por Wanderley Caloni
11 de abril de 2018 |

Antes que Tudo Desapareça encontra o pior do trash dos anos 70 e mistura com algumas referências nada amistosas do Cinema mundial. No entanto, tenho um problema em odiar este filme.

Mesmo sendo um pedaço imprestável de história, esses malditos japoneses conseguem tornar tudo mais palatável. É um povo tão educado, que até seus piores filmes não inspiram o que há de pior no ser humano. Sendo assim, eu nunca diria diretamente ao diretor Kiyoshi Kurosawa “mas que lixo de filme, hein?”. No lugar, faria uma reverência respeitosa e agradeceria pelo espetáculo. Talvez até decorasse algumas falas em japonês e as recitaria, se ainda me lembrasse após as duas horas e nove minutos da projeção.

Dito isto: mas que lixo de filme!

Como se tentasse recomeçar sua história durante todo o tempo e nunca tivesse sucesso. Uma hora são alienígenas que tomaram o corpo de humanos. Outra hora os humanos que hospedam os alienígenas também estão ali dentro, mas não possuem o controle de seus corpos. Em um momento se trata de um vírus que ataca seu hospedeiro com delírios sobre a real natureza de seus atos. No momento imediatamente após este, são alienígenas mesmo e faz sentido o exército estar a postos para… para o quê, mesmo? Não importa, já que aparentemente o Ministério da Saúde sai em um furgão preto matando pessoas. Realmente são tempos estranhos…

Os alienígenas estão aqui para sugar os conceitos da raça humana. O que são conceitos? Basicamente são a essência do que nossas palavras significam para nós, algo que pode ser mentalizado para que esses sugadores de ideias se apropriem delas, deixando a mente da vítima agora sem esse significado. Quem explica isso é um alienígena no filme. E como ele sabe o que é um conceito, sendo este também um conceito? Não sei, e as pessoas que interagiram com ele acharam indelicado perguntar, talvez. Esses japoneses e suas interações cerimoniosas!

O melhor exemplo de como os japoneses são cerimoniosos é que os alienígenas praticamente não precisam usar a força contra os humanos para arrancar esses conceitos da mente deles. Mesmo no meio de uma luta, o alienígena pergunta para um policial: “o que significa a expressão ‘eu mesmo’?”. E o policial, muito respeitoso, para de lutar e se concentra para dar a melhor resposta. Isso pelo menos explica por que os aliens escolheram o Japão para atacar.

Antes que Tudo Desapareça Crítica

Temos aqui três desses alienígenas, onde dois se apropriam do corpo de jovens e o terceiro é o marido de um casamento em falência. Os aliens precisam de guias humanos para ajudá-los, o que explica porque eles vão estar sempre na companhia de alguém para fazer o seu showzinho e ir explicando os detalhes da invasão que pretendem realizar no planeta depois que conseguirem pegar todos os conceitos que precisam. Um jornalista se mete no meio deles e vira o guia dos dois jovens para conseguir fazer a cobertura do fim do mundo em primeira mão. “Esses humanos são fantásticos”, exclama o alien no corpo do jovem; engraçado que o mesmo alien alguns minutos antes tinha comentado que “os humanos são uma das espécies mais comuns no universo”. Ué…

A parte divertida do filme fica por conta de observar como sua história vai mudando conforme o tempo, incluindo seus personagens, e como o amadorismo de Kurosawa (e que paradoxo este sobrenome nesta expressão!) consegue reduzir ao trash até as tomadas mais simples. Tome, por exemplo, o casal conversando enquanto anda pela praça. O momento não exige tensão, então a câmera só precisa realizar um travelling normal, sem trepidações. Só que a calçada não é lisa, mas daquelas cheia de detalhes que tornam o caminho tortuoso. Eu nem estava prestando atenção no chão, mas como a câmera me avisou, percebi. Também percebi que havia uma câmera os filmando, me arremessando imediatamente para fora do filme.

Outro momento adorável é quando surge um avião sobrevoando uma área e começa a perseguir um personagem no solo. Munido de bombas, o avião eventualmente acerta uma bem perto dele, e em seguida o vemos estirado no chão. Note como há três pequenas pedras pegando fogo simetricamente posicionadas em torno do corpo no chão. Essa cena demora tempo o suficiente para você medir o ângulo entre as pedras e concluir que elas estão de fato enfeitando o cenário. E estão na melhor posição possível para o quadro. Muito bem feito!

Um filme que mostra que qualquer pessoa pode chamar a atenção subindo em um banquinho e falando um pouco mais alto. Também é um filme onde balas são invisíveis e não furam nem o corpo nem a roupa das pessoas, mas as tingem de vermelho e fazem elas andarem como se estivessem bêbadas.

E no final (bem no finalzinho mesmo!), vai ficando claro que esta é uma mensagem genérica sobre como a humanidade está perdida atualmente de um jeito que não cabe nem tentar explicar, e só uma invasão para enxergarmos que precisamos mudar a nós mesmos. Aliado a isso teremos o velho clichê do amor. Sim, ele novamente. Mas aqui ele é adorável porque é feito por japoneses. E não é fofinho o jeito que casais japoneses demonstram afeição? Eles sequer se beijam; se abraçam. É que há câmeras filmando (olha elas de novo aí) e é feio se beijar em público.

Antes que Tudo Desapareça pode ser um longo espetáculo sobre como o trash sci-fi no Japão pode ser minimamente divertido. Ele também pode ser uma aula sobre Cinema. Todos os erros crassos de roteiro estão ali, mas muito bem pontuados. E, por fim, é uma aula sobre como fazer um filme-catástrofe sem apelar para efeitos digitais de quinta categoria. Basta apresentar um conceito (ou dois) que descarta a necessidade de naves penduradas com fios, para não correr o risco de virar um “Plano 9 do Espaço Sideral Oriental”. Mas cuidado com seus conceitos: pode haver um alien por perto tentando roubá-lo.


“Sanpo suru shinryakusha” (Japão, 2017), escrito por Kiyoshi Kurosawa e Sachiko Tanaka, baseados na peça de Tomohiro Maekawa, dirigido por Kiyoshi Kurosawa, com Masami Nagasawa, Ryûhei Matsuda, Hiroki Hasegawa.


Trailer – Antes que Tudo Desapareça

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