por Wanderley Caloni
06 de dezembro de 2017

A sensação de Apenas um Garoto em Nova York é parecida com tantos outros. Uma mistura de drama social com romance misterioso. Tudo isso, ainda com uma femme fatale mais realista, uma  família problemática e relações de poder que são fachadas sociais… e no topo de tudo isso, um garoto tentando fazer a coisa certa. Quer dizer, pelo menos enquanto ele acredita existir a coisa certa. Ah, e o seu narrador, que o conhece tão profundamente que “seu” garoto parece ser o personagem para o qual seu livro foi criado.

E tudo é narrado como um livro. Os acontecimentos são pincelados com uma trilha sonora que mistura o drama dos pseudo-apreciadores de arte com o imediatismo dos acontecimentos. Esta história pede violinos, batidas rítmicas e de vez em quando Bob Dylan. Tudo se ajusta à iluminação sóbria dos mais ricos e seus problemas de primeiro mundo.

E o problema do garoto que pertence aos 1% é não saber o que fazer com sua vida. Não é um problema incomum para um adolescente se descobrindo adulto. Ele se acha podado pelo pai e sente-se responsável pela mãe, que sofre de complexo bipolar e depressão. Possui um quase-relacionamento com uma garota que tem namorado. Quando descobre que seu pai está saindo com uma jovem estonteante, sua tendência inicial é tentar fazer aquela família voltar a ser o que talvez tenha sido um dia, mas ele falha justamente por conta de nosso narrador.

A despeito de nosso narrador ter feito uma descrição acurada no começo sobre como a cidade que respirava arte nos anos 70 foi perdendo sua alma aos poucos, isso transforma seu garoto em um clichê. E Nova Iorque não tem nada mais clichê que seus personagens do cinema virarem comparativos de um roteiro de Woody Allen.

Uma trama que irá se desdobrar por um caminho que não é novo de uma forma ligeiramente diferente. E metalinguística, o que nunca deixa de ser interessante. Porém, para embarcar em Apenas Um Garoto em Nova York cabe ao espectador dar uma olhada melhor em seus personagens, e nessas atuações.

Pegue Pierce Brosnan como exemplo inicial. Ele fez sua carreira compondo personagens canastrões. Seu perfil limitado e talento idem o tornou um dos piores James Bond da história, mas também serviu para que usássemos sua persona quando este envelhecesse. E hoje ele é especializado em posições de respeito a despeito de não parecer ter talento algum. E logo surgem filmes como Mamma Mia!, O Escritor Fantasma, Invasão de Privacidade e quase o faria O Jantar, caso Richard Gere não fosse mais talentoso e não estivesse disponível. Seu Ethan Webb, pai do garoto, é um fracassado bilionário. Ele pega seu status e usa como a única ferramenta que tem. E por algum motivo isso o torna uma criatura digna de pena.

Já a de fato estonteante Kate Beckinsale e sua Johanna (“ah, as visões de Johanna!”, como diria nosso narrador) é seu exato oposto. Sempre parecendo manter as coisas sob controle mesmo quando elas não estão, ela é humana, e bela, mas mais inteligente ainda. E seu único ponto fraco está na imaginação cativante, embora ainda oculta, de um simples garoto, filho de seu amante.

Apenas um Garoto em Nova York Crítica

Kiersey Clemons e Jeff Bridges são coadjuvantes iniciais, e quando ambos possuem mais ou menos o mesmo tempo de tela a pseudo-namoradinha do garoto e seu vizinho misterioso parecem estar no mesmo nível de relevância… mas não estão, Bridges logo na primeira fala já deixa claro, mesmo sendo o caos em pessoa, que não está jogado ali ao acaso. Sua dicção e seus trejeitos o tornam parte integrante do cenário, de seu apartamento sem móveis e como o conselheiro ideal daquele garoto. Clemons, apesar do rosto bonitinho, é sim, a coadjuvante que consegue se colocar no lugar sempre (que é de lado).

E, por fim, o garoto, Thomas Webb (em uma brincadeira igualmente metalinguística com o diretor, Marc Webb), é interpretado por Callum Turner de uma maneira convincente até demais. O garoto faz o papel de ingênuo, mas sabemos que está blefando pelos seus micro-movimentos de rosto, de olhos, de mãos e de cabeça. Quando a estonteante Beckinsale o olha bem nos olhos e começa a lê-lo com a simplicidade que seu narrador nunca teria, ela ganha um pouco de poder. E entrega para ele, que usa mais tarde. Esse jogo de poder não era bem o que pareceria existir em um drama familiar como esse, mas são esses detalhes imprevisíveis que tornam Apenas um Garoto… um trabalho tão fascinante.

Igualmente fascinante, ou curioso, é o status de seus criadores, que brinca também com metalinguagem. Marc Webb, vindo dos curtas e da televisão, ganha fama com (500) Dias com Ela, volta para a televisão e é escolhido para o segundo reboot do Homem-Aranha. Este é seu terceiro drama, se contarmos O Espetacular Homem-Aranha 2: A Ameaça de Electro e Um Laço de Amor como os dois primeiros, e nesse Webb parece se sentir em uma versão pobre de Adaptação, escrito por Charlie Kaufman e que explora sua própria persona.

Já o roteirista, Allan Loeb, foi se especializando em drama aos poucos. Vindo da comédia (exceção: Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme), seu timing dramático se alia ao status cômico de seus momentos, que parecem nunca se definir exatamente. Seu humor aqui é ocasional, sutil, e serve apenas para tornar seus personagens mais reais. Todos buscam serem melhores versões de si mesmos. E todos falham. O “todos falham” é o drama, o “todos buscam” é o romance, e no meio existe o tal do meio-termo: quando cedo ou tarde todos entendem que viviam fora da realidade.

E a maior distância do mundo é a que existe entre a realidade que achamos que vivemos e a realidade de fato. E quem disse isso não foi nenhum desses neuróticos personagens. Adivinhar quem é se torna um passatempo divertido se você for ver o filme.


“The Only Living Boy in New York” (EUA, 2017), escrito por Allan Loeb, dirigido por Marc Webb, com Callum Turner, Jeff Bridges, Kate Beckinsale, Pierce Brosnan, Cynthia Nixon


Trailer – Apenas um Garoto em Nova York

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