Através da Sombra | A Volta do Parafuso tupiniquim

Através da Sombra Filme

Produções de época são comuns tanto no cinema quanto nas telinhas brasileiras, mas o popular subgênero do terror ambientado em períodos passados é algo relativamente inédito por aqui. Dessa forma, Através da Sombra chama a atenção facilmente por sua proposta de trazer um clássico da literatura norte-americana — A Volta do Parafuso, de Henry James — para um contexto nacional. Entretanto, em meio a um design de produção louvável e a um excelente elenco, o filme encontra dificuldades para estabelecer sua atmosfera e os conflitos psicológicos de sua protagonista.

Laura (Virginia Cavendish) é contrata por Afonso (Domingos Montagner) para ser a professora de seus sobrinhos, os pequenos Antonio (Xande Valois) e Elisa (Mel Maia). Para tanto, ela deve mudar-se para a fazenda da família, onde Elisa vive com a governanta Geraldina (Ana Lúcia Torre) — o garoto fica em um internato, mas não demora muito a ser expulso da escola e voltar para casa. Enquanto tenta conquistar a confiança das crianças, de Geraldina e dos escravos da fazenda, Laura descobre que a ex-professora do lugar foi embora de repente e, mais tarde, passa a ser atormentada pela visão de um homem estranho que ela não sabe o que quer ou o que está fazendo ali.

Ambientado durante a crise do café dos anos 30, Através da Sombra passa-se em uma fazenda decadente o cheiro e a fumaça do café sendo queimado toma conta de tudo —, ainda que todos tentem manter uma mínima dignidade ali dentro. O design de produção merece aplausos ao não apenas capturar bem o contexto da história, mas também por saber aproveitá-lo dentro do gênero.

Assim, enquanto a enorme residência oferece a oportunidade perfeita para ouvirmos soalhos rangendo e outros sons que podem ser tão casuais quanto ameaçadores, o diretor Walter Lima Jr. acerta principalmente nos aspectos alinhados à fotografia de Pedro Farkas, que utiliza com brilhantismo as luzes trêmulas e intermitentes do casarão para criar tensão e é interessante perceber como isso não é apenas um elemento estético, mas presente na trama, já que Laura mostra-se particularmente afetava pela pouca iluminação nos momentos mais conturbados da personagem.

Através da Sombra Crítica

Adaptando a obra de Henry James ao lado de Adriana Falcão, Lima Jr., entretanto, não confere o mesmo cuidado ao roteiro. Desde o início do longa, há um excesso de ocasiões inexplicavelmente bizarras ou incômodas que mostram-se irrelevantes tanto para a criação de uma atmosfera homogênea quanto para o desenrolar da história, como a atitude predatória de Afonso para com Laura ou o silêncio e o olhar perturbador do senhor que leva a professora de carroça até a fazenda. Além de um tanto aleatórios, esses momentos também são muito espaçados ao longo do primeiro e do segundo ato, o que realça o fato de que não há um tom coeso na produção.

Além disso, os aspectos sobrenaturais da trama só dão as caras no terceiro ato, o que suaviza o conflito principal de Através da Sombra: Laura está enlouquecendo ou não? Quando chega, o terceiro ato funciona melhor como terror do que o que havíamos visto até então, mas isso não é o suficiente para que o longa consiga realmente se estabelecer como uma adaptação digna especialmente quando consideramos que a obra já havia chegado aos cinemas por meio do genial Os Inocentes, de 1961. Enquanto isso, apesar da presença dos escravos e de alguns batuques na trilha sonora, não é feito esforço algum para nacionalizar a história, desperdiçando a chance de fazer algo realmente diferente com ela.

Mas se Falcão e Lima Jr. retratam a suposta loucura da protagonista de forma pouco complexa, o mesmo não pode ser dito do trabalho de Virginia Cavendish. A atriz abraça cada aspecto da protagonista, desde a repressão sexual de uma mulher que cresceu em um convento até a tentativa de tentar fazer sentido das coisas que ela passa a enxergar, passando ainda pela dificuldade de estabelecer-se como uma figura de autoridade na fazenda. Ao seu lado, a veterana Ana Lúcia Torre e as crianças Mel Maia e Xande Valois também fazem belos trabalhos, contribuindo para o estado mental frágil de Laura não apenas conforme o filme caminha para sua conclusão.

O resultado final, então, é uma produção que merece ser reconhecida por seus aspectos técnicos e pelo trabalho do elenco, que eleva o roteiro ao mesmo tempo em que reforça o quanto Através da Sombra desperdiça muito de seu potencial.

Texto faz parte da cobertura do Santos Film Fest 2018


“Através da Sombra” (Bra, 2015), escrito por Walter Lima Jr. e Adriana Falcão a partir do livro A Volta do Parafuso, de Henry James, com Virginia Cavendish, Ana Lúcia Torre, Mel Maia, Xande Valois, Domingos Montagner e Alexandre Varella.


Trailer – Através da Sombra

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