Amor e Outras Drogas

por Vinicius Carlos Vieira em 28 de Janeiro de 2011

Quando se reclama do marasmo com que Hollywood trata suas comédias românticas, sem cobrar nada diferente, nem fingir se importar com isso, mas é bom ter em mente que tal coisa ainda é possível e “Amor e Outras Drogas” mostra exatamente isso.

Talvez pela presença de Edward Zwick na direção (mesmo de “Tempo de Glória” e “O Último Samurai”, dividindo ainda os créditos do roteiro com Charles Randolph, que escreveu o ótimo “A Intérprete”), ou pela presença marcante do casal de protagonistas, Jake Gyllenhaal e Anne Hathaway, nos auges de suas formas, ou simplesmente por tratar com respeito e força uma história comovente que poderia tombar sobre o próprio melodrama, mas acaba ganhando vida e paixão.

Nela, Gyllenhaal é um vendedor que, entre trancos e barrancos, acaba se transformando em um representante de vendas de uma empresa de medicamentos. Charmoso e conquistador esse seu lado acaba sendo colocado em prova quando conhece a personagem vivida por Anne Hathaway, uma jovem artista que tem que conviver com o Mal de Parkinson.

O roteiro extremamente bem costurado faz então que isso tudo se transforme em uma comédia sutil, que passa pelo Boom do Viagra nos anos 90, por um romance competente, onde os dois têm que ultrapassar algumas barreiras (impostas por eles mesmos), para que esse amor dê certo e ainda um drama contundente, que coloca em pauta a doença dela e as escolhas dele diante disso. Não que “Amor e Outras Drogas” seja um épico sobre tudo isso, cheio de reviravoltas, mas bem pelo contrário: um filme simples e equilibrado, que sabe o que para encher suas quase duas horas, o melhor é mesmo ter o que mostrar.

Para isso, é carregado por um roteiro ágil, que parece ter uma proposta em mente desde o começo e não pega atalhos para chegar a ela. Que tem certeza que ele é o personagem a ser observado, desenvolvido e, no fim de tudo, obrigado a ficar de frente para suas decisões, assim como é a vida dele que toma outro rumo quando ele se apaixona por ela, por isso, de um jeito tremendamente natural, em nenhum momento “Amor e Outras Drogas” parece forçar a presença da protagonista, assim como não se preocupa em colocá-la logo em cena, tudo dá as caras com naturalidade.

No fim do filme, o protagonista, em uma narração em OFF, fala sobre aquelas pessoas que entram nas vidas das outras para mudar tudo, e você só se dá conta disso é, justamente, pensando nisso que “Amor e Outras Drogas” escolhe olhar para Gyllenhaal e desenvolvê-lo antes de começar a contar essa história. Um ato corajoso, que podia colocar o filme a perder, já que deixa seu início sem objetivo, mas, muito pelo contrário, acerta na mosca e faz todos se apaixonarem por aqueles dois. Mais que qualquer coisa, Zwick aposta na química entre os dois se dá muito bem.

Gyllenhall consegue casar perfeitamente um certo charme “canalha” do personagem com seus momentos de fragilidade, como se não conseguisse viver e aceitar certas decisões de seu coração, sem conseguir falar “eu te amo” e não ter um verdadeiro ataque de pânico, ao mesmo tempo em que se mostra firme quando tem que lidar com as agruras de toda situação, embora deva ser fácil fazer tudo isso com Anna Hathaway, mais do que nunca hábil e confortável em seu papel. Marcante e cheia de personalidade, seria um caminho muito mais curto deixar com que sua personagem caísse no drama da doença, mas aqui Hathaway prefere segurá-la de modo complexo, onde o Parkinson está sempre lá, não a movendo, mas sim fazendo parte de um todo, de suas decisões e do modo como acaba vendo o mundo. Presa em uma doença degenerativa, preocupada em viver cada segundo e sem saber o que fazer quando percebe que talvez o rumo de sua vida possa mudar. É fácil “ler” tudo isso com Hathaway em cena, e isso é um enorme presente para quem entrar no cinema.

“Amor e Outras Drogas” ainda consegue manter um bom humor genuíno, olhando para tudo com um riso sincero, que nunca parece fazer a história de refém, e, mesmo que sem conseguir escapar da boa e velha estrutura de todas comédias românticas (com o protagonista indo atrás de seu amor no final e tudo mais), pelo menos faz isso de modo sensível, respeitando a paciência de seus espectadores e resultando em uma comédia romântica que sabe ser uma ótima pedida dentro de um gênero tão maltratado.

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Love & Other Drugs (EUA, 2010), escrito por Edward Zwick, Charles Randolph e Marshall Herkovitz, dirigido por Edward Zwick, com Jake Gyllenhaal, Anne Hathaway, Oliver Platt e Hank Azaria.

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