Quando discutimos a falta de originalidade do terror mainstream, estamos falando exatamente de filmes como Além da Morte. Não, isso não vem apenas do fato de que este é uma refilmagem de Linha Mortal, longa de 1990 dirigido por Joel Schumacher e estrelado por Kiefer Sutherland, Julia Roberts e Kevin Bacon. Um dos maiores problemas é que o filme nos apresenta a personagens detestáveis que embarcam em um bagunçado arco de redenção, motivados pelas experiências quase-morte às quais se voluntariam e que trazem consequências devastadoras para cada um deles.

Há alguns anos, Courtney (Ellen Page) se envolveu em um acidente de carro que matou sua irmã mais nova. Ainda atormentada pelo ocorrido, a jovem é, hoje, uma das estudantes de uma prestigiada universidade de Medicina. Certa noite, ela convida sua amiga Sophia (Kiersey Clemons) e o colega Jamie (James Norton) para ajudá-la com sua pesquisa sobre experiências de quase-morte. Seguindo relatos de quem passou por isso, Courtney acredita que, se ela mesma submeter-se ao processo, poderá relevar informações revolucionárias sobre a vida após a morte (sim, o filme trata morrer e quase morrer como experiências similares, assumindo imediatamente que o que acontece em um caso também ocorre no outro).

Logo, os estudantes Marlo (Nina Dobrev) e Ray (Diego Luna) também se envolvem com os experimentos. Depois que Courtney é ressuscitada e passa a exibir instintos afiados e uma memória aguçada, todos eles — com exceção de Ray — decidem seguir o exemplo da jovem e passarem por uma flatline, em referência à linha reta que indica que o coração parou de bater. Até que cada um deles percebem outra consequência do processo quando passam a ser perseguidos pelos fantasmas de seu passado.

Além da Morte

O filme chega muito perto de querer encontrar uma explicação lógica para o ocorrido e até mesmo para a natureza do efeito — seriam alucinações ou um verdadeiro demônio obrigando os jovens a confrontar seus erros? Não há nuance ou complexidade alguma no roteiro de Ben Ripley, talvez um problema particular deste filme ou algo advindo da obra original, ao qual não assisti — mas o IMDb indica que pelos menos os nomes dos personagens foram alterados. Além disso, Niels Arden Oplev responsável pela (fraca) adaptação sueca de Os Homens que Não Amavam as Mulheres, mostra-se mais uma vez um diretor que não sabe construir uma atmosfera ou imprimir estilo a seus filmes, já que o que ele faz em Além da Morte poderia ser feito por qualquer outra pessoa.

E o elenco também faz sua parte para tornar o longa uma experiência tão pouco envolvente, já que até mesmo atores carismáticos e talentosos como Ellen Page e Diego Luna surgem apagados aqui, presos a personagens unidimensionais — a insistência de Ray por declarar sua experiência de vida diante dos colegas mais novos chega a ser patética. Enquanto nisso, Nina Dobrev até se esforça e, diante da mediocridade que a cerca, até que não faz feio com uma personagem que ganha mais importância conforme a trama avança. Fechando o grupo, James Norton e Kiersey Clemons se destacam negativamente com suas atuações forçadas. Enquanto isso, Kiefer Sutherland surge em uma ponta que pode ser um easter egg divertido para os fãs do original, mas que certamente representam alguns dos dólares mais facilmente conquistados da carreira do ator.

Mas tudo isso torna-se ainda mais incômodo diante do fato de que estamos acompanhando personagens que não demonstram um pingo de remorso até que o passado literalmente bata na porta deles — o que, OK, poderia ser uma abordagem interessante para discutir arrogância, egoísmo, negação e falta de empatia, o que o longa tenta, mas não consegue, fazer. O problema é que a tal mudança de atitude do grupo jamais acontece de verdade — nem o roteiro nem os atores conseguem vender que realmente estão enfrentando seus erros.

Com isso, Além da Morte mostra-se vazio, uma experiência descartável que não sobreviverá por muito tempo na mente do espectador. Repleto de possibilidades não-exploradas, este é um filme que jamais consegue justificar sua própria existência.


“Flatliners” (EUA, 2017), escrito por Ben Ripley a partir do filme “Linha Mortal”, dirigido por Niels Arden Oplev, com Ellen Page, Nina Dobrev, Diego Luna, James Norton, Kiersey Clemons, Kiefer Sutherland, Madison Brydges e Miguel Anthony.


Trailer – Além da Morte

Outros artigos interessantes:

Sobre o autor

Mariana González é jornalista e colaboradora do CinemAqui desde 2013. Além de escrever sobre cinema, tenta se aventurar atrás das câmeras. No Twitter, pode ser encontrada no @mariszalez.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.