Em novembro de 1974, Ronald DeFeo Junior matou seis parentes a tiros em uma bela casa no bairro suburbano de Amityville, em Long Island. Depois de ele ser condenado à prisão, no ano seguinte, a família Lutz mudou-se para a residência — mas a deixaram cerca de um mês depois, declarando terem sido aterrorizados pelas forças sobrenaturais em atividade ali. Em 1976, Ed e Lorraine Warren se envolveram com o caso e, a partir daí, a história deu origem a diversos livros e filmes ao longo dos anos. Amityville: O Despertar se passa dentro desse contexto e, apesar de ter alguns pontos promissores, o resultado final é bagunçado e esquecível.

Das dezenas de produções cinematográficas sobre o ocorrido, assisti apenas ao longa original de 1979 e a seu remake lançado em 2005. Se você sabe ainda menos do que eu sobre o que (supostamente) se passou ali, não se preocupe, pois O Despertar dedica seus minutos iniciais a resumir rapidamente a situação. E por que retornamos a Amityville? Porque Joan (Jennifer Jason Leigh) acaba de se mudar para a residência ao lado de seus filhos gêmeos, Belle (Bella Thorne) e James (Cameron Monaghan), e da caçula Juliet (Mckenna Grace). Um acidente sofrido há alguns meses o deixou em um estado vegetativo e, quando ele começa a mostrar sinais de melhora, Belle desconfia de que não algo demoníaco tomou posse do corpo de seu irmão.

O diretor e roteirista Franck Khalfoun situa O Despertar em um universo onde os crimes de Amityville realmente ocorreram e deram origem a um fenômeno cultural, permitindo que Belle e seus amigos pesquisem a casa e assistam aos filmes ambientados nela. Entretanto, a decisão de estabelecer que Belle anteriormente não tinha a mínima ideia do ocorrido é um tanto bizarra, e nunca ficamos sabendo porque exatamente Joan resolveu mudar-se especificamente para lá — se é que há um motivo por trás de sua escolha de residência. Assim, Khalfoun não explora tão bem quanto poderia o passado que decidiu retomar com esta produção.

O mesmo vale para a outra escolha louvável do filme: a de trazer a possessão de um corpo “vazio”, já que James encontra-se em um estado vegetativo. Isso dá origem a diversos momentos eficientes em que vemos o garoto movimentando-se, mesmo que minimamente — e quando seu rosto assume uma expressão assustadora de pavor, é incômodo perceber o quanto a mãe não enxerga nada de estranho naquilo, aliviada apenas de ver seu filho mostrando sinais de consciência. Se as possessões “tradicionais” envolvem uma invasão de corpo e consciência em que demônio e humano batalham para, respectivamente, tomar e retomar controle, a coisa se torna ainda mais sinistra ao considerarmos que um corpo inconsciente estaria pronto para receber uma entidade dessas sem resistência.

Amityville: O Despertar

Por outro lado, Amityville: O Despertar não deixa de se entregar àqueles momentos de pura ilógica, como a falta de clareza ao estabelecer se algo de James permanece ou não nele ou a maneira preguiçosa com que o longa aborda a forma com que os colegas de Belle a rejeitam por morar na casa assombrada. E apesar de ser enxuto em termos de trama, já que tem menos de 1h30 de duração, isso não é desculpa para recorrer a clichês como o cachorro que sente o perigo antes dos humanos ou a garotinha que faz o primeiro contato com a entidade — recursos que tornaram-se clichês por funcionarem, é claro, mas que não sobrevivem em um roteiro tão raso quanto este.

Sem trazer qualquer elemento memorável em termos de estética, Khalfoun dirige o filme como qualquer outra pessoa poderia ter dirigido, sem trazer nada de especial ou único — mas, pelo menos, sem cometer erros absurdos. Mas O Despertar é prejudicado também por seu elenco. A protagonista, Bella Thorne, não consegue transmitir absolutamente nenhuma emoção, independemente se a jovem está com medo, determinada, se rebelando (sim, ela também é o clichê da adolescente que fica com raiva por ter que se mudar) ou triste e, além disso, é um buraco negro de carisma. Já a veterana Jennifer Jason Leigh e até mesmo Jennifer Morrison, uma atriz experiente, atuam no piloto automático. Assim, Cameron Monaghan acaba se destacando e, apesar de também estar preso a um personagem mais promissor do que bem explorado, consegue cumprir bem sua missão.

A franquia Amityville nunca originou grandes filmes, e Amityville: O Despertar segue essa tendência. Afinal, apesar de ter algumas características que o diferenciam dos longas anteriores e que poderiam dar origem a uma história eficiente de terror, a produção parece pouco interessada em ir além do lugar-comum e a explorar o que tem em mãos.


“Amityville: The Awakening” (EUA, 2017), escrito e dirigido por Franck Khalfoun, com Bella Thorne, Jennifer Jason Leigh, Cameron Monaghan, Jennifer Morrison, McKenna Grace, Thomas Mann, Ava Knighten Santana, Taylor Spreitler e Kurtwood Smith.


Trailer – Amityville: O Despertar

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Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

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