, admitir esses erros pq sou fã….rsrsrs. Conheço a trilha de “O REI LEÃO” e “SHERLOCK HOLMES”…já o “RANGO” não vi, mas me lembro vagamente de uma música dele…enfim é outro que quando está na frente de uma trilha sonora é sucesso com certeza. Bom Vinicius, parabéns pela página e pela crítica de “BATMAN – O CAVALEIRO DAS TREVAS RESSURGE”. um forte abraço e até o próximo papo sobre algum outro filme.

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  5. Leandro

    Concordo Vinicius…”X-MEN – Primeira Classe” também foi bem sucedida nas telonas contando o início do grupo e humanizando e explicando o motivo de cada um pra seguir e escolher um lado. Mas, não sei se vc irá concordar comigo, Nolan tem uma mão pra dirigir e roteirizar que é excepcional…e também as trilhas de seus filmes é sensacional. Temos um outro trabalho dele que foi “A ORIGEM” que é intrigante e tenso e inteligentíssimo e também a trilha é fantástica, confesso que me perdi no meio de “A ORIGEM” de tão complexo que ele é e tive que vê-lo novamente pra entedê-lo bem…rsrs. Todos os filmes dele dá uma sensação de que no início é mais um filme simples e normal, mas ao decorrer da trama as situações vão se complicando e se encaixando umas com as outras e vêm a trilha sonora que é sempre show e tudo se torna algo tão complexo que quando vemos estamos paralisados na poltrona tentando entender todos os pontos…sem nenhuma dúvida foi o melhor diretor que a franquia do homem-morcego já teve. Parabéns para “TRILOGIA BATMAN O CAVALEIRO DAS TREVAS de Christopher Nolan”…é uma pena que tudo que é bom acaba rápido, mas que venham outros sucessos de Nolan, fica o convite para todos aqui: Esqueçam “LANTERNA VERDE”, “OS VINGADORES” E “ESPETACULAR HOMEM ARANHA” pois “BATMAN – O CAVALEIRO DA TREVAS – RESSURGE” é MELHOR que todos eles juntos e sem nenhuma dúvida o melhor filme do ano!!!. Eu diria que a direção de Nolan parece uma música clássica que no início é calma e suave e depois fica tensa e complexa….concorda comigo Vinicius? abraços.

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    • Vinicius Carlos Vieira

      Leandro, concordo em grande parte, mas não que “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” possa ser o melhor do ano, pois acho que ele falha em alguns pontos (como eu disse na crítica)… mas falando sobre a trilha, ela é do Hans Zimmer (tanto ela quanto a do “A Origem”), então te indico ver alguns outros trabalhas bem bacanas do compositor em “Rango”, “Sherlock Holmes”, “O Chamado” e “O Rei Leão” (sem contar mais um monte de outros trabalhos dele)…

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  6. Leandro

    olá! concordo com sua crítica aqui descrita em grau, gênero e número Vinicius…mas creio que Nolan foi o melhor, para os fãs e não fãs, diretor que a franquia BATMAN já teve…não foi? Acho que ele realmente conseguiu mostrar que o BATMAN é um símbolo que sempre estará presente de olho nos vilões independente de quem esteja por trás do manto do morcego. O ponto forte de Nolan foi esse….fazer o BATMAN como um sujeito que luta constantemente sem desistir nunca e é capaz e o único de ir até o fim para salvar sua cidade de vilões totalmente psicóticos. O legado deixado do BATMAN de Nolan é isso…BATMAN é um símbolo e uma lenda que jamais vai adormecer e que não luta sozinho, existe uma equipe de Aliados que o tornam invencível justamente como vemos nos gibis….particularmente pra mim, a trilogia é perfeita, é claro que alguns estão dizendo que esse não foi tão bom quanto o segundo episódio, mas se tratando de uma trilogia é perfeito sim. Mas Vinicius, essa TRILOGIA sem dúvida foi a melhor adaptação para o cinema de todos os tempos.

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    • Vinicius Carlos Vieira

      em relação a quadrinhos, eu acho sim que foi a melhor série de adaptações (acredito ainda que a única que possa fazer frente a ela hoje seja a que foi iniciada com “X-Men – Primeira Classe”)… e também acho que Nolan foi o único diretor a conseguir entender e passar para a tela aquilo que o personagem é nos quadrinhos…

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