Alguns filmes não precisam ligar para seus tamanhos para serem grandes. Basta apenas contar uma história tão grande quanto algum sentimento ou sensação que o resultado é a garantia de um filme enorme. A produção meio uruguaia, meio brasileira, Além da Estrada é um desses exemplos.

E qual sentimento é esse? Talvez seja “saudades”. Ou melhor ainda, aquele sentimento de que ao olharmos para trás tudo parece incompleto, o que faz com que o futuro sempre seja vazio e apenas uma ponte que parou de ser construída e só permite que você vá a até o meio enquanto tudo continua indo.

Nele, Hugo Arias vive um jovem que cruza o interior do Uruguai para buscar uma escritura, nesse caminho tromba com a belga Juliette (Jill Mulleady), que pretende encontrar um velho conhecido em uma espécie de comunidade nos cafundós do país.

Mas nem a escritura importa, muito menos o hippie amiga de Juliette, Além da Estrada é sobre essa transformação entre o presente e tudo aquilo que se torna memória e passado. Enquanto dirigem por essa parte quase rural do Uruguai, seus caminhos passam ainda pela “vida real” daquele mundo esquecido. Cada relato, cada personagem, cada lembrança dos moradores locais é uma viagem a um tempo onde tudo fazia mais sentido. Ainda que mais simples.

É essa simplicidade que Juliette está em busca. Não de um relacionamento desgastante onde sua roupa pode não ser propícia, mas sim da liberdade de dançar, ser feliz e se sentir realmente importante diante do mundo. Enquanto ela vê no passado uma possibilidade para o futuro, o protagonista parece preso aos dias que já se foram.

Vai em busca da tal escritura, enquanto parece se sentir obrigado a falar do emprego em Nova York que não tem mais e dos pais que morreram (“mas já está superado”). Na verdade, não está, e quanto mais eles se afasta daquilo tudo que já era comum a ele, mais parece nascer uma nova pessoa, uma sensibilidade que permite que seu relacionamento com Juliette seja tão simples como mãos dadas ou uma corrida pelo meio de um hotel. Entretanto, àquele cara do passado volta à tona quando seu ego se deixa levar pela impressão da posição social.

Além da Estrada

Além da Estrada vai em busca das respostas desse jovem que parece perdido em meio a pressão que joga sobre sua própria vida. O que encontra é a sensação de que o melhor mesmo é seguir em frente em busca daquilo que o faz feliz, mesmo que isso signifique sair do seu mundo e ir mais uma vez em direção a uma liberdade somente recém descoberta.

E todo esse caminho é marcado por um trabalho impecável do diretor carioca Charly Braun, sempre em busca de entender e conhecer esse país, desde sua parte a beira-mar. Sua câmera é firme e parece sempre estar em busca desses belíssimos cenários por onde seus personagens passam, mas mais do que tudo, nos pequenos detalhes que compõe aquele mundo e aquelas pessoas. Braun cria um filme riquíssimo, não só em termos estéticos, quanto sensoriais.

Mesmo comandando seu primeiro longa, Braun já deixa transparecer não só um estilo extremamente marcantes, como ainda uma maturidade narrativa digna de um diretor experiente.

Lindo, sensível, marcante e mais do que tudo, verdadeiro, Além da Estrada é uma história de amor como poucas, que começa e termina enquanto esses personagens cruzam um rio, mas o que no começo é um encontro casual, no fim é apenas a abertura para muito mais histórias. Afinal o presente é feito para ir sendo vivido a cada ponte que é construída, a cada balsa que é deixada para trás e através de tudo que cruza nossos caminhos.

*o texto faz parte da cobertura do 2° Santos Filme Fest


“Por El Camino” (URU/Bra, 2010), escrito e dirigido por Charly Braun, com Hugo Arias, Jill Mulleady, Naomi Campbell e Guilermina Guinle


Trailer – Além da Estrada

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