Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald | Acomodado


Um dos piores males do ser humano é a comodidade. Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald está tão acomodado no alto de sua torre de marfim que não percebe o necessário para se manter interessante.

Não é preciso conquistar um novo público e muito menos fazer com que os velhos fãs não se empolguem com o que está por vir. Não precisam nem se divertirem com o que estão vendo. Todos voltarão para o próximo filme. Os Crime de Grindelwald se permite então ser um grande “retcon” que perde todo seu tempo posicionando as peças de um grande tabuleiro de xadrez.

E seu principal defeito é não perceber que ninguém se diverte enquanto está colocando o cavalo do lado do bispo e um monte de peões em frente. O outro problema é, justamente, apostar em um desses peões para acompanhar toda a ação.

Newt Scamander (Eddie Redmayne) continua simpático em toda sua insegurança, apaixonante no modo como “cuida” de seus animais fantásticos e charmoso em sua generosidade. Mas o roteiro escrito pela própria J.K. Rowling se esquece de um dos detalhes mais básicos de todas narrativas: a jornada (mais precisamente, aquela tal “Jornada do Herói”, mesmo).

O filme começa com o próprio Grindelwald (agora Johnny Depp em tempo integral) escapando no Ministério da Magia americano. Seu objetivo é juntar um “entourage” de outros magos e promover uma guerra que os colocará liderando ambos os mundos (o deles e dos “não magos”). Contra eles, está os Ministérios da Magia, que pretendem manter em pé a trégua entre os dois mundos, o que os leva a tentar convencer Scamander a perseguir e matar Credence (Ezra Miller).

Como em uma boa Jornada do Herói, Scamander recusa o pedido, mas acaba sendo convencido por uma “terceira força” nesse conflito, seu antigo professor, Alvo Dumbledore (Jude Law). Mas não se engane com esse começo com jeitão de monomito, no resto do tempo o “herói” apenas assiste uma trama que mais parece uma novela mexicana, cheia de filhos bastardos e surpresas em árvores genealógicas.

Scamander simplesmente não age mais. Encontra personagens, doma uma criatura fantástica só para manter sentido no nome do filme, enfrenta algumas outras criaturas e observa o clímax. Seu distanciamento é tamanho que ele nem ao menos cruza o caminho desse grupo de aliados de Grindelwald. Parece apenas estar uns 300 passos atrás do que importa na história. O desequilíbrio é tão grande que até seu “amigo trouxa”, Jacob (Dan Fogler), tem uma importância maior para a trama, já que traça o destino de sua namorada, Queenie (Alison Sudol).

Sobre esse “destino”, ele também não é muito empolgante, já que o clímax de tudo é um grande discurso que só depende do charme já pouco eficiente de Depp, uma reviravolta bobinha, que só engana as vítimas da armadilha e resulta uma luta anticlimática contra um fogo azul que se transforma em um dragão e… bom… só isso mesmo, já que os verdadeiros vilões já estavam bem longe.

Mas o dragão é lindo. Assim como todo o resto do filme, e é o que salva Os Crime de Grindelwald de um desastre ainda maior. Isso e a mente criativa de Rowling.

David Yates continua à frente da franquia e aproveita todos os momentos para criar um filme visualmente impressionante. Até nas cenas mais desinteressantes, como quando Credence enfrenta um agente do Ministério e a luta se desdobra de modo estático e sem graça, o que se vê na tela é um espetáculo de efeitos especiais e uma composição que faz a tela do cinema explodir.

O diretor ainda aproveita bem os momentos de desenvolvimento desses personagens (afinal o filme é só isso). Rowling sabe fazer isso como poucos, como por exemplo, quando Grindelwald mostra para “você sabe quem” que é melhor não deixar “rastros”. Yates faz dessas cenas sempre algo memorável. As soluções imaginativas de Rowling criam vida de um jeito divertido, fino e cheio de personalidade nas mãos de Yates.

Mesmo com uns closes esquisitos em primeira pessoa, Yates ainda parece continuar sendo o diretor certo para o mundo da magia de Rowling. Mas por ter em mãos um filme sem ritmo e empurrado só por um monte de diálogos e pouca ação, é difícil apontar o quanto ele está acomodado nessa posição de poder, ainda que fique fácil acreditar nisso, já que ele próprio também não percebeu o desastre que rondava Os Crimes de Grindelwald.

Durante oitos filmes (sete livros) Rowling contou a história de Harry Potter, mas nunca, em nenhum desses, deixou de contar uma história contida dentro de si mesma. Oitos filmes, bem separados, mas que se uniam dentro de uma trama maior. Os Crimes de Grindelwald soa incompleto, como apenas os primeiros momentos de algo que ainda está por vi. Como um primeiro ato meio arrastado que só apresenta os personagens. Falta querer ser mais. Falta querer ser ele mesmo e não, daqui a alguns anos, ser lembrado apenas como o ponto inicial esquecido de uma história que culminará, muito provavelmente, em um batalha épica.

Isso quer dizer que o tal Wizarding World está ameaçado? Obviamente que não, ele continuará dentro do planejado e, com certeza, surgirá dessas cinzar que é Crimes de Grindelwald como uma Fênix. O que vem a seguir deve manter a glória da série criada por Rowling. Afinal, olhar para trás e lembrar que A Pedra Filosofal e A Câmara Secreta não são lá bem um início incrível e tão perto da glória do que veio à seguir. Portanto, o melhor mesmo é dar uma chance a quem já acertou tantas vezes.


“Fantastic Beasts: The Crimes of Grindelwald” (UK/EUA, 2018), escrito por J.K. Rowling, dirigido por David Yates, com Eddie Redmayne, Johnny Depp, Zoe Kravitz, Ezra Miller, Jude Law, Katherine Waterson, Claudia Kim, Dan Fogler e Alison Sudol


Trailer do Filme – Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald

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