Bacurau | Só sai de noite… ele é brabo


O poder de Bacurau está nos detalhes. Nada que está sendo visto é apenas para ser visto, é preciso mergulhar e se permitir viajar por esse “western” sertanista cheio de símbolos, referências, alegorias, violência e um pouquinho de realidade. Ou vice-versa.

O filme começa no espaço, de onde Bacurau, cidade do “Oeste de Pernambuco”, poderia ser apenas um pontinho, mas não é. Logo o espectador irá descobrir que essa cidade sumiu do mapa, literalmente falando. Ao mesmo tempo uma série de estranhos e violentos acontecimentos vão levando a crer que a cidade está sendo invadida.

O suspense da música na abertura do filme acaba contrastando com o jeitão meio brega de uma versão de “Não Identificado” de Caetano Veloso. Mas o que vai brilhar na noite, nesse caso, não é uma paixão, nem um disco voador, muito menos um objeto não identificado, mas sim a luta de um povo oprimido.

E se parece que Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, que dirigem e escrevem Bacurau juntos, estão pensando em algo bem além da tela branca do cinema, é difícil negar essa possibilidade. Seu Bacurau tem sotaque, não nordestino, mas brasileiro. Tem cheiro e cor e de resistência. Tem algo do vermelho seco no sangue da criança assassinada e da marca na parede que ficará para a posteridade no museu.

Aos poucos o que vai surgindo é uma história sobre um grupo de gringos armados até os dentes e obedecendo uma pontuação misteriosa que valoriza seus assassinatos. Talvez um jogo, um esporte, ou apenas uma oportunidade de dar a seu público a oportunidade de sentir essa violência. Do lado de Bacurau, entre os moradores, “Pacotinho” (Thomas Aquino) é celebrado por seu “TOP 10 Assassinatos” dos tempos que era matador.

Em um TV ligada, lá para o final de Bacurau, uma transmissão ao vivo faz a cobertura de uma série de execuções públicas em São Paulo. O “Daqui a Alguns Anos” do início do filme coloca Bacurau em uma distopia violenta onde a celebração da violência é algo que invade as televisões, redes sociais e a vida real. Talvez não tantos anos à frente.

E é nessa sensação esquisita de mistério e deslocamento que os cineastas parecem querer jogar seus espectadores. Esse mundo que se forma sem mastigar o que está acontecendo, que vai te convidando aos poucos para entender o que está realmente acontecendo. Bacurau não te conta, te mostra, te convida a sentir e não desviar o olhar daquilo que está se formando bem na sua frente.

Quando dois forasteiros de moto chegam à Bacurau (Karine Teles e Antônio Saboia) e são repetidamente convidados para visitar o museu local, não é pela história da cidade, mas sim para entenderem que a união de Bacurau não está na posição de vítima, mas sim dessa resistência. E se isso só vem através da violência e de muitos caixões enfileirados, tudo bem. Afinal, como dia a placa de boas-vindas “Se for, vá na paz”.

O que vem na sequência disso é uma mistura de Glauber rocha com Tarantino, com pitadas de Matar ou Morrer e, é claro, um tempero especial da clareza e loucura de John Carpenter (que tem uma homenagem curiosa batizando o nome da escola local).

De Glauber não vem a imagem de que “uma ideia na cabeça e uma câmera na mão” seja suficiente, mas sim da possibilidade de montar essa história através de sensações, símbolos e momentos que transitam entre a poesia e a mais pura violência. É dele também, e de todos nordestinos, esse sentimento de solidão diante do país, como se todos olhos sempre estivessem virados para o “sul” e eles tivessem sempre que se virar sozinhos, seja enfrentando cangaceiros, governos opressores e até ideias retrogradas. O Nordeste é sua própria resistência, assim como Bacurau, não precisa de um político em um carro de som gritando promessas. Quer apenas paz, quer ficar em seu cantinho vivendo sua vida, pedindo para que ninguém pise em seus calos.

Bacurau é então esse filme sobre um povo pacifista até a última oportunidade. Que à beira de ser atacado ainda tenta selar a paz com seu agressor no encontro de Domingas (Sônia Braga) e Michael (Udo Kier). Um guisado e um suco de caju como último aviso, ainda que quase sempre a violência não se permita enxergar avisos.

Sônia Braga tem dois ou três momentos em Bacurau que demonstram não apenas o quanto ela é um dos maiores ícones do cinema brasileiro, mas também o quanto ela se permite ser quase uma força da natureza para encarar papeis como o de Bacurau. É impressionante ver a franqueza, a sutileza, a calma e a explosão de Braga em cada cena que participa. E não seria nem um pouco surpreendente se seu nome pintasse nas listas de premiações do ano.

E falando em explosão, essa catarse violenta de Bacurau talvez venha um pouco de Tarantino, que por sua vez não nega suas raízes naquele faroeste de tipos como Sam Peckinpah, por exemplo. Mas o grande diálogo em volta de uma mesa onde os ânimos se exaltam aos poucos e tudo se transforma em tiros, isso sim vem de Tarantino. Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho usam isso para desenvolver essas ideias que criam esse cenário onde os mistérios de sua trama começam a serem pinçados. Lógico, isso sem perder a oportunidade de colocar os “pingos nos is” e lembrar a todos daquela velha retórica de que, para o mundo, ninguém aqui é “branquinho”.

Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho estão então dispostos a esfregar isso na cara de quem sentar no escuro do cinema: o único jeito de vencer é com a união. E não importa se você olha para o alto do mapa e acha que nada ali existe, quem está mais ainda do lado de cima olha para baixo e só vê a mesma coisa. E o cordial com o inimigo, talvez seja o primeiro a morrer, já que ninguém confia em quem trai os seus próximos. E a união que mais importa, com Bacurau não parando nem um segundo de ser sobre resistência, e isso talvez incomode quem vai ao cinema em busca de algo menos visceral e verdadeiro.

Essa resistência talvez passe pelo clássico Matar ou Morrer, com a cidade preparada para um embate final, sangrento e violento, mas muito provavelmente está em outro lugar, na caçamba do prefeito, despejada como se fosse lixo na frente da escola, afinal, como ele próprio diz, “Bacurau tem uma das melhores bibliotecas da região”. Essa firmeza e essa clareza vem, justamente, do nome que batiza a escola, John Carpenter, pelo qual Kleber Mendonça Filho já declarou ser fã.

É impossível não ver a figura excêntrica do criminoso Lunga (Silvero Pereira) e toda relação do personagem de Kier com seus companheiros e não pensar no cinema de Carpenter. Na limpeza da imagem que está passando e nos atos que não escondem sentimentos. É esse visceral de Carpenter que transforma Bacurau nesse quase realismo fantástico onde os sintetizadores servem de pano de fundo para um “jogo” de capoeira.

E se você conhece um pouco de história, sabe que essa ideia de “dança” e “jogo” escondia um treinamento que permitia aos negros escravos o poderio defensivo (e ofensivo) de quem tinha que enfrentar o sistema que os tratava como objetos a serem apagado ao bel prazer.

Ninguém sabia a força desses negros, assim como ninguém imaginava que fosse possível que aqueles poucos policiais enfrentassem uma horda de inimigos em Assalto ao 13° DP, de John Carpenter. Muitos menos o xerife de Matar ou Morrer tinha alguma chance. Mas todos surpreenderam seus agressores porque tinham uma razão para sobreviver e o conhecimento real daquilo.

E talvez essa seja a real resistência que Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho buscam, não a da violência, mas sim a de demostrar para seus agressores que ainda dá tempo de desistir. Mas no final, se não houver outro jeito, que pelo menos ela seja lembrada, talvez cravada de balas no meio da estrada, manchada na parede do hotel ou até calando a voz que teima em gritar que é só o começo.

Tudo bem, se esse é só o começo, o importante é mostrar que estamos preparados.


“Bacurau” (Bra/Fra, 2019), escrito e dirigido por Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho, com Sônia Braga, Udo Kier, Karine Teles, Barbara Colen, Antonia Saboia, Thomas Aquino, Silvero Pereira e Wilson Rabelo.


Trailer do Filme – Bacurau

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