Animal Político | Aristóteles, uma vaca, pólis e ABNT


Animal Político é uma fábula que se parece muito densa para o espectador médio, mas que ao mesmo tempo tenta manter suas sensações, analogias e símbolos mais próximos possível do cidadão comum. Isso porque é um filme que fala, como o título já denuncia, sobre nós como animais políticos. Esse conceito vem de milhares de anos atrás, de um filósofo grego chamado Aristóteles e de um livro chamado Política. Bom, já deu pra perceber que a história vem de longe; e essa discussão está longe de acabar.

O que o diretor/roteirista Tião faz em sua estreia em longas é abrir mais uma possibilidade de explicação sobre o que o já finado Aristóteles dizia e como isso se encaixa em nossa própria “Pólis”, que do grego é sinônimo não apenas de cidade, como a vida social, as regras e os costumes onde estamos inseridos. A nossa pólis é a cidade grande, os costumes de família (religião), de amigos (a vida boa), de ir fazer compras no shopping (capitalismo). Da vida social como a conhecemos.

Para chamar a atenção do espectador Tião realiza o movimento mais ousado do filme: seu protagonista é uma vaca. Literalmente. Vemos a vaca onde deveríamos ver um humano se comportando como os outros: esperando o sinal fechar para atravessar a rua, correndo uma esteira na academia, comendo em uma lanchonete de fast food, no churrasquinho de fim-de-semana com os amigos e na festa de fim de ano com a família. Toda a rotina se apresenta como ela é, desprovida de qualquer brilho e sem qualquer novidade. Exceto a vaca. Um animal se comportando como um de nós.

Esse movimento sagaz é o que dá entrada para este debate sobre sermos animais que seguimos os costumes de onde nascemos e crescemos, e nos coloca muito pouco distantes de qualquer outro animal. Animal Político brinca sem cerimônias com o próprio 2001 – Uma Odisseia no Espaço e sua ideia de que o homem transcende dos animais, para entregar no lugar do nosso próximo monolito um livro sagrado com as regras que todos devem seguir para enxergar significado em uma vida sem sentido: o livro da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Claro que é uma brincadeira sobre a “insira seu livro sagrado aqui” (Bíblia? Alcorão? Não importa) e como uma possível evolução humana para algo além não irá passar de mais um novo conjunto de regras que, auto-contido, parecerá nos dar algo de especial.

Sem muita abertura para interpretações se você conhece o mínimo sobre a História do ser humano dos últimos séculos, para o espectador leigo será uma atividade prazerosa tentar encaixar os diferentes símbolos nos significados mais cotidianos. O que significa a mulher nua, por exemplo (o único capítulo nomeado como “A Mulher Caucasiana”). O que ela nos diz sobre herança é uma pista; ela pisca diretamente para nós, na verdade. Fala conosco. Mas o elo entre ela e a vaca é algo “aberto” para nossa interpretação. Cada um que ver o filme terá que escolher qual é sua definição de “Matrix”.

O mais impressionante do ponto de vista técnico no filme é sua economia de recursos. Usando o cenário urbano e a paisagem inóspita de um quase deserto, os elementos são simples objetos e fantasias: livros, um fio elétrico, um manual da ABNT, uma TV de tubo, um aspirador de pó, uma menina irritante reclamando o tempo todo. E mais uma vez o diretor está certo em sua escolha. Se o filme é sobre costumes que se repetem indefinidamente, elementos conhecidos do nosso inconsciente apenas reforçam a mensagem.

Animal Político é o meu tipo de filme favorito para recomendar para que as pessoas assistam com amigos e conversem a respeito. Ele é curto (uma hora e pouco), mas possui alguns momentos calmos demais. Então preste atenção até o final, acenda a churrasqueira, abra uma garrafa de cerveja e comece a imitar todos os costumes vistos. Adicione agora o ato de pensar. O espectro de Aristóteles agradece.


“Animal Político” (Bra, 2016), escrito e dirigido por Tião, com Rodrigo Bolzan, Elisa Heidrich, Victor Laet.


Trailer – Animal Político

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