Todos conhecemos a história. Afinal, não poderia ser diferente: quando se fala de alguém tão devorada pela mídia quanto Amy Winehouse foi, é quase impossível não pegar um pedaço, também. Muito já se falou e produziu sobre a artista, dona de uma voz única e capaz de se perpetuar apesar de apenas dois álbuns lançados. Entretanto, ninguém fez isso tão bem quanto Asif Kapadia, com Amy – não por acaso, indicado ao Oscar de melhor documentário.

Similar a seu documentário anterior Senna, Kapadia constrói a história de Amy Winehouse a partir da montagem de imagens de arquivo, completadas com entrevistas apenas sonoras. O que importa, aqui, não é quem fala, mas o que falam. A personagem principal nunca sai de cena e, apesar de pouco participar diretamente na narrativa, tem seu retrato construído detalhadamente, a partir da visão das muitas pessoas que com ela conviveram – relatos, por vezes, contraditórios, que revelam muito sobre a relação dela com cada entrevistado.

Kapadia apresenta Amy como uma jovem insegura, resultado de diversos problemas familiares, e suscetível à influência de todos a seu redor. O diretor é especialmente – e compreensivelmente – duro com o pai Mitch e o ex-marido Blake, que não perderam chances de se aproveitar do desejo por aprovação que Amy exalava e das possibilidades de lucro que ela proporcionava. Kapadia coloca os amigos mais antigos, Lauren, Juliette e Nicky como o porto-seguro da artista, mas destaca sua impotência frente à entourage de Amy, que parecia estar mais preocupada com o quanto ela renderia do que com qualquer outra coisa. O fato de o documentário ser completamente construído por imagens de arquivo e não haver qualquer tipo de encenação deixa tudo mais orgânico e realista. Kapadia passa a ideia de que Amy, visivelmente, tinha problemas, mas as pessoas que deveriam se importar com ela estavam preocupadas demais com os benefícios de sua carreira.

Amy Crítica

Com uma narrativa que destaca os infortúnios da vida da artista e que deixa bem clara a natureza perturbada de sua essência, Amy constroi um retrato minucioso de sua protagonista-título, e parece sugerir o tempo todo que a morte precoce poderia ter sido evitada, tivesse a família tomado atitudes. Um momento especialmente doloroso é quando Amy decide tirar um tempo para si e passa alguns meses em uma praia, Santa Lucia, longe das câmeras e do assédio. Ela parece bem nos vídeos caseiros. Até o momento em que o pai decide visitá-la e levar uma equipe de filmagem: “Porque você trouxe uma equipe de filmagem para Santa Lucia?”, ela pergunta. “Pai, você quer dinheiro? Eu dou dinheiro para você”.

Apesar de destacar o aspecto trágico de sua personalidade, Kapadia não coloca a cantora como completa vítima: o diretor destaca a força da cantora em diversos momentos e relaciona os infortúnios de sua vida com a qualidade de sua composição. Acompanhando a voz de Amy, as letras das músicas entram em quadro com esse propósito.

Amy é um filme triste e aflitivo, mas forte, como a artista que lhe dá o título. É um documentário de contrastes, bem construído e que deixa uma certeza: Amy Winehouse morreu jovem, mas se junta a divas como Billie Holiday e Ella Fitzgerald no hall do jazz.


“Amy” (RU/EUA, 2015), dirigido por Asif Kapadia


Trailer – Amy

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