por Wanderley Caloni
05 de abril de 2018 |

Arábia é um filme com muitos momentos marcantes. E esses momentos são marcantes principalmente por conta de seus belíssimos enquadramentos, que evocam em todos os elementos presentes em cena o significado da história que está sendo contada. E o mais impressionante é que a história contada é um épico de um homem comum, anônimo, e por que não, invisível.

E é justamente por esse homem ser invisível que sua história é achada ao acaso. E ele é tão irrelevante no começo do filme que sequer o vemos no início. O filme começa com um garoto que mora em um vilarejo onde existe uma fábrica, que faz barulhos eternos e parece soltar no ar o que deixa sua população doente, incluindo o irmão caçula desse garoto. Passamos brevemente por uma introdução do que parece ser uma história sobre eles, os dois irmãos e uma enfermeira local, mas um acidente ocorre, um dos funcionários da fábrica é hospitalizado e uma espécie de biografia é encontrada por esse mesmo garoto. E de repente o operário anônimo ganha seu próprio filme.

Os diretores Affonso Uchoa e João Dumans possuem um olhar especial sobre o trabalhador comum. E este trabalhador é real da ponta dos pés aos fios de cabelo. Sua expressão vazia não nos diz nada, mas há seu relato escrito, de maneira desajeitada que traz uma poesia peculiar. A poesia das ruas. Há um momento belíssimo em que ele está no violão tocando e cantando a letra icônica de Mano Brown, “O Homem na Estrada”:

Um homem na estrada recomeça sua vida.
Sua finalidade: a sua liberdade.
Que foi perdida, subtraída;
e quer provar a si mesmo que realmente mudou,
que se recuperou e quer viver em paz, não olhar
para trás, dizer ao crime: nunca mais!
Pois sua infância não foi
um mar de rosas, não.
Na Febem, lembranças dolorosas, então.
Sim, ganhar dinheiro, ficar rico, enfim.
Muitos morreram sim, sonhando alto assim,
me digam quem é feliz,
quem não se desespera, vendo
nascer seu filho no berço da miséria.
Um lugar onde só tinham como atração,
o bar e o candomblé pra se tomar a benção.
Esse é o palco da história que
por mim será contada.
…um homem na estrada.

Arábia Crítica

Essa letra praticamente resume a pequena história de Cristiano. Aliás, digo mais: esta é a história de Cristiano e do personagem da música do Racionais MCs, o que torna o rapaz ainda mais anônimo, pertencente ao imaginário popular e provavelmente fruto de inspiração de histórias semelhantes. A sua própria história de amor é tão comum que qualquer um de nós que estiver lendo este texto se identificará. E é nessa identificação com o comum que algo perene, eterno, parece se elevar dessa massa de comuns.

O filme de Uchoa/Dumans (escrito e dirigido) possui obviamente conotações políticas, e ele as coloca pavimentando o caminho da narrativa. Este trabalhador que escreve certo por linhas tortas sabe demais sobre a teoria do capitalismo de Marx, o que talvez seja a maior falha do longa: embutir no proletariado um conhecimento que sabemos que ele não possui na vida real. Mas, como todo roteiro que é esperto demais para seus personagens, o cinéfilo saberá desviar deste pecadilho para aproveitar o espetáculo de metáforas e analogias sobre exploração e um desejo por uma utopia paradisíaca onde todos irão deixar as fábricas e dar as mãos.

O que torna mais potente a mensagem do filme é o pleno controle que a dupla Uchoa/Dumans tem sobre o “mise en scene”. Até quando vemos uma cena na estrada no escuro, algo pitoresco e cotidiano, o farol do veículo que se aproxima casualmente ilumina o quilômetro onde estamos. E quando vemos caixas empilhadas de bebidas, elas estão empoeiradas e envelhecidas de maneira legítima, assim como são legítimas as mexericas que Cristiano colhe do pomar; algumas verdes, outras maduras; a maioria torta em uma má época para essa fruta.

Os diretores estão cientes de que este é um épico. Provavelmente atemporal. Portanto, a câmera é colocada nos lugares certeiros para imortalizar uma parte da história. O filme está tão apaixonado nos belíssimos momentos que capta que corre o risco de se esquecer de seu protagonista, o que é mais um sinal de que, apesar desta ser uma ode ao trabalhador comum, ele é apenas um símbolo. Não sabemos quando o filme começa se Cristiano irá sobreviver no hospital, mas sabemos que se morrer terá sido por uma boa causa (o que não deixa de ser irônico, pois obviamente o sujeito foi afetado pelo ar envenenado que respirou por muito tempo na fábrica).

O roteiro é de uma coesão que vai do começo ao fim em um pulo. O elenco está tão absorvido por esta história que os longos momentos onde os observamos ficamos em dúvida se estamos na vida real ou em uma representação artística. A única falha é que o filme é esperto demais para existir na vida real. É o preço que se paga pela fantasia de poder resumir toda uma ideologia em um arco de historietas do trabalhador comum, o mesmo trabalhador sempre, que se sacrifica por um paraíso que descobre no final da vida que nunca existiu.


“Arábia” (Bra, 2017), escrito e dirigido por João Dumans, Affonso Uchoa, com Aristides de Sousa, Murilo Caliari, Gláucia Vandeveld


Trailer – Arábia

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