Mariana González
11 de abril de 2018 |

Melodramático e, em diversos pontos, assumidamente trash, Baseado em uma História Real é quase um estudo de personagens despretensioso e, por isso, divertido e eficiente. Este não é um grande filme repleto de momentos memoráveis e de discussões complexas, ainda que a estética e a direção de Roman Polanski deem ao longa uma roupagem digna disso.

Entretanto, esse contraste é uma das características que fazem com que a obra funcione, ainda que, de longe, sua maior qualidade seja mesmo o trabalho de Emmanuelle Seigner e Eva Green.

A escritora Delphine Dayrieux (Emmanuelle Seigner) atualmente promove seu último livro, cuja história é inspirada pela trajetória de sua mãe, que suicidou-se depois de enfrentar uma doença desgastante. Ainda afetada pela carga emocional dessa obra e pela resposta extremamente positiva do público e da crítica, Delphine continua buscando a motivação e a inspiração para dar início a seu próximo projeto, que ela ainda não sabe qual vai ser. Necessidade de encontrar-se? Pura procrastinação? Para a misteriosa Elle (Eva Green), Delphine tem é medo de entregar ao mundo o “livro escondido” que ela carrega dentro de si: a história de sua própria vida. Depois de se conhecerem em uma sessão de autógrafos, Elle passa a envolver-se cada vez mais na rotina de Delphine e, logo, as duas desenvolvem uma relação interdependente e que pode ter consequências desastrosas — ou gloriosas — para ambas.

Seigner abraça os diversos lados de Delphine — escritora famosa, escritora reclusa, amante, confidente, ouvinte, centro das atenções… E, em meio a tudo isso, a fragilidade que permite que Elle instale-se de maneira tão forte na vida dela. Enquanto isso, Eva Green domina o filme ao fazer de Elle uma mulher completamente instável e imprevisível, deliciosamente insana e que pode entregar-se totalmente a essa loucura, já que jamais ficamos sabendo muito sobre quem é, realmente, aquela pessoa e o que a leva a agir da maneira como ela age. Dessa forma, Delphine e Elle logo entregam-se a uma relação volátil e tão imprevisível quanto a personagem de Green. Elas podem estar conversando e trocando revelações bastante pessoais, por exemplo, apenas para no segundo seguinte mostrarem-se agressivas e, no próximo, demonstrarem que precisam uma da outra.

Baseado em Fatos Reais

Essa amizade interdependente guia Baseado em uma História Real até seu terceiro ato, em que as fronteiras entre a realidade e a mentira (ou melhor, a loucura) tornam-se mais frágeis. Aqui, o melodrama também atinge seu ápice, com direito a Eva Green estraçalhando objetos pela casa afora e a situações que podem, ou não, ser fruto de alucinações. Aos poucos, a própria Delphine começa a ser contaminada pela insanidade de Elle a ponto de ela, também, tornar-se responsável por uma apropriação da vida e das experiências da outra, algo que a assustou (e a lisongeou) naquela misteriosa criatura desde o início.

Apesar das reviravoltas na trama, o longa dirigido por Polanski e escrito por ele ao lado de Olivier Assayas (com base no livro de Delphine de Vigan) não tem a tensão e não gera o envolvimento necessários para estabelecer-se como thriller, e também não é complexo o suficiente para realmente funcionar como estudo sobre o processo criativo. Mas, como retrato de duas escritoras e das necessidades que elas preenchem uma em relação à outra, a obra mostra-se eficiente e, ao despretensiosamente abraçar a loucura de ambas, também divertida.


“D’après Une Histoire Vraie” (Fra/Pol/Bel, 2017), escrito por Olivier Assayas e Roman Polanski a partir do livro de Delphine de Vigan, dirigido por Roman Polanski, com Emmanuelle Seigner, Eva Green, Vincent Perez e Dominique Pinon.


Trailer – Baseado em Fatos Reais

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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