Anjos da Lei 2

Anjos da Lei 2

Reconhecendo exatamente o que funcionou no primeiro longa-metragem, Anjos da Lei 2 consegue manter a qualidade do antecessor ao manter o humor autodepreciativo e ao investir nas piadas metalinguísticas. Levando-se a sério apenas o bastante para não ser uma bobagem completa, o longa mantém o ritmo e a qualidade das piadas que, ao contrário da fórmula, não são apenas repetições do que já vimos.

Depois de desvendarem o caso do tráfico de uma nova droga em uma escola de ensino médio, os policiais Schmidt (Jonah Hill) e Jenko (Channing Tatum) continuam envolvidos em diversas operações undercover – o que não tem gerado bons resultados. Assim, o supervisor vivido por Nick Offerman ordena à dupla que, para que consigam solucionar outro caso como o da escola, eles devem “fazer exatamente a mesma coisa de antes para garantir sucesso”. Então, como “o departamento investiu muito dinheiro para ter certeza de que Jump Street continue”, Schmidt e Jenko são encarregados de investigar outra nova droga que, desta vez, causou a morte de uma estudante universitária.

Anjos da Lei 2 sabe que é uma sequência que segue a mesma fórmula do longa original (que, por sua vez, é a adaptação para o cinema de uma série de televisão dos anos 80), e isso é grande parte de sua inteligência. Os roteiristas Michael Bacall, Oren Uziel e Rodney Rothman e os diretores Phil Lord e Christopher Miller trazem diversas piadas que mostram que os próprios personagens reconhecem estarem em uma continuação cinematográfica, o que dá origem a comentários sobre orçamento, estrutura, etc., e chega ao auge em uma hilária sequência em que os dois têm uma reação bastante diferente à droga (que, como no primeiro filme, consomem por acidente), encontrando-se em “uma bizarra tela dividida”.

Já deixando clara a intenção de continuar os filmes ao mostrar o condomínio sendo construído no número 23 da Rua Jump, os realizadores sabem que, apesar de tudo, o sucesso do primeiro longa foi inesperado – quando o personagem de Offerman declara: “como se gastar o dobro de dinheiro fosse garantir o dobro do lucro”, Jenko dá uma risada e responde:”como se isso fosse acontecer!”. Os comentários sobre a aparência dos protagonistas também são constantes: aos 30 e 34, respectivamente, Hill e Tatum obviamente nunca poderiam se passar por estudantes de 20 anos – o que, é claro, não impede que Hollywood frequentemente escale atores na faixa dos 30 para interpretar adolescentes.

Mas é claro que reconhecer a repetição da formula não é o suficiente para evitar que o filme seja mais do mesmo e, portanto, desnecessário. Anjos da Lei 2 garante que isso não aconteça ao manter a qualidade de suas piadas e de suas energéticas sequências de ação e, no centro de tudo isso, o relacionamento entre os protagonistas. Se no primeiro era Schmidt quem se perdia no universo do ensino médio ao descobrir que os outsiders agora eram os alunos populares, agora é Jenko (o primeiro de sua família a fingir ir para a universidade, como ele declara emocionado) quem começa a perder o foco na investigação e no parceiro ao se aproximar de um suspeito que parece ter os mesmos interesses que ele.

Anjos da Lei 2 Filme

Elevando o bromance da dupla à décima potência, a sequência retrata a relação dos dois como um filme de romance trataria o casal principal, com direito a término de namoro, dias depressivos e vazios sem a presença do outro, os dois envergonhados tentando uma reaproximação e abraços onde o beijo estaria em um romance – incluindo um “não, você não pode me abraçar agora” e um abraço sob os aplausos dos observadores. Funciona porque, ao invés de fazer graça das emoções e sentimentos dos personagens, Anjos da Lei 2, assim como o original, legitima a importância que Schmidt e Jenko tem um para o outro – quando Jenko declara que “talvez eles devessem investigar outras pessoas”, a dor que isso causa em seu parceiro é real. Da mesma forma, a graça da cena em que eles visitam o psicólogo da universidade não esta nele achando que os dois estão juntos, mas na sessão de terapia de casal em que os policiais declamam os problemas que eles realmente estão tendo.

O ponto em que a sequência fica a dever para o original, contudo, é no estabelecimento do universo em que este longa é ambientado. Enquanto o primeiro explorava a organização e o funcionamento das escolas de ensino médio norte-americanas, este não consegue fazer o mesmo com a universidade – Schmidt e Jenko pouco são vistos na sala de aula, por exemplo. Da mesma forma, os personagens secundários, com exceção do Capitão Dickson (Ice Cube), que tem um papel maior do que no anterior, são pouco explorados, o que dá pouca chance à carismática Amber Stevens de participar da trama. Jillian Bell rouba a cena nos momentos em que ganha destaque, mas seria interessante dar às duas uma participação maior ao longo do filme.

Iniciando com um “anteriormente, em Anjos da Lei” que honra suas origens televisivas e, ao mesmo tempo, deixa ainda mais óbvia a repetição da fórmula, Anjos da Lei 2 ainda encerra com créditos finais hilários e criativos que trazem a dupla em diversas missões posteriores. Se uma trilogia realmente vier a acontecer, Lord Miller possivelmente reaproveitarão uma dessas ideias – sem vergonha alguma. E e isso o que torna Anjos da Lei 2 tão divertido.


“22 Jump Street” (EUA, 2014), escrito por Michael Bacall, Oren Uziel, Rodney Rothman e Jonah Hill, dirigido por Phil Lord e Christopher Miller, com Jonah Hill, Channing Tatum, Amber Stevens, Jilian Bell, Ice Cube e Wyatt Russel.


 Trailer do filme Anjos da Lei 2

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