As Herdeiras | Deixando o passado para trás


Um estudo de personagem melancólico e também otimista sobre as coisas que nos prendem ao passado e as maneiras que encontramos para seguir em frente, As Herdeiras é conduzido de maneira suave e precisa. Além de suas qualidades técnicas e narrativas, a obra, mesmo deparando-se com momentos em que perde o fôlego, ainda destaca-se por ser uma história centrada quase que exclusivamente em mulheres, abordando de forma complexa os relacionamentos e conflitos entre elas.

Juntas há três décadas, Chela (Ana Brun) e Chiquita (Margarida Irun) veem-se envolvidas com uma série de dívidas após viverem uma vida confortável graças às heranças recebidas de suas famílias. Com isso, Chiquita começa a vender vários dos objetos incluídos nessas heranças, para a dor e desespero da esposa. Até que as dívidas atingem um nível crítico e, acusada de fraude pelo banco, Chiquita é presa e deixa Chela sozinha na casa das duas, o que faz com que a protagonista sinta-se não apenas solitária, mas também desorientada e ainda mais saudosista em relação ao passado tranquilo e notório das duas. De repente, Chela envolve-se com um grupo de senhoras da região e passa a atuar como motorista delas, o que a leva a conhecer – e imediatamente encantar-se – pela filha de uma delas, Angy (Ana Ivanova).

Diante dessa mulher consideravelmente mais nova, Chela encontra uma válvula de escape para as suas frustrações quanto a sua presente realidade, já que Angy enxerga-a de uma forma que ela havia esquecido há muito tempo. Ela não poderia imaginar, por exemplo, o impacto causado pelo apelido que passa a usar para a senhora – “poupée”, ou boneca, que era justamente como o pai de Chela a chamava. Isso representa perfeitamente o que Angy representa na vida da protagonista: não apenas um retorno à glória, à excitação e à beleza do que já foi, mas uma maneira de ela finalmente, finalmente reencontrar tudo isso em seu presente e em seu futuro – talvez, ao contrário do que ela imaginava, não tenha tudo acabado ou partido, como fizeram os objetos herdados pelo casal. Essa tentativa de manter tudo como ela conhece também faz, por exemplo, com que Chela demore a aceitar a nova condição financeira dela e da esposa, pedindo para que sua nova empregada, Carmela (Alicia Guerra), realize as mais mundanas das funções por ela, já que é assim que uma mulher de seu (antigo) status vive.

O diretor e roteirista paraguaio Marcelo Martinessi As Herdeiras é uma produção do Paraguai ao lado de outros países latino-americanos e europeus – conduz o longa com naturalidade e precisão, colocando-nos desde o primeiro plano ao lado de Chela ao acompanhar Chiquita apresentando itens a uma comprada em potencial pelos olhos da protagonista. Enquanto isso, a câmera inquieta e os quadros fechados, que surgem com frequência, retratam a claustrofobia que Chela sente em casa, que torna-se tanto refúgio quanto prisão. A subjetividade da obra é acentuada também, por exemplo, pela canção inquietante que toca no rádio do carro quando Chela decide aventurar-se na direção. Ana Brun é capaz de transmitir todas as emoções e anseios de sua personagem por seu olhar cuidadoso, ansioso e triste; sua comunicação com a esposa também acontece principalmente por meio de olhares e de linguagem corporal, como na primeira vez que Chela visita Chiquita depois de ela ser presa. Nesse sentido, é surpreendente descobrir que as duas são atrizes estreantes – Irun tem apenas um filme de 2010 no currículo, enquanto este é o primeiro trabalho de Brun. Ao lado delas, destacam-se Ana Ivanova, que imprime energia e ternura a Angy, e Alicia Guerra, que estabelece uma amizade e companheirismo fundamentais para que Chela tire as conclusões que acaba por tirar.

Assim, apesar de arrastar-se um pouco por seu segundo ato, As Herdeiras é uma obra louvável tanto por seus cuidadosos aspectos técnicos quanto pela maneira multifacetada com que nos apresenta a uma personagem como poucas que circulam pela telona. A obra merecidamente brilhou no Festival de Gramado 2018, de onde saiu com os principais prêmios distribuídos para produções estrangeiras: Melhor Filme, Filme do Júri Popular, Filme do Júri da Crítica, Atriz (dividido entre Brun Irun e Ivanova), Direção e Roteiro.


“Las Herederas” (Par/Uru/Bra/Ale/Nor/Fra, 2018), escrito e dirigido por Marcelo Martinessi, com Ana Brun, Margarita Irun, Ana Ivanova, Nilda Gonzalez, María Martins e Alicia Guerra.


Trailer – As Herdeiras

Outros artigos interessantes:

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *