Apóstolo | #007 | 666 Filmes de Terror


É curioso como os serviços de streaming dão uma sobrevida diferente para certos filmes, talvez Apóstolo um dia chegue a ser um desses exemplos. Por mais que não tenha sido lançado com qualquer alarde, tem suas qualidades dentro do gênero e irá agradar grande parte dos fãs.

Infelizmente, isso vem ainda grudado a uma série de tropeços e equívocos que parecem ser cada vez mais comuns nas produções assinadas pela Netflix. Talvez com o intuito de agradar um público mais amplo ou, simplesmente, por deixar as rédeas artísticas soltas demais. E aqui não me refiro à censura, mas simplesmente a uma visão mais “especializada” para apontar esses erros para o diretor antes dele finalizar o filme.

Gareth Evans não é propriamente um iniciante no cinema, pelo contrário, já até conseguiu imprimir seu estilo através do frenético Operação Invasão, filme de ação indonésio no qual ele colocou seus nomes sob os holofotes e ajudou o ator/lutador Iko Uwais a se tornar uma das caras desse novo cinema de pancadaria moderno. De qualquer jeito, Evans ainda participou do explícito V/H/S, um terror de “found footage” que abusava do medo clássico.

Esse “medo clássico” é visual, nojento, com criaturas demoníacas saídas de algum pesadelo e que corta na carne seus personagens com closes e muito gore. Apóstolo segue esse rumo enquanto conversa um pouco com aquele cenário clássico de uma vila no interior dominada por uma seita. Nesse caso, uma ilha, Erisden, onde Thomas Richardson (Dan Stevens) precisa se infiltrar para resgatar a irmão sequestrada por essa seita esquisita.

O tal lugar é comandando pelo Profeta Malcolm (Michael Sheen) e seus dois “braços direitos”, Frank (Paul Higgins) e Quinn (Mark Lewis Jones). O problema é que, aos pousos, Thomas vai começando a descobrir que, entre fanáticos religiosos, mistérios na madrugada, uma senhora meio macabra se esgueirando pelos cantos e uma doação de sangue “pra lá” de sinistra, o que fica é uma sensação de que algo sobrenatural está comandando aquela ilha.

Durante todo o tempo, Apóstolo fica então entre esse mundo onde sagrado e profano parecem se esgueirar como trepadeiras nessa vila e em seus moradores. Evans, que também escreve o roteiro, não economiza nenhum clichê visual ou narrativo para construir essa história, mas isso logo cansa quando você deixa de entender alguns detalhes que se soltam demais da linha central.

Existe, por exemplo, um arco envolvendo o irmão do protagonista que é simplesmente esquecido e não volta nem para atazanar ele em algum pesadelo ou subterfúgio do tipo. Assim como um aparente vício em drogas dele, que conveniente deixa de ser um detalhe quando ele decide larga-lo. Na maioria do tempo, isso não atrapalha, mas deixa aquela sensação de tempo desperdiçado, já que o filme tem mais de duas horas e isso não dá a impressão de ter a mínima razão de existir.

Por outro lado, o que salva o filme é, justamente, Evans e sua qualidade técnica e artística por trás da câmera. Seus planos são lindos quando é necessário, aterradores quando precisam impressionar e assustadores quando o assunto é terror. Um diretor que não desvia o olhar o gore e nem coloca seus “monstros” escondidos pelos cantos escuros.

Evans é um diretor claro e que faz de Apóstolo um filme de terror diferenciado, já que tem momentos de pura beleza e violência, como em um flashback do protagonista, assim como mergulha junto dele em um poço nojento de sangue e restos de animais enquanto ele é perseguido por essa senhora que aos poucos vai se mostrando um ser que, ao mesmo tempo remete a morte e esperança.

Essa dualidade é própria desse sub gênero do terror onde o protagonista é “absorvido” por uma seita, ainda mais em um cenário como com o comecinho do século XX, sujo, empoeirado, velho e meio esquecido pelo seu próprio tempo. Nada parece ser simplesmente certo ou errado se olhado com profundidade, assim como aquilo que representa a maldade pode se tornar um aliado ou vítima.

E por mais que essa complexidade precise de estopo através da relação dos personagens, Apóstolo perde força, justamente, ao se afastar de Richardson e começar a explicar um pouco demais tudo que está acontecendo. Falta talvez um pouco de delírio e loucura para que essa história, de um terror bem clássico, ganhasse credibilidade. No final das contas, todo mundo lida muito fácil com questões que iriam chacoalhar a sanidade de muita gente.

Talvez, essa vontade de fazer com que um público maior abrace o filme, tenha obrigado Evans a, justamente, se distanciar de quem gostaria muito mais de entrar em uma experiência sensorial aterrorizante, do que acompanhar uma história meio comum, com pitadas de terror e um visual bacana.

Confira os filmes da coluna 666 Filmes de Terror


“Apostle” (UK, EUA), escrito e dirigido por Gareth Evans, com Dan Stevens, Paul Higgins, Bill Milner, Mark Lewis Jones, Lucy Boynton, Kristine Froseth, Sharon Morgan e Michael Sheen


Trailer do Filme – Apóstolo

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