Azougue Nazaré | Um grito de fantasia em meio à realidade


As tradições e os conflitos religiosos da Zona da Mata em Pernambuco são o pano de fundo de Azougue Nazaré, um filme que evoca seu tom de fantasia sobrenatural logo antes de podermos apostar que ele é um documentário. Primeira direção de Tiago Melo, este filme pode ser proposto tanto quanto um documentário da cultura da Zona da Mata quanto uma ficção solta sobre os conflitos atuais da região.

Melo, que já foi diretor assistente de Divino Amor, uma distopia social que envolve fanatismo religioso, vai buscar no realismo dos seus personagens a evocação do espírito de Nazaré da Mata, cidade de médio porte onde a maior parte da ação ocorre. Próximo do litoral nordestino, é lá que se juntam os poetas repentistas, com seus cantos improvisados, e o Maracatu, um sincretismo religioso afro-brasileiro que envolve dança, música e religião. É lá também que observamos a invasão e opressão religiosa tomando conta na figura de um pastor evangélico que era um antigo mestre do Maracatu, além da revolta dos cristãos com as ações espirituais do pai-de-santo da região das plantações de cana.

Há uma mescla entre um elenco profissional e personagens reais da vida urbana que sugere um tom documental no início do longa que nos envolve na cidade e seus costumes. Apenas um olhar muito clínico ou a lembrança de trabalhos anteriores de Valmir do Côco (Bacurau) e Joana Gatis (Aquarius) que permite reconhecermos a ficção em meio à ação de transeuntes reais do dia-a-dia.

Tiago Melo usa figurantes locais para dizer as falas. Mas ao invés de soar amador por não serem atores, soa mais intenso, comprovando um preparo de elenco impecável. Os repentistas do filme são um prazer à parte da história principal, mas Melo, junto do roteirista Jeronimo Lemos, faz questão de inseri-los no meio da narrativa como se fizessem parte dela. E os poemas que improvisam nos introduz à história principal, que gira em torno de um pai-de-santo evocando cinco figuras mitológicas chamadas de caboclos de lança.

Essas figuras fantásticas também não surgem destacadas da realidade, pois suas vestimentas são costuradas pelos habitantes da região, além de alguns apetrechos serem contemporâneos, como óculos protetores. Além disso, eles surgem através da rede elétrica que passa pela plantação de cana, em uma harmonização entre o real e o fantasioso que gera ainda mais tensão que a edição frenética entre esses momentos em uma trilha sonora mística e evocativa.

Ao contar a história de quatro a seis personagens centrais e as tensões entre eles envolvendo adultério e conflito religioso, Azougue Nazaré em muitos momentos nos larga para explorar mais a cultura e a tradição da região, e por isso sua narrativa é solta e exploratória. Sem querer explicar tudo ao espectador da forma convencional, somos levados mais a construir a historinha em nossas mentes do que observar cada novo detalhe que surge de maneira ocasional, quase aleatória. É dessa forma, por exemplo, que o personagem de Valmir do Côco descobre ter sido enganado pelo pastor a respeito de um versículo da Bíblia. Nada no filme nos diz isso claramente, mas a mensagem penetra mais fundo em nossa alma.


“Azougue Nazaré” (Bra, 2018), escrito por Jeronimo Lemos e Tiago Melo, dirigido por Tiago Melo, com Valmir do Côco, Joana Gatis, Mestre Barachinha, Edilson Silva e Mohana Uchoa.


Trailer do Filme- Azougue Nazaré

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