Antes da Meia-Noite


Baby, you are gonna miss that plane. Se demorou nove anos para que Celine (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke) se reencontrassem entre Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, quem passou esse período de tempo fora, agora, fomos nós, espectadores. Após acompanhar 18 anos da história desses personagens, Antes da Meia-Noite encerra com excelência sua história.

Como Richard Linklater ilustra através de um movimento de câmera, o reencontro dos dois em Paris resultou no divórcio de Jesse com sua então esposa, com quem tem um filho. Celine e Jesse são, agora, um casal com quase uma década de convivência e pais de pequenas gêmeas. Passando as férias de verão na Grécia, os dois lidam, além dos problemas do dia a dia, com o fato de Jesse se sentir culpado por estar ausente da vida do filho.

A inclusão de outros casais em cena, além de oferecer um contraponto à relação do casal que conhecemos a tanto tempo e nos mostrar outros tipos de relacionamento e como cada um lida com o amor e o comprometimento, é também uma solução eficiente para a inserção de diálogos expositivos, como quando um dos personagens pergunta a Jesse sobre o que aconteceu depois que ele voltou com Celine para o apartamento dela em Paris. Estar ao redor de tantos casais também é, naturalmente, ponto de partida para que Celine e Jesse comecem a questionar o próprio casamento – evitando, por exemplo, que momentos como quando Celine pergunta ao marido se, caso eles se conhecessem em um trem naquele momento, ele ainda tentaria fazer ela descer com ele, soem forçados.

Mas não deixa de ser um certo alívio quando Celine e Jesse se separam de seus amigos e que cerca de uma hora do longa nos mostre os dois conversando sozinhos, e os diálogos são tão fascinantes quanto nas duas obras anteriores. Escrito por Linklater ao lado de seus protagonistas, o roteiro mostra um conhecimento profundo daqueles personagens, de suas trajetórias e de suas personalidades, fazendo com que o espectador em momento algum duvide de que Celine e Jesse são as mesmas pessoas que conhecemos em Viena há 18 anos. E a naturalidade das impecáveis performances de Delpy e Hawke só acrescentam a isso.

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Nesse sentido, é fascinante perceber como Celine e Jesse são especialistas um no outro, prevendo suas ações ou reações diante de um acontecimento ou comentário. Isso, claro, apenas torna suas discussões mais cruéis, pois sabem suas fraquezas e o que os abalará mais. Mas isso faz parte do cotidiano de qualquer casal, pois os dois se amam, e muito: mesmo depois de anos, são capazes de conversar por horas (mesmo que as chances de a conversa virar briga sejam altas), estão constantemente se tocando e ainda encontram novas histórias para dividir um com o outro.

Assim, quando Jesse encontra-se sozinho após uma discussão e a câmera nos mostra todos os sinais da ausência de Celine (o chá não tomado, o vinho não dividido, a cama vazia), Antes da Meia-Noite faz uma belíssima rima com o final de Amanhecer, que mostra por onde o casal passou, e a abertura de Pôr-do-Sol, que apresenta os lugares pelos quais eles andarão. Afinal, se o cotidiano e as discussões chegam para qualquer casal e o conto de fadas não dura, e não pode durar, para sempre, Celine e Jesse, um dos mais marcantes casais do cinema, não tem escolha a não ser lidar com isso.


Before Midnight, escrito por Richard Linklater, Julie Delpy e Ethan Hawke, dirigido por Richard Linklater, com Julie Delpy, Ethan Hawke, Seamus Davey-Fitzpatrick, Jennifer Prior, Charlotte Prior, Yannis Papadoulos, Panos Koronis, Walter Lassaly e Xenia Kalogeropoulou.


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