A existência de Annabelle passa por uma das piores facetas da Hollywood atual: a falta de criatividade. Não que isso acabe com o spin-off de Invocação do Mal antes mesmo de tentar começar a analisá-lo, mais sim o contrário, já que algo tão apressado teria tudo para ser um desastre, e o resultado acaba sendo algo bem longe disso.

É lógico também que quem entrar no cinema não vai encontrar nada tão empolgante assim, na verdade até menos interessante que os poucos momentos que a boneca teve no filme original, mas ainda assim irá satisfazer quem for ao cinema em busca daquilo que o filme (obviamente) promete entregar: muitos sustos altos e uma história rasteira, o resto fica por conta do visual sinistro da boneca.

Como é de esperar a história conta o que aconteceu com aquela bonequinha feia e suja antes de se tornar o epílogo da dupla de investigadores sobrenaturais de Invocação do Mal. Agora, um jovem casal acaba sendo atacado por dois maníacos de uma seita satânica e diante a eminente morte um deles (na verdade a filha de um vizinho, chamada Annabelle), ela acaba conseguindo “transferir” sua alma para dentro da boneca, que nesse momento ainda era limpinha. Ainda que igualmente feia.

O resto do roteiro de Gary Daulberman, que só não é um estreante por que já foi responsável pelos textos dos “clássicos” do terror B, Swamp Devil e Blood Monkey, segue exatamente a pouca inspiração que seu currículo poderia propor. Família é atazanada pela boneca, pelo espírito e mais adiante pelo próprio capiroto em pessoa (ou pelo menos por alguém de sua família). Maquinas de costurar ligam sozinhas, pipoca estouram no fogão sem ninguém por perto, portas fecham e assim por diante.

É lógico que em certo momento é fácil pensar “por que raios uma satanista se transforma em um boneca e fica lá apagando e acendendo as luzes?”, mas logo isso toma um rumo levemente mais interessante e o filme ganha (também levemente) um caminho que faz mais sentido. Pelo menos um que chega a uma conclusão minimamente empolgante, por mais que daquelas que não surpreendem ninguém. Mas seria ingenuo da parte de qualquer um achar que o objetivo do filme fosse entregar algo mais profundo que isso.

Assim como seria uma tolice achar que o diretor John R. Leonetti, que vem de direção de fotografia no próprio Invocação do Mal e dos dois Sobrenaturais (ambos dirigidos por James Wan), pudesse fazer algo melhor que resolve fazer. Apostando naquilo que funciona sem muito esforço, Loenetti, “guarda” sempre metade de suas composições para uma figura surgir ao fundo, um vulto cruzar um corredor ou uma porta entreaberta. É lógico que isso cria um filme que espreme seus personagens sempre em um canto da tela, o que na maioria do tempo funciona, mas também antrega bem (com um bom “timming”) aquilo que todo mundo quer: os sustos.

Annabelle Filme

Annabelle é então uma fábrica genuína de sustos, e quando não o faz do jeito comum, acerta até quando aproveita o clima do “susto provável”, como quando se coloca dentro do elevador com a protagonista. E isso ainda dá espaço para um dos sustos mais bacanas dos últimos tempos, curiosamente tratado bem no meio da tela e com um truque mecânico prá lá de simples (um momento envolvendo um criança correndo e uma porta fechando).

E por mais que você (se for um pouco mais velho) já tenha visto um boneco “tomado” por um assassino na série de filmes estrelados por Chucky, não se preocupe que as semelhanças acabam aqui. Annabelle aposta muito mais no sobrenatural e no clima do que em qualquer tipo de gore e imagem mais chocante. Muitos sobressaltos em lugares escuros e nada muito mais do que isso, e o resto que se vire para funcionar dentro desse objetivo.

É conveniente então que o pai se torne uma pessoa ausente em razão de seus “turnos da noite” no hospital, assim como a existência de uma vizinha (Alfre Woodard, talvez única cara menos desconhecida do elenco) que parece manjar bastante de ocultismo (e ter uma livraria com uma sessão sobre “mães perseguidas por demônios”). Assim como é cômodo que todas essas peças se encaixem perfeitamente e a mãe não se importe de deixar o filho bebê sozinho enquanto vai buscar algo no porão do prédio. Mas isso tudo talvez seja necessário para que o filme funcione dentro de suas limitações, afinal, não é por que Annabelle merece elogios que não seja um representante real do quanto Hollywood está mais interessada em acumular dinheiro diante de um filme que já fez sucesso, do que apostar em algo minimamente novo.

Annabelle então não é novo e talvez, infelizmente, seu público alvo nem se importe muito com isso, já que o filme (como eu disse) tem um monte de sustos.


“Annabelle” (EUA, 2014), escrito por Gary Dauberman, dirigido por John R. Leonetti, com Ward Horton, Annabell Wallis, Tony Amendola, Alfre Woodard e Eric Ladin


Trailer do Filme “Annabelle”

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