É indiscutível que Atividade Paranormal cumpre com o que foi prometido em toda gigantesca campanha de marketing que cercou o filme, mas é preciso dizer que isso acaba sendo muito pouco diante das expectativas que a maioria do público carregará para dentro do cinema. Atividade Paranormal decididamente não é um novo Bruxa de Blair e ainda mais, passa bem longe do mais recente [Rec] (ambos “primos” que exploram a mesma vertente).

O filme dirigido por Oren Peli, usando sua própria casa e pelo gasto ínfimo de quinze mil dólares, com atores totalmente desconhecidos e muita criatividade, precisa ser, antes de qualquer coisa, aplaudido de pé por essas mesmas razões, já que fazer algo minimamente decente diante desse quadro já uma vitória, e ele, com certeza, faz muito mais que isso.

Peli definitivamente não é nenhum gênio, nem seu nome deve ser muito lembrado ao passar dos anos, mas, em Atividade Paranormal tem uma grande sacada diante de um conhecimento de causa que ele parece ter sobre o assunto, manipulando sua platéia com desenvoltura e satisfazendo suas sedes por meia dúzia de sustos realmente decentes, coisa que vem sendo esquecida a cada ano que passa em Hollywood. O mais interessante de tudo é que seus problemas começam exatamente junto com isso, já que todo ele se sustentando única e exclusivamente por esses sustos, acaba por tornar todo resto da história totalmente desinteressante, deixando que toda aquela empolgação da platéia se perca um pouco.

Diante de um enredo pífio, mostrando o casal que resolve documentar os barulhos que eles escutam durante a noite com uma câmera de vídeo durante seus sonos, a única salvação visível recairia sobre os personagens, mas dá igualmente com a cara na parede, não conseguindo criar uma maior proximidade entre o espectador e o casal. O namorado é um chato que a todo tempo filma tudo a sua volta, sem uma desculpa muito boa, enquanto desafia a tal “força desconhecida”, coisa que obviamente não aconteceria nesse mundo real que o filme tenta fingir estar (ainda mais depois de algumas certas “atividades paranormais”), já a protagonista parece equilibrada demais diante de todo “probleminha” que a persegue desde a infância, meio acostumada demais com tudo aquilo. Bem verdade dois problemas que se resolveriam com uma maior profundidade da história, mas que nesse caso não ocorre por que não tem pra onde apontar.

E é essa “realidade” que, ao mesmo tempo em que vende o filme mais o atrapalha, já que se leva a sério demais, tentando criar uma ambientação crível quando só a proximidade da platéia com o “problema” do casal, faria qualquer um “engolir” qualquer coisa. Todo mundo gela diante da combinação escuro e barulho desconhecido, o que daria campo para o diretor explorar melhor, pelo menos visualmente, alguns momentos chaves. É lógico que a falta total de dinheiro provavelmente impossibilitou isso, mas um pezinho maior no fantástico talvez embalasse muito melhor o filme, vide o momento que a protagonista é carregada da cama ou das marcas sobre o açúcar no chão como prova do que o filme poderia se tornar.

Plateias um pouco mais experientes se irritarão ainda com toda estrutura óbvia do diretor, enrolando demais entre as noites “assombradas” e (ou senão tudo não passaria de um curta), deixando o filme extremamente pontual. Esses mesmo olhos um pouco mais treinados ainda perceberão o quanto Peli não parece se preocupar em, convenientemente, apontar a câmera do personagem para um ou outro lugar certo demais, assustando e criando aquela expectativa do próximo passo, mas ao mesmo tornando toda experiência pouco natural.

Atividade Paranormal logicamente funciona graças aos sustos (mesmo que meio refém do enquadramento da porta do quarto), mostra que sabe manipular seu roteiro em uma tensão exponencial e que, no fim das contas, não consegue ser mais profundo por que não tem como ser, assim como fará muito gente reclamar de um final anticlimático (mas que na verdade é muito bem preparado e concluído). Um filme que finge ser uma experiência (passando longe disso), mas que será esquecido na esteira dos muitos terrores com a premissa de uma câmera amadora. Por isso, o melhor é ir ao cinema a procura de sustos não de um filme inesquecível.


Paranormal Activity (EUA, 2009) dirigido por Oren Peli, com Katie Featherston e Micah Sloat


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4 Respostas

  1. Escarlate

    Discordo totalmente Vini! Meis dúzia de sustos?! Onde? Acho q cochilei nessas horas…
    Talvez 1 susto, e olhe lá. Na verdade durante o filme todo fiquei esperando os tais sustos e a sensação de medo pois N pessoas já tinham comentado sobre o filme e falado q ficaram sem dormir durante dias! Fiquei esperando em vão… Na verdade eu e meu marido chegamos até a bocejar e no meio do filme quase paramos de assistir de tão monótono q ficou… Mas aguentamos o sono e assistimos até o final só pra descobrir q o filme é mesmo uma m…!
    Fazer o 2 pra q? E o 3 então? Fala sério! E ainda vi uma reportagem na época do lançamento do 2º, com mó galera na fila, com cartazes do filme, fãs dos “atores”… É sério mesmo galera?
    Mas enfim, tem gosto pra tudo, graças à Deus!
    Este, não foi do meu agrado, acho q igual ao Bruxa de Blair não existirá, pois ele foi o pioneiro e só por esse fato já merece ser reconhecido. Apesar disso, achei q REC tb fez mto bem seu papel (sou um pouco suspeita pq adoro filmes de zumbis, rs).

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  2. Allan Machado

    Mas eu acho que a graça do filme está ai: na falta de pretenção!

    abs

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  3. Lucienne Condé

    Oi Vinicius, tb escrevi hoje sobre o filme. Eu sou uma fracote em relação a demonios e acho q tudo pode acontecer comigo. Adorei seu post, concordo em vários pontos. Veja o que acha do meu!! beijos http://primeiragota.blogspot.com

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