O “Principio da Conservação de Massas” de Antoine Lavosier (acho que tinha uma fórmula com o nome dele…) dizia que “na natureza nada se cria, tudo se transforma” (ou “tudo se copia”, como alguns preferem). Amizade Desfeita não cria nada, mas transforma muito bem uma quantidade de conceitos do gênero que vem perambulando por Hollywood.

Entre “Founding-Footages” e copias da Bruxa de Blair, Amizade Desfeita consegue fazer o que talvez seja a última coisa que pudesse ser feita em termos de originalidade: um computador.

Sim, “Amizade Desfeita” é inteiramente “feito” através da tela do computador dessa jovem Blaire (Shelley Henning). Através de uma janela do Youtube aberta você descobrirá que uma outra jovem, Laura (Heather Sossaman), cometeu suicídio depois de um vídeo vazado na internet.

O resto da trama se dá através de sete janelas abertas do Skype, seis com Blaire e seus amigos e ainda uma misteriosa presença que se diz ser Laura. A questão é que esses seis amigos parecem estar envolvidos no “vídeo vazado”, e como em um bom filme de terror, eles irão pagar por isso.

E se a premissa é batida, Amizade Desfeita faz a única coisa que permite com que o filme faça dessa falta de opções algo relevante, principalmente por cria um nível de imersão incrível que garante toda diversão dos fãs do gênero. Somente lá na última cena do filme você enxerga alguma coisa além da tela do computador. A tensão das janelas sendo abertas e fechadas, e todo resto acontecendo ao mesmo tempo resulta em um suspense competente e arrebatador.

Lógico, quando isso se torna terror, tudo é violento, explosivo, inesperado e contundente. Até porque, diante das limitações físicas, das janelas abertas no computador e das webcam fixas, o resultado é interessantemente real.
É fácil acreditar naquilo que está acontecendo, e nesse caso, a suspensão de descrença aqui é importantíssima para que nada se perca na simples pretensão estética. É lógico que a ideia de fazer o filme inteiro se passar através da tela de um computador é o objetivo principal do diretor Levan Gabriadze, e talvez grande motivação da produção, mas é o roteiro de Nelson Greaves que sabe aproveitar todas as possibilidades dessa “linguagem digital” e faz com que Amizade Desfeita se destaque diante da enorme maioria.

Amizade Desfeita Crítica

Sua trama caminha através da distância física desses amigos e da incapacidade de todos de conseguirem fazer qualquer coisa a não ser gritar para suas câmeras. Essa tensão e naturalidade ainda nascem diante de um recurso interessante em que cada ator estava em posse de roteiros levemente diferentes e que obrigavam os outros companheiros a improvisarem certas linhas de diálogos e reações.

Entretanto, lançado em 2014, Amizade Desfeita ainda consegue aproveitar bem uma série de conceitos contemporâneos que assolam a juventude atual. Além do “cyber bullying” óbvio, é fácil se pegar tentando entender o que prende esses personagens a esses computadores mesmo diante do estranho começo onde uma figura misteriosa invade o “chat” deles, ou até da vida digita “pós morte”. Mais para o final ainda tenta olhar para o quanto mesmo conectados pelo mundo as pessoas ainda estão cada vez mais se afastando e ignorando um pedido de socorro. Enfim, uma série de camadas que só acrescentam ainda mais coisas a que se pensar.

E se isso parece exagero dentro de um filme de terror simples e despretensioso é porque nenhum filme quando se propõe a fazer algo novo é “simples e despretensioso”. E Amizade Desfeita não só tenta, como consegue com louvor, fazer algo que ainda não tinha sido feito.

Um filme tenso e que te faz ficar o tempo inteiro sentado na ponta da poltrona, com uma dose interessante de gore, que discute problemas incrivelmente atuais e que, ainda por cima, entrega tudo isso dentro de uma estética que, se não é incrível ou grandiosa, pelo menos é inovadora e inesperada.

Na corrida de fazer algo que ainda não foi feito, diferente de Bruxas de Blair e outros semelhantes, Amizade Desfeita é novo e não permitirá que mais ninguém copie sua ideia ou estará fadado à crítica. Um terror único e cheio de personalidade, e isso não é pouco dentro de um gênero tão desgastado e que se arrasta pela Conservação de Massas copiando tudo que vê pela frente.


“Unfriended” (EUA, 2014), escrito por Nelson Greaves, dirigido por Levan Gabriadze, com Heather Sossaman, Matthew Bohrer, Courtney Halverson, Shelley Henning, Moses Storm, Will Peltz, Renee Olstead e Jacob Wysocki.


Trailer – Amizade Desfeita

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