António Um Dois Três | O fracasso é apenas uma das maneiras de chegar onde quer


António Um, Dois, Três é um filme simpático de se ver. Você vai acompanhando a historinha e quando menos espera está assistindo a mais um filme sobre criação artística.

E são tantos outros que já existem, mais adultos ou profundos que esse, que António… acaba virando uma brisa nova sobre o tema, vinda “de além mar”, unindo nacionalidades e experiências diversas (russo e brasileiro, pra ser exato).

Seu começo é padrão, quase clichê: um pai tendo uma conversa séria com um filho irresponsável que largou os estudos há mais de um ano. O filho foge e a forma desengonçada com que ele faz isso será explorado mais além, na criação de uma peça de teatro. É quando os detalhes começam a convergir é que a história começa a ficar interessante.

Com personagens essencialmente jovens e portanto, como observado no próprio filme, “sem um tostão no bolso”, este é um trabalho que fala sobre a arte e a vida para um público que ainda não viveu suficiente, o que é uma maneira de dizer que eles também não possuem um tostão criativo no bolso. Acabam citando Dostoyevsky. Para os mais velhos é uma experiência nostálgica, de quando o peso da vida era mais leve e a única preocupação era conseguir uns trocados para um café.

Para uma proposta tão despojada a solução é explorar os escassos elementos da história várias vezes: as relações pai e filho da vida, a viúva esquecida, a estrangeira de passagem. Para quem começa a ficar confuso no meio do filme, essa é uma tradução dos poucos momentos vividos de seu protagonista, os próprios e dos amigos, para a arte, que sempre parece soar menor que a realidade.

E se percebermos, o filme desde o começo tem um tom amador de propósito. É só lembrarmos da fuga toda atrapalhada do filho do pai severo. Mas agora sabemos o motivo: ele foge do pai como o filme foge da responsabilidade de falar alguma coisa. E a própria fuga é parte de um plano amoroso. Cá entre nós, é uma ideia fraca. Mal dá para fazer um filme.

Porém, a diversão é ir desvendando o criativo quebra-cabeças desenvolvido por Leonardo Mouramateus, diretor e roteirista, que usa um filme de aspecto todo quadrado, ocupando metade da tela do cinema e com seus atores ocupando todo esse espaço fílmico, tão próximos da câmera que não conseguirmos descobrir como é o lugar onde estão, o que não importa, pois isso se torna uma rima quando assistimos à uma peça dentro do filme em que vemos apenas os atores. Esta poderia ser uma peça de teatro se Mouramateus não quisesse que olhássemos para os personagens nos momentos certos, e nos fizesse perder o chão, o cenário, todo o resto.

Isso também reflete no eterno ensaio e criação da peça do filme antes da estreia. A rima aqui é sobre os jovens em seu eterno preparo para começar a vida adulta. E não é nenhuma surpresa que em ambos vão fracassar. O fracasso é uma coisa boa nessa história, pois faz parte do amadurecimento. Sem dinheiro, mas com tempo sobrando, a juventude explora seus horizontes como pode, e o fracasso é apenas uma das maneiras. Talvez seja a única maneira. E por isso que António pode continuar tentando. Uma, duas, três vezes.


“António Um Dois Três” (Bra/Por, 2017), escrito e dirigido por Leonardo Mouramateus, com Mauro Soares, Deborah Viegas, Daniel Pizamiglio.

Trailer – António Um Dois Três

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