Um corredor encontra-se mergulhado em uma escuridão total. O breu é interrompido apenas por uma imagem distorcida refletida sobre uma porta vermelha, único meio de entrar ou sair da casa em que nos encontramos. Esse é um dos planos mais assustadores de Ao Cair da Noite, um filme de terror atípico que, no lugar de jump scares e sangue, desenha um cenário pós-apocalíptico através de uma atmosfera sufocante e de uma tensão agonizante advindos do encontro de duas famílias.

O casal Paul (Joel Edgerton) e Sarah (Carmen Ejogo) e o filho adolescente dos dois, Travis (Kelvin Harrison Jr.), desenvolveram uma série de regras para seu cotidiano. Eles não saem de casa sem que o sol esteja no céu e, mesmo assim, apenas em duplas e quase sempre com máscaras de gás. O lar isolado da família é completamente vedado, com exceção da já mencionada porta vermelha. Tudo isso para protegê-los daquilo que aparentemente dizimou grande parte da humanidade e que surge como uma ameaça invisível todas as noites.

É isso o que Paul, Sarah e Travis sabem sobre o mundo pós-apocalíptico em que vivem agora e, portanto, é isso o que nós, espectadores, sabemos. O responsável é um gás venenoso, uma bactéria mortal, uma arma biológica? Por que o perigo é apenas noturno? Quando essa situação toda começou? São perguntas cujas respostas estamos acostumados a receber, mas que, aqui, pouco importam. O diretor e roteirista Trey Edward Shults está interessado na (aparente) calmaria após a tempestade; na rotina desesperada construída sob as ruínas do mundo que conhecíamos até então.

Até que uma segunda família, formada pelos jovens Will (Christopher Abbott) e Kim (Riley Keough) e pelo filho pequeno do casal, Andrew (Griffin Robert Faulkner), entra em cena. Eles estão em busca de abrigo, comida e água. Paul deve decidir se prioriza a segurança de sua família e o relativo conforto da rotina que os três instituíram, ou se acolhe aqueles estranhos e volta a ter algum contato com outras pessoas, diminuindo um pouco seu isolamento. Um dilema bastante comum no fim do mundo, mas que Shults desenvolve com muito cuidado.

Investindo em planos longos em que a câmera se move pacientemente ou mantém-se imóvel no ponto certo (talento que Shults já havia demonstrado em seu longa de estreia, Krisha, mesmo que ali tenhamos um ritmo mais acelerado), o cineasta dedica-se a estabelecer a casa da família como o palco principal de Ao Cair da Noite, repleta de cantos escuros, corredores e esconderijos. A montagem, feita pelo próprio diretor ao lado de Matthew Hannam, acentua essas qualidades, tornando a narrativa fluida e intimista através, por exemplo, de um belíssimo corte entre um monte de terra e a casa. Aproveitando ao máximo a escassez de luz natural do ambiente, o diretor de fotografia Drew Daniels usa a escuridão como moldura, criando planos ora sufocantes, ora melancólicos que capturam a condição daquelas pessoas.

Ao Cari da Noite Crítica

Pois é isso o que interessa ao filme: como esses personagens lidam com as situações que se tornaram cotidianas após o colapso da sociedade, como fazem para sobreviver diante da ameaça que os cerca, como mantêm as relações uns com os outros e como reestruturam tudo isso diante de um encontro inesperado com outras pessoas. Além disso, através de Travis, Shults também fala sobre amadurecimento, solidão e esperança e como isso tudo se acentua quando o mundo do jovem é ampliado pelo menos um pouco para além de sua própria família.

Tudo isso sem deixar de ser um filme de terror. Apesar de suas peculiaridades, Ao Cair da Noite jamais se coloca acima do gênero, muito pelo contrário — é um demonstrativo de tudo o que pode ser feito dentro dele. Assim, a trilha sonora perturbadora de Brian McOmber embala respirações ofegantes, olhares desconfiados, o ranger do piso, os latidos aparentemente sem sentido do cachorro da família e um grito desesperado na floresta. A porta vermelha se estabelece como um marco de dias mais simples, onde o ar fresco e o verde dos arredores podiam ser aproveitados sem preocupações, mas também como aquilo que os aprisiona ali dentro. Enquanto isso, os pesadelos que perturbam Travis imprimem certa urgência à trama, enquanto simbolizam também o estado psicológico do garoto.

Infelizmente, assim como aconteceu recentemente com A Bruxa, Ao Cair da Noite provavelmente será mal recebido pela parcela do grande público que se aventurar a assisti-lo e que, esperando uma obra genérica de horror, sairão decepcionados pela falta de sustos e gore baratos ou de uma mitologia entregue no colo do espectador. Mas, para os cinéfilos realmente interessados no gênero e à procura de filmes marcantes, seguros e originais, Trey Edward Shults certamente já provou que merece nossa atenção.


“It Comes At Night” (EUA, 2017), escrito e dirigido por Trey Edward Shults, com Joel Edgerton, Kelvin Harrison Jr., Carmen Ejogo, Christopher Abbott, Riley Keough e David Pendleton.


Trailer – Ao Cair da Noite

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