Quinze anos após Harry Potter e a Pedra Filosofal chegar aos cinemas e sete filmes depois, Animais Fantásticos e Onde Habitam estreia nos cinemas para mostrar que o mundo criado por J.K. Rowling não só vai muito além de Hogwarts, como também a diversão só parece estar começando.

Sim, Animais Fantásticos e Onde Habitam se não é o melhor dos momentos da franquia, não deixa ser um exagero falar que ele é o melhor dos filmes. Primeiro de tudo, pois pela primeira vez David Yates (que dirigiu os últimos quatro filmes do bruxinho) tem pela primeira vez em mãos um filme original, sem o peso de sua versão de papel. Um produto pensado e escrito para a tela grande, e isso fica claro logo de cara.

Rowling, que pela primeira vez escreve um roteiro original, mostra que suas habilidades literárias se estendem para as cinematográficas com técnica, ritmo e precisão. Junto disso vem também a facilidade incrível em criar um mundo fantástico e personagens tão espetaculares quanto o cenário que os rodeia.

O ponto de partida disso tudo é o excêntrico/esquisitão Newt Scamander, nome que os fãs já devem ter ouvido falar um monte de vezes, já que seu famoso livro que também batiza o filme é material didático de Hogwarts (assim como foi lançado em 2001 sob o pseudônimo de Scamander nas livrarias do “nosso mundo”). Mas as semelhanças acabam por aí, com o filme acompanhando a passagem do feiticeiro por Nova York durante a década de 20 com sua maleta cheia desses “animais fantásticos”.

Scamander é vivido pelo ótimo Eddie Redmayne, criando um personagem frágil e inesquecível, que só parece ficar à vontade em meio a seus animais fantásticos. Desviando o olhar de tudo e todos a não ser quando precisa entrar em ação para salvar seus animais fantásticos. Um herói simpático e complexo, que tem tudo para se tornar um dos grandes nomes desse mundo.

Aqui ele acaba cruzando o caminho de uma rebaixada agente da MACUSO (similar americano ao Ministério da Magia), Tina (Katherine Waterson) e simpático padeiro e “no-maj” (expressão para “trouxa” desse lado do Atlântico), Kowalski (Dan Fogler). Enquanto isso, Nova York parece ser alvo de alguma força misteriosa e perigosa que mobiliza e coloca de prontidão todo mundo da magia, incluindo o sinistro Graves (Colin Farrel), investigador da tal MACUSO.

E aí está um dos primeiros, e talvez maior, acerto do trabalho de Rowling. Mesmo com essas duas linhas narrativas (na verdade ainda existem mais duas correndo em paralelo, além do surgimento de um vilão em um prólogo que abre o filme), nem por um segundo o espectador se sentirá empurrado de modo melodramático. Scamander tem lá seus problemas com seus animais fantásticos e é com um sutileza incrível e um ritmo perfeito que tudo vai se ligando e se cruzando até estarmos vendo uma só história. O resultado disso é uma trama complexa, inteligente, ágil e que nem por um segunda deixa de ser divertida, já que a cada segundo seu espectador descobre algo mais extraordinário e empolgante.

Animais Fantásticos e Onde Habitam Crítica

Também não é exagero falar que o melhor de Animais Fantásticos e Onde Habitam é essa vontade de levar seu espectador a embarcar em uma novíssima faceta desse mundo incrível. Melhor ainda, tanto a época, quanto a mudança de continente, permitem que Rowling crie um mundo diferente, que mantém uma ideia, um ponto central, mas que se esforça para ser único. Uma impressão de, mesmo familiarizado com todos conceitos e detalhes, tudo ali é novo e empolgante. Um “novo mundo”, literalmente.

Uma preocupação que vai ainda de encontro ao competente e lindo trabalho de design de produção de Stuart Craig (que vem dos Harry Potters) e James Hambdige (que tem filmes como O Cavaleiro das Trevas no currículo). Tudo aparecendo em Animais Fantásticos… parece ter uma vida própria. Cada roupa, detalhe, o próprio MACUSO e ainda as esquisitíssimas (no melhor dos sentidos!) bestialidades de Scamander. Como se tudo ali estivesse sendo cimentado para ser ainda mais explorado do que já é nesse primeiro filme (ok… muito provavelmente será, nas sequências).

E as opções de Yates só ajudam a valorizar tudo isso. Seu planos são abertos sempre o suficiente para que o espectador se perca nos detalhes, nos cenários e nesse mundo que tem aquele brilho úmido e glamouroso da Nova York nos anos 20. Yates ainda tem a aparente preocupação de não olhar para “Animais Fantásticos…” nunca com o melhor olhar de Harry Potter, que aos poucos até vai ganhando um status visual mais adulto, mas que nunca chega nem perto do quão maduro é esse mundo de Scamander. Não existe espaço para nada que não esteja a serviço único e exclusivo da trama e de seus personagens. Nada de quadribols, vassouras e feitiços, assim como nem bem as varinhas tem qualquer destaque.

Ainda que converse com os fãs dos livros de Rowling, Yates parece ainda sabe que agora pode dialogar com um público muito mais preparado e que não irá para o cinema em busca de algum “detalhe do livro”. Além disso, um público muito mais adulto e que tem um contexto emocional muito mais amplo para, por exemplo, aproveitar a dramaticidade da mãe obcecada por uma nova “caça às bruxas” (que na verdade acaba por crescer até se tornar o núcleo dramática do filme inteiro). Para Yates, ali vê a oportunidade de criar quase um filme de terror, próximo à ação, tenso, violento e cheio de olhares de reprovação e medo.

Resumindo, Yates faz em Animais Fantásticos… tudo que de melhor fez em Harry Potter, assim como Rowling parece ter aprendido com cada filme do bruxinho para se tornar uma roteirista competente e que mantém a genialidade de seus trabalhos como escritora. Mas sobre tudo isso, uma ótima oportunidade de ver esse incrível mundo mágico ganhar mais e mais detalhes e histórias. Há muito vida além de Hogwarts, e será um prazer enorme descobrir onde “ela habita”.


“Fantastic Beasts and Where to Find Them” (EUA/RU, 2016), escrito por J.K. Rowling, dirigido por David Yates, com Eddie Redmayne, Colin Farrel, Katherine Waterston, Samantha Morton, Dan Fogler, Ezra Miller, Jon Voight, Colin Farrel.


Trailer – Animais Fantásticos e Onde Habitam

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