Um filme sobre o fazer e a indústria cinematográficos, Ave, César! permite que Joel e Ethan Coen se divirtam e satirizem o Cinema — enquanto, ao mesmo tempo, demonstrem seu amor pela Sétima Arte. Sempre talentosos em navegar por diferentes gêneros, os irmãos, aqui, podem explorar de tudo um pouco através das produções fictícias e dos personagens grandiosos que acompanhamos.

Eddie Mannix (Josh Brolin) é o “chefe de produção” de um grande estúdio hollywoodiano — e isso, em 1950, ainda na era dos estúdios. A função de Mannix é, basicamente, garantir que tudo corra bem, desde as filmagens até os lançamentos — evitando, ainda, qualquer coisa que possa manchar a imagem dos artistas e, consequentemente, do estúdio. Assim, enquanto lida com importunas colunistas gêmeas (vividas por Tilda Swinton), com a gravidez da solteira estrela DeeAnna Moran (Scarlett Johansson) e com Hobie Doyle (Alden Ehrenreich), jovem astro do faroeste que foi chamado para participar de um drama para “mudar sua imagem”, Mannix precisa encontrar Baird Whitlock (George Clooney) — protagonista da megaprodução que divide seu título com este filme, e que foi sequestrado por um grupo autointitulado “O Futuro”.

Com o estúdio como locação principal, os irmãos Coen ficam livres para transitar por diversos núcleos de personagens e gêneros cinematográficos. O talento de Joel e Ethan, porém, consegue criar uma unidade entre tudo isso, mesmo enquanto abraça as particularidades de cada sequência — o humor dos diretores permeia a obra inteira, como é de costume. Assim, enquanto o prestigiado diretor Laurence Laurentz (Ralph Fiennes) se esforça para conseguir transformar Doyle em um ator dramático, logo acompanhamos o hilário número musical liderado por Burt Gurney (Channing Tatum).

Algumas peças, aos poucos, se interligam — outras tantas estão ali “apenas” para dar vida ao estúdio e àquele universo. Afinal, o que estamos acompanhando é somente um dia de trabalho (com 27 horas de duração) de Eddie Mannix. O protagonista é essencial para que o filme tenha unidade e, enquanto os demais personagens são mais estilizados — jamais vemos Whitlock fora de seu uniforme de soldado romano, por exemplo —, Mannix mantém-se equilibrado em meio às figuras bizarras que o cercam.

Ave Cesar Crítica

Portanto, é divertido — e, muitas vezes, surpreendente — acompanhar as reações de Brolin quanto às loucuras que acontecem ao seu redor, especialmente quando ele se mostra autoritário e protetor em relação ao estúdio. Enquanto isso, o restante do elenco — que, além dos nomes já citados, inclui pontas de atores como Francis McDormand, Jonah Hill e Alison Pill — obviamente se diverte imensamente com seus personagens, abraçando com talento a linguagem da obra.

Porque, mesmo enquanto riem e satirizam os absurdos da indústria cinematográfica, os Coen, acima de tudo, declaram seu amor pelo cinema. Não é à toa que o fictício “Ave, César!”, blockbuster com toques de Ben Hur, divida não apenas o nome, mas também o title card, os “créditos iniciais a serem filmados” e, até mesmo, o narrador de seu trailer com o filme de Joel e Ethan.

Enquanto a montagem (feita pelos próprios irmãos) é hábil em construir o ritmo e manter o equilíbrio do longa, a fotografia do mestre Roger Deakins também é importante nesse sentido. Brincando ainda com a paranoia da época em relação ao comunismo, o longa mantém o ritmo ágil não apenas através das variações de núcleo, mas também a partir dos ótimos planos envolvendo relógios — que nos lembram que, apesar de tudo o que aconteceu e está acontecendo, pouco tempo se passou.

Ave, César! é pouco acessível a quem não está acostumado com o trabalho dos Coen — mas quem aprecia o talento e humor únicos dos irmãos embarcará facilmente neste conto das bizarrices e fascínios da indústria cinematográfica.


“Hail, Caesar!” (Estados Unidos/Reino Unido, 2016), escrito e dirigido por Joel e Ethan Coen, com Josh Brolin, George Clooney, Alden Ehrenreich, Scarlett Johansson, Ralph Fiennes, Tilda Swinton e Channing Tatum.


Trailer – Ave, César!

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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