“O sucesso é um copinho de plástico bem vagabundo”, diz Jaqueline, uma dançarina de música brega rumo à decadência em Amor, Plástico e Barulho. O copinho dela já foi usado por um certo tempo e estáAmor, Plástico e Barulho Poster prestes a ser jogado fora, mas olhando para sua intérprete, a ótima Maeve Jinkings (O Som ao Redor), o que vemos é um misto de desespero e ousadia pela vida nos palcos. Esse copinho, por mais descartável e efêmero que seja, contém uma substância altamente viciante.

Maior prova disso é sua recém-companheira de palco, Shelly (Nash Laila). Mesmo convivendo com Jaque em suas crises de saúde cada vez mais recorrentes, seus sonhos continuam intactos. A primeira cena do filme são as duas indo vomitar no banheiro, em fila, quase como uma espécie de ciclo da vida.

O ambiente é a baixa Recife, onde à noite dançarinas se confundem com garotas de programa. Para nos colocar em perspectiva, diversas cenas do cotidiano são inseridas e que lembram situações e locais tipicamente brasileiros, como as diferentes feiras ao ar livre. O mundo ali é uma eterna feira, e as pessoas também estão à venda.

Outro lugar para se colocar à venda é a internet. Vemos diferentes vídeos em baixa qualidade, seja um clipe ou um anúncio recorrente da construção de um Shopping (algo não muito bem resolvido pelo roteiro). Mas não é a baixa qualidade de uma TV analógica, mas aquela típica de uma limitada internet, se inserindo mais uma vez na realidade dessas bandas, que costumam lançar seus clipes feitos de maneira amadora em um canal gratuito e de longo alcance (há inclusive uma sequência cômica da produção de um desses vídeos).

Amor, Plástico e Barulho Crítica

Se não conhecesse o trabalho de Nash Laila diria que a diretora Renata Pinheiro arrumou uma banda real para realizar a façanha de construir uma atmosfera tão realista quanto dramática, chegando em alguns momentos (mas não muitos) a rivalizar com o excelente Dois Filhos de Francisco. O que mais surpreende em Amor, Plástico e Barulho é o empenho para que o espectador fale a mesma língua daquele universo. Sendo assim, boa parte do filme é gasto na criação dessa atmosfera. Lógico que junto a isso há uma história se desenvolvendo, mas apenas em seu terceiro ato os personagens parecem deixar sua estrutura quase unidimensional e agir naquele meio que agora entendemos por completo.

De qualquer forma, a atuação e a escolha das atrizes é responsável por metade desse realismo. A outra metade é alcançada pela câmera em movimento, pelas inserções do cotidiano, pela vida pulsante de uma capital em sua camada baixa. Enfim, um cardápio completo da vida brega agindo e retroalimentando a “arte” dessas meninas.


“Amor, Plástico e Barulho” (Bra, 2014), escrito por Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira, dirigido por Renata Pinheiro, com Nasha Laila, Maeva Jinkings, Rodrigo Garcia e Samuel Oliveira


Trailer – Amor, Plástico e Barulho

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