Já estabelecidos como clássicos modernos do terror, “Invocação do Mal” e sua sequência demonstram o melhor de James Wan — que, por meio de uma direção precisa, cuidados técnicos e estéticos primorosos, personagens complexos e elenco competente, consegue criar horror a partir de uma atmosfera constante e que causa arrepios muito além dos sustos ocasionais. Visando um universo coeso para suas histórias, não foi surpresa que a boneca que conhecemos no primeiro longa ganhasse seu próprio filme, um esforço fraco mesmo que com alguns (poucos) bons momentos. A boa notícia é que, mesmo que ainda bastante irregular, Annabelle 2: A Criação do Mal se aproxima um pouco mais da proposta de Wan.

Como o título indica, esta é uma prequel ambientada antes dos eventos de Annabelle e, aqui, presenciamos o nascimento da boneca que consegue aterrorizar mesmo quando não está possuída por algum demônio. O responsável pelo brinquedo é Samuel Millins (Anthony LaPaglia), que vive em uma casa isolada com sua esposa, Esther (Miranda Otto), e a filha do casal, a pequena Bee (Samara Lee). Porém, assim que Annabelle é concluída, a garotinha morre em um acidente de carro. Doze anos depois, ainda desestabilizados, o casal recebe em seu lar a Irmã Charlotte (Stephanie Sigman) e as seis jovens órfãs de quem ela cuida: Janice (Talitha Bateman), Linda (Lulu Wilson), Carol (Grace Fulton), Nancy (Philippa Coulthard), Kate (Tayler Buck) e Tierney (Lou Lou Safran).

Não demora muito para que a casa comece a dar sinais de que há algo de maligno por ali: portas que abrem (ou fecham) sozinhas, barulhos sinistros e, principalmente, uma certa boneca que insiste em aparecer em diversos lugares. Seguindo a deixa de James Wan, o diretor David F. Sandberg (respondável pelo ótimo curta-metragem Lights Out e também por sua fraca versão longa, Quando as Luzes se Apagam) passa um bom tempo estabelecendo a casa enquanto cenário, algo em que ele se sai relativamente bem — especialmente no plano-sequência em que as garotas percorrem o imóvel pela primeira vez, herança direta de planos similares em Invocação do Mal. Além disso, Sandberg logo nos apresenta a suas “armas de Chekhov”, aqueles objetos ou elementos da casa que, mais tarde, serão utilizados diretamente na história. O design de produção de Jennifer Spence, por sua vez, é inteligente ao estabelecer a falta de conservação da casa em relação àquela que conhecemos na abertura, antes da tragédia.

Já a fotografia de Maxime Alexander é eficiente em sua maior parte, investindo em elementos tradicionais do gênero — como a presença constante de sombras e o uso de uma escuridão quase completa — para esconder elementos e, assim, gerar suspense. Por outro lado, os sustos aqui são bem menos satisfatórios, já que a trilha sonora de Benjamin Wallfisch faz questão de anunciar cada um deles — problema que também acometia Annabelle, mas não Invocação do Mal.

Outro elemento que enfraquece  Annabelle 2: A Criação do Mal é o desenvolvimento raso dos personagens. Enquanto James Wan se beneficia de um elenco talentoso e de roteiros que se preocupam com a humanidade daquelas pessoas, o roteirista Gary Dauberman (responsável também pelo longa anterior) estabelece seus personagens apenas como recursos de roteiro. Ao contrário da individualidade concedida a cada uma das filhas dos dois Invocação do Mal, as órfãs que acompanhamos aqui quase não têm personalidade: Janice, mesmo sendo a protagonista, é reduzida aos resquícios de sua doença, enquanto sua irmã mais nova, Linda, só existe enquanto contraponto a ela. Já as outras quatro garotas poderiam desaparecer do longa sem alterar muita coisa, pois as situações de terror presenciadas por elas poderiam acontecer a qualquer outro personagem.

Annabelle: A Criação do Mal Crítica

Stephanie Sigman tem pouco a fazer, mas Charlotte é ao menos responsável por um easter egg que estabelece a natureza do filme enquanto parte de um “Universo Estendido”. Finalmente, a figura trágica vivida por Melissa Leo é o mais perto que A Criação do Mal tem de uma personagem multifacetada. Como resultado, temos situações incômodas como a aparente tranquilidade de todas após a morte de um(a) personagem. Mais problemática, porém, é a declaração de Charlotte de que demônios vão atrás dos “fracos de fé”, algo que jamais é discutido em relação à pessoa que torna-se possuída. Entretanto, o maior problema é mesmo o fato de que pouco nos importamos com os destinos daquelas pessoas, o que elimina boa parte da tensão.

Além disso, é perceptível que os cineastas pensaram na conclusão do longa sem muita preocupação com o caminho até lá, já que, no terceiro ato, a trama se perde cada vez mais. Isso nos leva a uma sequência final bagunçada, que corre por um bocado de história até encerrar e honrar sua natureza de prequel com uma conexão direta ao primeiro Annabelle.

Apesar de contar a história da boneca que conhecemos em Invocação do Mal, Annabelle surgiu deslocado daqueles filmes por sua baixa qualidade. Em  Annabelle 2: A Criação do Mal, temos um resultado mais coeso, especialmente em termos estéticos e técnicos. Entretanto, a criação de uma atmosfera consistentemente de arrepiar e de uma trama que aterroriza também pelo grau com que nos importamos com os personagens, qualidades tão fortes nos filmes de Wan, continuam ausentes. Assim, a ansiedade por Invocação do Mal 3 segue mais forte do que aquela por The Nun, próximo spin-off da franquia.


“Annabelle: Creation” (EUA, 2017), escrito por Gary Dauberman, dirigido por David F. Sandberg, com Talitha Bateman, Lulu Wilson, Anthony LaPaglia, Miranda Otto, Stephanie Sigman, Samara Lee, Brad Greenquist, Mark Bramhall, Grace Fulton, Philippa Coulthard, Tayler Buck, Lou Lou Safran e Joseph Bishara.


Trailer – Annabelle 2: A Criação do Mal

Outros artigos interessantes:

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.